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São Paulo, 12/02/2012
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Abrace o Cristo Pobre

Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)

Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

6.2.1 Oséias
Foi profeta entre 750-725 AC. Nasceu e cresceu num dos poucos tempos de esplendor de Israel, mas também enfrentou uma das circunstâncias mais duras. Corrupção, abusos econômicos e ambigüidades militares foram destruindo tanto o estado de direito como o relacionamento entre o Povo e seu Deus. Por isso, Oséias foi duro contra os governantes. Mas também enfrentou o período mais crítico da idolatria no culto a Baal.

O estabelecimento na Terra Prometida tinha levado muitos israelitas, antes pastores, a serem agricultores. Por isso, passaram a pensar que um Deus de pastores não servia para suas atividades agrícolas e precisavam de um deus que os ajudasse a cultivar a terra. Foram passando para a Baal e para seus cultos. Javé continuou a ser o Deus do povo, mas quem satisfazia as necessidades primárias era Baal. Era ele quem dava o pão e a água, a lã e o linho, o vinho e o azeite. Mas Javé era ciumento e não admitia competições.

Oséias não comunicou algo revelado: sua vida se fez revelação, Deus falou no que ele viveu. A eterna fidelidade de Deus torna-se palavra viva no drama da infidelidade sofrida por Oséias. O profeta foi um esposo profundamente apaixonado e depois traído, que sofreu cruelmente as infidelidades da esposa, a tortura de um coração que experimentou na escuridão as claridades fulgurantes do amor de Deus.
À luz dessa experiência, Oséias contemplou um Deus que manifesta ternura de um esposo cheio de carinho e, ao mesmo tempo, toda a dor de um amante enganado. É um Deus que suplica, se lamenta, exorta, ameaça, castiga, se afasta para despertar o desejo de um volta sincera. Preocupa-se, duvida se deve castigar e sente a dor de ter tido essa dúvida, cheio de ternura e compaixão. E no fim se acalma, prometendo uma reconciliação definitiva. Até então, Deus não tinha falado ao homem dessa maneira.

6.2.2 Isaías
O  Primeiro lsaías (1-39) faz uma denúncia da desilusão de Deus, com um ponto alto no "Poema da vinha". Supõe uma relação nupcial entre o Senhor e sua vinha, símbolo de Israel, uma relação cheia de ternura, indicada pela expressão dodî (meu amado). O profeta se apresenta como o "amigo do esposo". A ternura apaixonada de Deus por sua "plantação preferida" se revela nessa seqüência de iniciativas de amor: "ele a escavou, preparou e plantou boas cepas; construiu uma torre e cavou um lagar...". Mas sofreu uma rejeição, infiel e injusta, que o profeta amigo-do-esposo teve que registrar com amargura.
Amor e desilusão são a base desta leitura simbólico-nupcial da história de Israel e Judá diante um Deus esposo. Quando João retoma essa imagem, há duas mudanças importantes: a) a vinha já não é o povo, mas o Filho enviado por Deus, em quem se enxertam os homens; b) em vez de "justiça" fala em "amor", que engloba e radicaliza a justiça.

O Segundo Isaías (40-55) acontece numa situação diferente. Israel está desterrado na Babilônia e a palavra profética adota um tom de misericórdia. É o grande poema da volta do desterro. Este autor anônimo do séc. VI AC define todos os matizes do amor em um tema nupcial de finíssima lírica. Descreve Israel antes da aliança com Deus como uma mulher estéril, sem marido, sem filhos. Mas o Senhor apareceu, e foi capaz de superar todo tipo de esterilidade, capaz de fazer da estéril uma mãe feliz. Israel precisou ampliar a tenda de sua família.

O Terceiro Isaías (55-66) se apresenta no meio da pobreza e do desânimo dos repatriados no período pós-exílio. O canto nupcial deste Isaías está no capítulo 62. Uma breve antecipação introduz o poema da nova Jerusalém: o Senhor reveste Israel com o manto nupcial e entra com ele na cena, solene e gloriosamente: "eu me alegro com meu Deus: porque me vestiu um traje de gala e me envolveu em um manto de triunfo, como noivo que se coroa ou noiva que se adorna com suas jóias".

Toda esta parábola nupcial se encerra na alegria transbordante de um Deus-jovem-esposo, que toma por esposa aquela que ele fez com suas mãos: "Como um jovem se casa com uma donzela, assim te desposa aquele que te construiu" (Is 62,5).

A voz do esposo rompe o silêncio antes de aparecer a estrela da manhã. Jerusalém se transforma numa esposa impaciente, intensamente dedicada aos preparativos da festa. O esposo aparece como o sol brilhante: a cidade é tomada pela luz solar e se vê como uma resplandecente coroa de ouro. A cidade é a própria coroa que o esposo coloca na cabeça da princesa que vai receber o "nome novo": "Já não te chamarão 'a Abandonada' nem à tua terra 'a Devastada'. Vão te chamar 'Minha Preferida' e à tua terra 'a Desposada'''.

6.2.3 Jeremias

Também usou a simbologia esponsal. Ele nasceu em Anatot, da tribo de Benjamim, em meados do séc. VII AC. Podemos seguir seu itinerário trágico e comovente. Jeremias percorreu-o apaixonadamente, perdido entre as saudades dos oráculos de promessa e a presença dos oráculos de ameaça que Deus lhe impôs; entre a obediência à missão divina e a solidariedade com seu povo sofredor. Com olhos lúcidos, iluminados por Deus, tem que ir assistindo ao fracasso sistemático de toda sua vida e atividade.
A temática esponsal como simbologia aparece nos capítulos 2-3 de seu livro. O amor de Deus é mostrado em um solilóquio divino dentro de um grande apelo de Javé a seu povo: amor e fidelidade são indissociáveis, e atentar contra a fidelidade é tornar sacrílego o próprio amor. O termo hesed na linguagem bíblica é a virtude da aliança por excelência, e expressa também a atmosfera de fidelidade amorosa que vincula os namorados, como Deus não se cansa de mostrar através de Jeremias, porque é um profeta da ameaça e do castigo, mas também da consolação e da esperança.

6.2.4 Ezequiel
Ezequiel vivia serenamente seu casamento, e estava apaixonado por sua esposa, que chamava de "o encanto de meus olhos". Ela morreu de repente e a dor ajudou o profeta a entender o que o esposo-Deus sofria diante do abandono da esposa-Israel. Israel era como uma jovenzinha selvagem e abandonada. Deus passou e, com gestos tipicamente esponsais na simbologia bíblica, apresentou-a como resgatada e engalanada. Ela correspondeu prostituindo-se com toda espécie de traições e abominações.
A resposta de Deus-esposo é a surpreendente novidade de quem acolhe sempre numa incansável misericórdia, sem permitir que a história acabe em traição. Diante dessa atuação amorosa do Deus-esposo, Israel-esposa voltará e pedirá o perdão a Deus, abrindo um novo e definitivo horizonte de amor e de fidelidade. Essa seria, em resumo, a mensagem profética em relação ao tema que nos ocupa.

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