Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012
O Carisma
     O CARISMA
     Últimas Notícias
     São Francisco
     Santa Clara
     As Três Ordens
     OFS
     JUFRA
     CFMB
     FFB
     Santos Franciscanos
     Símbolos
     Fontes Franciscanas
     Documentos da Ordem
     Curso do Carisma
     Ecologia & Espiritualidade
     Sites Franciscanos
     Assis: Imagens
     Bibliografia Franciscana

Untitled Document
Abrace o Cristo Pobre

Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)

Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

6.3.5. Clara saiu para estar com Ele
Santa Clara não saiu de casa para ir a algum lugar determinado: ela saiu para estar com o Esposo. Na noite de um Domingo de Ramos, abandonou sua casa. Na Porciúncula, foi consagrada pelo corte dos cabelos. Nem dormiu lá: esteve uma semana em um mosteiro de beneditinas. Mas também não ficou lá. Esteve uns poucos meses em Santo Ângelo de Panço com um grupo de leigas, que também estavam na busca de Deus. Passou o resto da vida - quarenta anos - em São Damião. Mas nunca achou que fosse lá a sua morada permanente. Era "peregrina e forasteira". Queria apenas estar com o Esposo, onde Ele estivesse, enquanto Ele estivesse. Mais tarde, ela escreveria:

"As Irmãs não se apropriem de nada, nem casa, nem lugar, nem coisa alguma. E como peregrinas e forasteiras neste mundo, servindo ao Senhor na pobreza e na humildade ... (RSC 8,1-2).
 
Quando São Francisco foi levado para o meio dos leprosos e teve a experiência de "usar de misericórdia" com eles, disse que, depois, se demorou pouco e "saiu do século". Encontrar-se com Deus, viver a misericórdia, que é a Hesed hahamin (o Amor que é próprio de Deus, na Bíblia), levou-o a "sair do século". Que quer dizer isso?
 
Para nós, hoje, a palavra século significa um período de cem anos. Na língua latina saeculum referia-se ao tempo que os gregos chamavam de Crónos = o tempo que pode ser medido. Nossos cronômetros e cronologias marcam as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos ... A ele se opunha a palavra grega Aión, com uma versão latina que era Aevum, um tempo que não se mede, sem começo nem fim. Em grego, a palavra Aión é parente de Aéi, o Sempre.
 
Quando São Francisco disse que "saiu do século" quis significar que a experiência de Deus o levara a sair do tempo dos homens e passar para o tempo de Deus. Sair do tempo cronológico e passar para o Sempre.
 
É interessante que os anacoretas e monges antigos tinham cunhado a expressão "fuga do mundo", para expressar sua entrada na vida religiosa. São Francisco - em um novo estilo de vida religiosa -, não fugiu do mundo dos homens para uma abadia em algum lugar afastado, nem para uma ermida: ele ficou em Assis. Mas ficou em Assis de outro jeito: já não era mais um homem movido pelos sonhos dos seus contemporâneos e concidadãos: queria ser um "peregrino e forasteiro", um cidadão do céu. Não tinha nesta terra morada permanente; sua casa era a Jerusalém do alto, a definitiva. Ele era um homem que vivia a comunhão com o Deus Esposo e que queria fazê-lo presente no mundo que não permanece, que passa.
 
Mas ele não podia sair do tempo dos homens sem sair do lugar dos homens. Ficou em Assis e na Itália do século XIII, mas, na realidade, era m homem do "não-tempo" e do "não-lugar", quer dizer: do tempo e do lugar de Deus. E aprendeu a viver outro tipo de tempo, que a Bíblia ensina e que era conhecido na cultura grega: o Kairós. Diferentemente do Crónos, "que vai contando o tempo que passa, o Kairós é aquele tempo fugidio, que passa em um momento e não permanece; é um encontro oportuno e único ntre o tempo de Deus e o tempo dos homens.
 
Santo Tomás More, um franciscano secular, deve ter entendido isso - quando criou a palavra Utopia. Formada com o grego "u" (= não) e "topos" (= lugar) é uma palavra que quer dizer exatamente "não-lugar". Quem escobre Deus vê que não tem lugar no "mundo dos homens", tendo sido enviado como Jesus e com Jesus para estar nesse lugar. Descobre-se em um não-lugar. Para sermos completos, descobre-se também no tempo de Deus ou, diante das outras pessoas, em um "não-tempo". Não está mais no lugar no tempo em que os homens que se esqueceram de Deus estão construindo o seu próprio mundo.
 
Tomás More não era um alienado. A Utopia, nome do livro que ele escreveu - e uma palavra tão usada até hoje - não era algo impossível, como muita gente parece pensar: Era um sonho possível: ele deu o nome de Utopia a um país longínquo, para mostrar que a Inglaterra do seu tempo, cheia de problemas, podia ser reconstruída com princípios diferentes. E quem estuda o livro Utopia e conhece melhor Tomás More percebe como ele se apoiou no "saí do século" de São Francisco.
 
A santidade sempre comporta uma "fuga mundi" mesmo quando o individuo - por ter desposado Deus em Jesus Cristo - não sai do meio das outras pessoas, como aconteceu com Francisco de Assis. Mas também os que entraram no "não-lugar" e no "não-tempo" abriram o espaço interior para Deus, acolheram o Deus que é Liberdade e que é Amor, começaram a enxergar o mundo com os olhos de Deus e, como Jesus Cristo, são enviados de novo ao mundo de todos os homens e mulheres. Não para se identificarem com ele: para o transformarem. "Estão no mundo sem ser do mundo".
 
Talvez seja mais compreensível, hoje, não falar em "fuga", mas em mudança de perspectiva. No "lugar", amar é possuir ou é responder a uma necessidade; no "não-lugar" ama-se a partir de Deus, depois de ter acolhido Deus no espaço interior. Aliás, o "não-lugar" é o jeito de criar o "espaço de Deus dentro do coração". É uma outra perspectiva para o amor. A pessoa é acolhida como parte da presença de Deus e recebe o nosso amor no mesmo ato em que estamos amando a Deus. Para um amor verdadeiro, é preciso estar no "não-lugar" e no "não-tempo" de Deus.
 
Quando conheceu Jesus Cristo através de São Francisco, Clara teve consciência nítida de que não tinha mesmo lugar no mundo de seus parentes e de sua cidade. Digo consciência nítida, porque ela já conhecia Jesus Cristo numa intimidade muito grande e, desde criança, já estava dando demonstrações de que era uma pessoa "diferente". Na medida em que foi passando para Jesus Cristo, foi ficando em um "não-lugar". Sim, porque não se tratava simplesmente de mudar de lugar: todos os lugares conhecidos eram "lugares dos homens", não eram o "lugar de Deus". Havia até presença de Deus no mundo dos homens, mas o "lugar de Deus" parecia mesmo ser outra coisa.
 
A saída da casa paterna teve para Clara um alto valor simbólico: foi o momento em que deixou o lugar que não era dela e começou a viver de fato no "não-lugar" de Deus. São Paulo das Abadessas, Santo Ângelo de Panço, São Damião ... nenhum desses lugares era importante em si mesmo. Eles eram apenas tentativas de mostrar para Deus, para si mesma e para todas as pessoas que ela estava saindo do lugar de todo mundo. Nem o mosteiro e nem mesmo o grupo de Irmãs foram para ela um "lugar" em que podia estar no mundo. Foram o "não-lugar" de Deus. O que não a impediu, pelo contrário, levou-a a ser uma amiga da sua cidade.
 
O "não-lugar" dela não foi exatamente São Damião, mas o mundo da contemplação de Jesus Cristo. São Damião, como as outras casas das Irmãs Pobres era um abrigo simbólico, como já tinha sido o deserto para os eremitas, como já tinha sido o mosteiro para os monges. A única coisa importante era que, ao atravessar a porta daquela casa, uma mulher vivia o sacramento de estar saindo de todos os lugares para entrar no "não-lugar" de Deus. É provável que Francisco, que também se sentira "sem-lugar" quando se desvaneceram seus sonhos de riqueza e glória e quando conVlveu com os leprosos, também tenha tido a primeira experiência concreta de "entrar" no não-lugar de Deus ao passar a porta de São Damião e dar de cara com aquele Crucificado.

VÁ PARA A PARTE 26

Tamanho do Texto: A+ a- << Voltar
Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
Copyright © 2011 Franciscanos.org.br - Todos os direitos Reservados.