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São Paulo, 12/02/2012
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Abrace o Cristo Pobre

Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)

Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

7.2. Orar no "Não-lugar"
Viver a contemplação de Jesus é viver sem cessar no não-lugar. Mas as pessoas que olham com olhos materiais entendem a contemplação como mais um tipo de oração (ou de reza): como espaços de tempo ou de lugar destinados à oração. Tentam determinar e cercar esses espaços porque não vêem outro jeito de distinguir o "não-lugar" do "lugar".
 
Mas a pessoa que sai para o "não-lugar" está apenas saindo para Deus. Deixa o "século" como um lugar do mundo construído pelos homens que não têm lugar para Deus. Mas não vai para outro planeta. Por isso, mesmo vivendo no mundo de Deus (o "não-lugar"), continua a estar no mundo dos homens que perderam a liberdade (por não estar caminhando decididamente para Deus), ainda que nunca o considere esse o "seu lugar".
 
Enxergar com os "olhos do espírito" é ver as coisas a partir do "não-lugar" deste mundo ou, em outras palavras, a partir do lugar de Deus. Foi nessa perspectiva de um "não-lugar" para as outras pessoas, mas de um verdadeiro "lugar" de Deus, que Francisco enxergou diferentemente os sarracenos, os pobres, os ladrões, o lobo de Gúbio.
 
Vamos ver alguns exemplos de como, mesmo sem tomar Deus em consideração, muitas vezes nós nos sentimos fora do lugar. Quando chegamos um país estrangeiro, olhamos tudo com um olhar diferente, enxergamos de uma forma que não é a das pessoas que já nasceram e sempre viveram lá: tudo nos parece estranho, mas os outros nem desconfiam que no meio deles está alguém que vê tudo diferente. Não sou dali, aquele não é o meu lugar. Estou em um "não-lugar". Outro exemplo acontece quando nos vemos em um ambiente de trabalho ou de vida que nos faz sentir como "um peixe fora da água". Naturalmente, esses exemplos são pálidas alusões: estar no não lugar de Deus é incomparável.
 
Francisco e Clara usam a expressão "peregrinos e forasteiros" (cf 1Pd 2,11) justamente para falar no "não-lugar". Por isso não se deve estranhar que Clara, que nunca saiu de São Damião, também se considere uma "peregrina e forasteira": ela é do lugar de Deus e por isso está sempre no "não-lugar" enquanto vive no mundo dos homens.
 
O aspecto fundamental da itinerância - um ponto chave da espiritualidade franciscana - não é exatamente ficar mudando de lugar, mas viver em qualquer lugar sabendo que lugar nenhum é o meu, porque o meu lugar é o lugar de Deus.
 
Talvez se possa pensar alguma coisa semelhante quanto aos tempos de oração. Não é questão de eu ter um tempo cortado do tempo dos homens para me entregar a Deus, ainda que isso possa constituir um bom "exercício". O contemplativo é uma pessoa que vive sempre "no tempo de Deus", de alguma forma vive o "aion" (o eterno, o tempo não medido) no meio do "crónos" (o tempo humano, que pode ser calculado). Talvez seja justamente por isso que consegue perceber alguns "kairói" especiais: momentos em que o tempo de Deus e o tempo dos homens coincidem e em que, por isso mesmo, a gente consegue fazer passagens do mundo de Deus para o dos homens.
 
A Eucaristia é o grande kairós do tempo de Deus no tempo dos homens. Evidentemente, só para quem vive o tempo de Deus e está fora do tempo dos homens, pelo menos de certa forma.
 
Essa "certa forma" quer dizer: Estou dentro do "tempo dos homens" porque nasci neste mundo e nele vou permanecer enquanto não chegar a minha morte. Também estou dentro do tempo dos homens porque convivo com eles e tento trazê-los para o tempo de Deus. Mas, enquanto a maioria vive o curto tempo que passa, eu já estou vivendo o eterno. Recordemos São João:

Não ameis o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o estilo de vida orgulhoso - não vem do Pai, mas sim do mundo. Ora, o mundo passa e também concupiscências, mas quem faz a vontade de Deus permanece para sempre (1Jo 2,15-17). E este é o testemunho: Deus deu-nos a vida eterna, e esta vida está no seu Filho. Quem tem o Filho de Deus tem a vida; quem não tem o  Filho também não tem a vida (1Jo 5,11-12).

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