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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
6.3 A nova Aliança – Jesus é o Esposo
6.3.1 Jesus é o verdadeiro Esposo
A história da salvação chega à meta na revelação de Jesus, Palavra definitiva de Deus, que vem recapitular o que tinha sido dito no Antigo Testamento através de tantos mediadores e mensageiros a cada geração histórica. Na Pessoa de Jesus, Deus abraça o homem (Filho de Deus) e o homem abraça Deus (Filho do homem). Sua natureza divino-humana apresenta-nos uma união excepcional, porque na humanidade de Jesus realiza-se com perfeição tudo que a humanidade histórica (povo e cada indivíduo) está chamada a viver com seu Criador. Jesus Cristo-Deus é o Esposo que vem ao encontro da humanidade e, ao mesmo tempo, Jesus Cristo-homem é essa humanidade esponsal encontrada por seu Criador, a Cabeça de um corpo que constitui a humanidade nova desposada com a Trindade.
Nas Bodas de Cana (Jo 2,1-11), João apresentou uma cena carregada de simbolismo esponsal, que culmina numa declaração em que está a chave simbólica de todo o relato e de sua significação cristológica esponsal: "Todo mundo serve primeiro o vinho melhor, e quando os convidados já estão um tanto bêbados, vem com o pior. Tu guardaste até agora o vinho melhor". Em Caná, fala-se três vezes do vinho e não se diz o nome dos noivos: o vinho estava associado na literatura profética ao anúncio dos tempos da restauração messiânica quando Deus desposará seu povo na fidelidade e no amor. As palavras ditas ao noivo são aplicadas a Jesus: Jesus fez seu primeiro sinal. Tudo consiste na presença do esposo que começa a se manifestar.
6.3.2 O amigo do Esposo
O comportamento de João Batista em relação a Jesus é explicado por uma figura semítica dos casamentos: o amigo do esposo. Sua missão era acompanhar o esposo e contribuir para o esplendor da festa.
Por isso, o amigo "tinha que diminuir para o esposo crescer". No contexto nupcial "crescer" alude à bênção dada por Deus ao homem em Gn 1,28: "Crescei e multiplicai-vos", indicando a fecundidade da aliança definitiva inaugurada pelo Messias. João é o amigo do esposo. Com a chegada de Jesus-Esposo, começa o tempo messiânico e se celebram as Bodas entre Deus e seu povo.
Paulo também reivindicou um lugar de amigo do esposo: "tenho ciúmes de vós, ciúmes de Deus, porque vos prometi a um só marido para apresentar-vos a Cristo como virgem intacta" (2Cor 11,l-3).
6.3.3 A esposa ouve o Esposo
A alegria de escutar a voz do Esposo não foi privilégio do Batista: é parte do discipulado cristão escutar aos pés do mestre, como no modelo rabínico. Essa é uma nota interessante da vocação cristã contemplativa, prefigurada em Maria de Betânia, mas que tem seu ponto alto em Maria de Nazaré. Uma longa tradição viu em Nossa Senhora o elo entre os dois Testamentos. Ela foi muitas vezes invocada como a filha de Sião, em quem se cumpriram as profecias messiânicas do Antigo Testamento.
Nos evangelhos de Lucas e de João, Maria inaugura e antecipa a nova Salvação. Ela seria a Virgem, a Mãe e a Esposa. O mistério nupcial da Virgem Mãe se entende especialmente em relação com Aquele que, dentro do mistério de Deus, é a nupcialidade eterna do Pai e do Filho, e na economia da salvação é o artífice da aliança esponsal entre Deus e se povo. Na figura da Esposa condensa-se o dom acolhjdo pela Virgem realizado na Mãe: o céu desce para a terra e firma suas raízes; a terra saboreia o amanhã de Deus que lhe foi dado e prometido.
Dentro da aliança esponsal protagonizada na história salvífica por Deus e seu povo, Deus e cada pessoa humana, Maria esposa do Paráclito indica com sua própria vida o mistério nupcial que o Espírito constrói. Podemos dizer que há uma analogia entre o que o Espírito faz em Maria e o que faz na Trindade e na história da Igreja, e por isso a esponsalidade da Virgem prolonga na história cristã na relação pessoal que cada crente e todo o Povo de Deus têm com o Espírito Santo: entrega incondicional (fiat), acolhendo a Palavra, meditando-a no coração, vivendo-a cada dia e dando-a à luz pelo testemunho da existência. Pavel Evdokimov disse que Maria, pela força do Espírito Santo, gerou Deus na terra e o homem no céu.
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