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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
6.3.4 A Igreja, Esposa do Verbo A Igreja é a "esposa" por excelência, como Jesus é o "esposo". Maria faz parte da Igreja e, como tal, participa dessa esponsalidade eclesial. Maria representa a parte da Igreja que conseguiu viver fielmente a vocação esponsal. O Senhor quer ver sua Igreja como Esposa bela, digna dele. Maria é aquela subjetividade capaz de corresponder plenamente, em sua maneira feminina e conceptiva, à subjetividade masculina de Cristo, pela graça de Deus. Ela é o espaço eclesial em que Deus se vê correspondido esponsalmente. Mas Maria não esgota todo o Povo de Deus. É à Igreja que corresponde o título de esposa.
O ponto messiânico mais alto coincide com o cumprimento de todas as profecias e promessas em torno à figura do Esperado, que aparece como o Esposo. O tempo cristão com referência à comunidade messiânica - considerada biblicamente como "Esposa" - é definido como o "tempo do Esposo".
Na carta aos Efésios (Ef 5,2l-33), o amor esponsal de Cristo gira em tomo de um texto que costuma ser chamado de "mesa doméstica" porque tem indicações para a vida de família: os cônjuges, os filhos, os escravos. Fiquemos com o que diz a respeito dos cônjuges: "Maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para purificá-la com o banho da água e da palavra, e consagrá-la, para apresentar uma Igreja esplêndida, sem mancha nem ruga ou nada semelhante, mas santa e imaculada".
Podemos ler paralelamente 2Cor 11, em que se diferencia o período do noivado e o casamento: a comunidade de Corinto era só a "noiva" de Jesus-Esposo; o casamento estava marcado para o dia final. É sempre um processo. Neste período, Cristo se dá à Igreja, renova sua oferta e seu amor por ela, santifica-a com os sacramentos, dirige-a pessoalmente para que chegue a ser sem mancha nem ruga. Cristo é o Esposo, a Igreja é a Esposa, mas a esponsalidade ainda não é plena. A Igreja é como a jovem que foi desposada; já está consagrada ao Esposo-Cristo, por quem já entrou no estado jurídico de casada, mas quando for introduzida na casa do Esposo estará definitivamente com ele, participando plenamente de sua glória divina.
Na mesma linha, podemos encontrar no Apocalipse uma descrição da relação esponsal entre Cristo e a Igreja. O Apocalipse tem uma visão dramática e integral da história como um campo de batalha. Nesse campo se apresenta o tempo do Messias-Esposo, que entra na história humana para encontrar e redimir a Esposa-Igreja infiel, e o tempo do Esposo é, ao mesmo tempo, o tempo dos ciúmes de Deus em seus dois aspectos de amor colérico e salvador, sem que isso implique volta a uma imagem de Deus mais própria do Antigo Testamento.
O Apocalipse trata disso em dois tempos: primeiro, o amor jovem e volúvel, generoso e frágil; segundo, a comunhão plena e eterna do Esposo e da Esposa.
6.3.4.1. O "amor primeiro", entre a generosidade e a fragilidade
Cristo-Esposo está sempre presente na vida da comunidade e de cada cristão: as chamadas cartas às sete igrejas são testemunho dessa solicitude de Cristo que conhece e acompanha sua Igreja. Vamos ver duas dessas igrejas: a de Êfeso e a de Laodicéia.
A carta à comunidade de Éfeso começa com uma descrição elogiosa das "virtudes" conquistadas' por esta igreja. Os cristãos de Êfeso têm um compromisso real, um amor sincero por Jesus ressuscitado que justifica as coisas boas que estão fazendo, a ponto de enfrentar provas e dificuldades.
Mas depois disso há uma quebra, e a comunidade corre o risco de arruinar suas luzes (será excluída do candelabro, na comunhão das igrejas), pois esqueceu o primeiro amor. Recordam-se os ciúmes de Deus como um eco de Oséias, quando Javé também recriminava a infidelidade da esposa, aludindo ao amor da juventude, ao período do deserto.
Mas o mensageiro de Deus propõe a volta ao primeiro amor usando três imperativos: lembra-te, converte-te, faz: três atitudes basilares da história de Israel: recordar.
Na carta à comunidade de Laodicéia há outro exemplo de como o Ressuscitado adota um tom exortativo-ameaçador para expressar seus ciúmes esponsais pela Igreja concreta. Denuncia apaixonadamente o que não é correspondência amorosa por parte de quem dele tinha recebido tudo. O delito de Laodicéia não está na falta de amor, mas na tibieza de sua entrega. Essa situação de indiferença merece a tremenda admoestação: porque és morno, vou te vomitar de minha boca. Mas a "cólera divina" pertence ao estilo dos ciúmes de Javé, que é sempre misericordioso.
6.3.4.2. As núpcias últimas e definitivas
Depois de toda uma história grávida de verdade e de fragilidade na relação da Igreja com Deus, vem o momento escatológico em que se celebrarão para sempre as Bodas de Cristo-Esposo e da Igreja-Esposa (incluindo cada pessoa). O Apocalipse apresenta duas notas sobre essa realidade final.
Em primeiro lugar, no capítulo 19, depois de descrever a queda da Babilônia, celebra-se a relação esponsal entre o Cordeiro e a Igreja. A Igreja deve fazer e vestir um traje especial para o casamento. O linho puro resplandecente consiste nas "boas obras dos santos", imagem fundamentada no conceito paulino da relação entre graça e boas obras, que lhe permite entrar na ceia nupcial.
Em segundo lugar, há uma insistência na dimensão eclesial dessas núpcias. São núpcias com a cidade santa, a Jerusalém nova, adornada como noiva para seu noivo. Nenhum cristão é isolado. A comunidade de pessoas, a comunhão dos santos, supõe uma partilha real da vida como morada solidária de Deus no meio deles.
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