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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
5.2.2. Até a contemplação eterna da Beleza de Deus que nos transforma em sua imagem
Na Vida de Moisés, Gregório usa um termo adequado para expressar o encontro entre Deus e o homem, entre o Amor infinito e o amor criado: a insaciabilidade. O caminho não tem fim, é inesgotável como Deus.
Há, então, um progressivo encontro com a Beleza, que é Deus (11). Mas, como essa ascensão pressupõe uma paulatina assimilação da imagem de Deus, não pode parar, porque isso significaria ter alcançado o limite de Deus. E nisso consiste a bem-aventurança.
É principalmente em suas homilias sobre o Cântico que ele trata da gradualidade dessa subida para a contemplação da Beleza. A linha é a mesma de Orígenes, falando da esposa-Igreja e da esposa-alma. Orígenes tinha determinado três momentos na subida da alma até Deus: a ética, a física e a teoria, que fazia corresponder aos Provérbios, ao Eclesiastes e ao Cântico dos Cânticos. Na primeira de suas Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, Gregório retoma essa divisão e relaciona os três livros com as idades espirituais: a infância - incipientes - (Provérbios); a juventude - proficientes - (Eclesiastes) - e a maturidade - perfeitos - (Cântico dos Cânticos).
A fase dos incipientes se caracteriza pela purificação; é a passagem da escuridão para a luz, entendida como o desapego dos conceitos errôneos sobre Deus e o esforço por imitar totalmente a Cristo. Essa fase purificatória termina na apáteia (a despreocupação pelas coisas vãs) e na parresia (a liberdade sem temor), frutos da confiança em Deus.
Com os proficientes há uma maior fidelidade na reprodução da imagem de Cristo na alma, há uma manifestação de Deus de modo misterioso e obscuro, e se tem uma clara experiência de sua presença. Quanto mais se avança nesse caminho de perfeição, mais são refletidos na alma os traços de Cristo, até chegar a reproduzi-los de tal maneira em si mesma que quase não se distingue da Beleza original. Utiliza a imagem do espelho, de tanta influência na literatúra mística.
Essa escalada ascensional é um movimento de caridade, pelo qual o sensível vai sendo substituído pouco a pouco pelo espiritual, sem voltar à sujeira que se deixou para entrar na presença de Deus Abrir-se a Deus que entra, é, conseqüentemente, ver como se afasta o que não é Deus na alma.
Finalmente, a última fase corresponde aos perfeitos, cuja maturidade consiste em ver dentro deles a imagem buscada do esposo amado. Não é uma visão de Deus, mas um sentimento de presença na realidade da graça. Essa presença poderia aplacar a sede imensa do Esposo suspirado, mas, na realidade, gera um novo êxodo.
É a doce-ferida do amante e do místico de que nos falam tantas páginas amorosas da história humana, tanto por Deus como por uma pessoa humana. Gregório usa a metáfora do vinho e do lagar na Homilia 4: no fundo, Deus é um Esposo que se transforma ao mesmo tempo na sede que queima e no vinho que sacia. O conhecimento de Deus no espelho da alma exige a sua purificação até chegar à semelhança de Deus perdida no pecado. É esse objetivo que estrutura todo o caminho das obras místicas de Gregório. Na última etapa, a dos perfeitos ou maduros, se caracteriza pela contemplação unitiva de Deus como Esposo da alma esposa.
A idéia de que a contemplação transforma na imagem do Esposo também esta em Santa Clara (2Ctln 12) como vamos ver no cap. 9 sobre a contemplação. Poderia haver alguma influência de São Gregório de Nissa. Acreditamos que pelo menos indireta houve, pelas suas reflexões a partir das pregações de cistercienses.
(11) No Processo de Canonização, as Irmãs recordam que Santa Clara saía da oração com o rosto transfigurado. Como Moisés quando descia do Sinai. A LSC confirma. cf ProcC 1,9; 6,3; LSC 20
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