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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
6. O Esposo na Aliança Bíblica
Através dos místicos, Clara foi levada ao Cântico dos Cânticos e aos Santos Padres. Através dos Santos Padres passou do Cântico para a Aliança e redescobriu em uma profundidade maior o Esposo Jesus Cristo. Com o Jesus Esposo, ela "saiu do século" e foi para a plenitude: ser "com a Virgem Maria coroada", como tinha dito São Francisco.
Vamos dividir este capítulo em três grandes seções:
O Cântico dos Cânticos
A Aliança e os Profetas
Jesus é o Esposo
6.1 O Cântico dos Cânticos
Pelas mãos dos Santos Padres somos levados - numa leitura do Antigo Testamento à luz do Novo - ao coração da Bíblia, em que o Cântico dos Cânticos nos fala da mais profunda união ao Deus infinito que nos ama. Ao introduzir o seu Comentário ao Cântico dos Cânticos, Orígenes escreveu:
"Para mim, Salomão escreveu em forma de drama este epitalâmio, isto é, um cântico de casamento, e o cantou como se fosse o de uma noiva que vai se casar e está inflamada de amor celeste por seu esposo, que é o Verbo de Deus" (12)
Santa Clara chega a usar essa mesma expressão "inflamada de amor celeste" certamente porque conheceu o Comentário de Orígenes sobre a "chama de amor", pelo menos através de São Bernardo.
É surpreendente encontrar na Bíblia um livro como o Cântico dos Cânticos, com seu forte apelo erótico. Mas é bom lembrar o que disse o rabi Aquibá (+ 135 dC), defendendo o valor e a pureza desse livro:
"Que ninguém em Israel diga que o Cântico dos Cânticos toma as mãos impuras, pois o mundo inteiro não é digno do dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel".
Na visão dos sucessivos pactos com Noé, Abraão e Moisés, e dos esponsais com o Povo, ele é um livro central: comunica que é Deus quem toma a iniciativa de vir como esposo ao encontro da esposa, o Povo. Vamos destacar dois pontos.
6.1.1 O amor é caminho divino do homem
Lemos nos Provérbios: "Há três coisas que me ultrapassam, e uma quarta que não compreendo: o caminho da águia no ar, o caminho da serpente na pedra, o caminho da nave no mar, o caminho do homem na donzela" (Pr 30,18-19). O amor entre um homem e uma mulher é um "caminho", como caminhos são três grandes elementos naturais: o ar, a terra e a água. Então, podemos pensar que é o quarto elemento: o fogo.
O amor humano aqui exaltado é uma porta para penetrar no amor divino. A Bíblia apresenta os traços de Deus em linguagem humana, e também descreve o homem de acordo com um plano divino: faz uma antropologia de Deus e uma teologia do homem. Seus textos têm leituras diversas de acordo com os alegoristas ou com os literalistas.
Para nós, a interpretação simbólica capta o melhor do que foi indicado por uns e outros, buscando uma harmonia propriamente "simbólica". Porque a interpretação literal (erótica ou romântica) é incapaz de acolher o que a tradição judeu-cristã viu no sinal nupcial, por não deixar um espaço transcendente para além do amor. E interpretação espiritual peca por não levar a sério a realidade do texto: o universo amoroso, reduzindo-o a uma moral para evitar que o espiritual seja "manchado" pelo carnal.
6.1.2 A chama do amor. O mistério de um fogo comum
"Grava-me como um selo em teu coração. Como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor, implacável como o abismo é a paixão; e seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas. Nem as águas caudalosas conseguirão apagar o fogo do amor, nem as torrentes o podem submergir" (Ct 8,6-7).
O amor humano do Cântico dos Cânticos abre-se até vir a ser o símbolo mais eloqüente para falar de Deus. Sem deixar de ser plenamente humano, o amor adquire um valor místico que o torna adequado para representar o amor de Deus. O Cântico dos Cânticos não quer testemunhar apenas um amor humano, mesmo com toda a sua beleza: ele evoca continuamente algo mais além no próprio mistério do amor. O livro não enfrenta um desenvolvimento "religioso" do tema. Apenas sugere, a não ser quando fala da "chama de Javé".
Seria inadequada uma interpretação literal-erótica, mas os elementos corpóreos, sexuais e sexuados do livro são importantes. O amor que brota transparente de um coração apaixonado já é uma realidade divina. O amor sempre é limpo; não precisa de água benta. Se houver pecados serão injustiças ou abusos contra a pessoa, como pode acontecer com qualquer outra coisa sagrada.
Se as primeiras palavras humanas da Bíblia são o canto admirado do homem diante daquela que lhe foi dada como ajuda semelhante: "Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne", o Cântico dos Cânticos seria uma prolongação desse mesmo êxtase amoroso, celebrado por ele e por ela.
Nesta concelebração extasiada no jardim do amor, são convocadas também as criaturas: aqui brilharão o sol e a lua; o amanhecer e o anoitecer trarão a luz ou o mistério; estarão presentes os perfumes e aromas ... e tudo que pode expressar a embriaguez e a doçura do amor. Todo o poema amoroso leva a uma expressão característica do amor esponsal: a recíproca pertença. Diante de Javé, a amada diz: "Meu amado é meu e eu sou dele". O Cântico é uma grandiosa e gloriosa bênção de Deus sobre o amor humano, sobre o matrimônio, sobre a ternura. A história de amor narrada neste livro é uma história precisamente esponsal, cercada e enriquecida de fascínio apaixonado até uma total consumação transformadora, como sugere a expressão "chama de Javé".
A tradição cristã que se expressa na liturgia e na exegese através dos séculos leu o Cântico identificando a esposa com a comunidade eclesial e com cada alma cristã. O maior número de comentários foi no séc. XII. Mas os comentaristas cristãos, quase sempre monges, nem sempre souberam respeitar o realismo humano do Cântico. Em vez de lê-lo como símbolo, converteram-no em alegoria intelectual, que se alimenta do cadáver da imagem. Esmiuçaram quadros e cenas, para traduzir cada detalhe a um conceito ou idéia espiritual. Não é esse o caminho.
Para entrar na espiritualidade de Santa Clara, estamos considerando que ela - como a esposa do Cântico dos Cânticos - festejou o amor do Esposo em tudo que escreveu para Inês de Praga, especialmente no "Hino à Pobreza", de sua primeira carta, e no "Feliz é você", da sua quarta Carta. E que Francisco, o seu companheiro humano da aventura esponsal, também se arrebatou no "Cântico de Frei Sol" e no cântico "Ouvi pobrezinhas". Mas de uma maneira toda especial nos Salmos que criou para o Ofício da Paixão e em quase todas as suas orações. Eles entraram na torrente dos cânticos bíblicos.
(12) Orígenes, Comentário ao Cântico dos Cânticos, I, 1.
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