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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
7.2. Uma situação liminar Já ouvimos, muitas vezes, falar de "ritos de passagem". São as celebrações que se fazem, por exemplo: para comemorar os quinze anos de uma garota, a coroação de um rei ... Chá de cozinha e despedida de solteiro são ritos de passagem. Qualquer festa de aniversário é um rito de passagem. São comemorações em que festejamos uma mudança de situação na vida de uma pessoa.
Ora, por trás de todo rito de passagem, há uma situação liminar. Vale a pena refletir sobre isso. E vai nos ajudar a pensar no que seja um "não-lugar", ou um "não-tempo".
"Liminar" é um adjetivo da palavra limiar. Limiar é aquela linha que separa o fora do dentro nas portas. E nós vivemos passando por portas.
Considere uma casa, com a sua porta: nós podemos estar dentro da casa, fora da casa, ou passando pela porta. Podemos ficar lá dentro, podemos ficar lá fora. Mas porta não é lugar de ficar, é lugar de passar.
Vamos pensar em um exemplo: o casamento. A pessoa pode estar fora e ser solteira; pode estar dentro e ser casada. Também pode estar na linha da porta: é noiva. Ser solteira ou casada são situações permanentes; ser noiva é uma situação transitória, liminar.
Outro exemplo: uma jovem quis ser religiosa e foi acolhida no "noviciado". A família pode até dizer: "Minha filha ficou freira", mas as religiosas vão dizer: "Não, ela só vai ser freira quando professar no fim do noviciado". De fato, ela não é mais uma pessoa "leiga" e ainda não é uma pessoa consagrada, "religiosa". De certa forma, é uma pessoa "pendurada no ar". Está em uma situação liminar.
Clara, como Francisco, teve uma compreensão bem aguda dessa situação. Foi por isso que os dois citaram a expressão de São Pedro: "peregrinos e forasteiros". Eles não tinham nesta terra sua habitação permanente: eram cidadãos do céu, mesmo que ainda não houvessem chegado lá.
Nos ritos mais significativos de passagem costuma-se usar roupas especiais: roupa de noiva, roupa de rei, roupa de bispo. Servem para simbolizar o seguinte: na situação liminar, a pessoa despe a roupa da vida anterior, do lado de fora, para vestir a roupa da vida nova, do lado de dentro. Há um momento em que é extremamente frágil, porque está sem nenhuma roupa. É uma situação de extrema pobreza, representada pela nudez.
Quem está no não-lugar, deixou de estar no lugar dos homens e ainda não se situou totalmente no lugar de Deus. É um "peregrino e forasteiro", caminha por este mundo "sem bolsa nem calçado" ... suspira por chegar à sua casa definitiva, mas tem que se soltar totalmente nas mãos de Deus.
7.3. Companhia no "Não-lugar"
Clara teve companheiras porque "Deus lhe deu Irmãs" como tinha feito com Francisco. Aliás, uma das primeiras revelações do não-lugar simbolizado em São Damião fora justamente essa: Deus queria encher aquele "não-lugar" de mulheres que renovariam a Igreja e o mundo. Outras mulheres também quiseram estar com Jesus Cristo mesmo perdendo o seu lugar neste mundo.
É verdade que, com o tempo, também entraram pessoas que simplesmente queriam estar ao abrigo de um mundo que lhes parecia difícil ou hostil, sem nunca vir a ter consciência de que o importante era sair para o "não- lugar".
Clara lutou com todas as forças para manter-se no não-lugar de Deus. Por isso, com ajuda de Francisco, criou um eremitério ou espaço de recolhimento em São Damião. Quando lhe deu uma "forma de vida" - que, aliás, foi crescendo com a experiência - quis deixar concreto como é que se vivia no "não-lugar". Creio que é nessa perspectiva que devemos entender tudo que ela escreveu. Era a perspectiva da "Forma de Vida" dada por Francisco em 1212, tão igual a sua "Antífona de Nossa Senhora": o lugar deles era a Trindade, o tempo deles era a Trindade (13).
Creio que o cardeal Hugolino pode ser considerado um amigo apesar de também ter sido um dos que não conseguiram entender o "não-lugar" de Deus, mesmo compreendendo muitas das propostas de Francisco e Clara. Talvez tenha até querido ajudar sinceramente quando protegeu o seu "não-lugar" com uma clausura no estilo que ele entendia. Era o que cabia em sua cabeça de homem do mundo (o mundo eclesiástico, inserido no mundo social e político dos homens, era decididamente um lugar dos homens).
(13) Nos escritos de Clara podemos perceber como ela foi vivendo cada vez mais no não-lugar e no não tempo de Deus. Para dar um exemplo, estou colocando algumas citações de Clara no fim deste capitulo. Faço isso para que a reflexào sobre o nosso tema possa ser ágil.
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