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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
7.5. O Reino do "Não-Lugar" Quando veio anunciar o seu Reino, Jesus quis estabelecer dentro do lugar e do tempo dos homens uma situação nova em que todos pudéssemos ir aprendendo a viver o lugar e o tempo de Deus. Ao pé da letra, uma "igreja" (do grego ekklesía = conjunto dos convocados para uma assembléia) seria um grupo de pessoas que aceitaram o convite de Jesus e passaram a constituir um lugar de Deus no meio dos homens. Os homens de fora podem não entender isso, mas as pessoas que estão dentro só podem ser consideradas "chamadas" (de kaléo) se tiverem a consciência de viver em um "não-lugar" no meio do mundo. Construir o "Reino de Deus é isso". E Jesus advertiu que o Reino de Deus está entre nós ou dentro de nós, sem se apresentar com fanfarras.
Nessa perspectiva, como poderemos falar em "não-lugar" de Deus, em "não-tempo" de Deus? Parece que os que nunca conseguiram entender nada disso só podem falar em aspectos pequenos, como "clausura", "tempos fortes de oração" ou "horas de contemplação". E não vão ser as nossas explicações que vão poder deixar essas coisas claras, porque isso não depende de compreensão, depende da graça.
Francisco e Clara se tomaram outros Cristos justamente por isso: entraram no "não-lugar" e no "não tempo" de Jesus Cristo. Para quem está no não-lugar e no não-tempo de Jesus Cristo, que valor têm as conquistas, as riquezas, as vantagens do mundo dos homens? São como areia, são menos do que pó. Eles gostavam de lembrar isso.
Os contemplativos não são pessoas que fogem do mundo. Verdadeiros "contemplativos", quer vivam em mosteiros 'quer estejam no meio do mundo, são pessoas do "não-lugar" e do "não-tempo" que nos fazem viver desde já a eternidade e a liberdade de Deus.
7.6 Onde eu me encontro com a pessoa de Jesus
Na sua segunda Carta a Inês de Praga, Santa Clara a exorta a não perder de vista o seu ponto de partida: ela tinha deixado tudo para seguir Jesus Cristo e, por isso mesmo, devia abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre. O texto é muito bonito e diz:
"Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel: não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe (cf Ct 3,4), mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança ... Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre" (2Ctln 11-13,17-18)
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