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São Paulo, 12/02/2012
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Abrace o Cristo Pobre

Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)

Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

8. As Irmãs-Esposas
Quando escreveu a primeira Legenda de São Francisco, Tomás de Celano destacou entre as qualidades das "Senhoras Pobres" de São Damião o fato de viverem todas como esposas de Jesus:

" ... Em terceiro lugar, o lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor pelo Esposo eterno, que a plenitude desse sagrado afeto apaga toda lembrança da vida passada ... " (1Cel 19).
 
O Papa Inocêncio também as via como Esposas de Jesus (14), porque escreveu no seu Privilégio da Pobreza o seguinte:
 
"Como é manifesto, desejando ardentemente dedicar-vos unicamente ao Senhor, abdicastes ao desejo das coisas temporais; por isso, tendo vendido e distribuído tudo aos pobres, proponde-vos a não ter absolutamente nenhuma propriedade, aderindo totalmente aos vestígios daquele que por nós se fez pobre, caminho, verdade e vida; e desse propósito não as faz fugir nem a privação das coisas; pois a esquerda do esposo celeste está sob a vossa cabeça para sustentar a fraqueza de vosso corpo, que submetestes à lei do espírito em caridade perfeita. Afinal, aquele que dá de comer às aves do céu e veste os lírios do campo não vos há de faltar tanto para a alimentação como para a roupa, até que, passando, não vos venha servir na eternidade, quando sua destra vos abraçará mais felizmente na plenitude de sua visão" (PrivIn 2-3).
 
Gregório IX, ao conceder o seu Privilégio da Pobreza insistiu na mesma alusão ao Cântico dos Cânticos:

"Naturalmente, aquele que alimenta os passarinhos do céu e veste os lírios do campo não vos faltará para o alimento e a a roupa, até que Ele mesmo, passando, vos sirva na eternidade, quando sua destra vos abraçará mais felizmente na plenitude da Visão" (PrivH 1).
 
Depois da morte de Santa Clara, também o ministro geral São Boaventura, escrevendo às Clarissas, viu-as como Esposas de Jesus:
 
"Vigiai de tal maneira, com afetos incessantes, fervorosas no espírito da devoção, que, quando se ouvir o clamor e chegar o Esposo, possais ir fielmente ao seu encontro com as lâmpadas cheias do óleo do amor e da alegria, prontas para entrar com ele nas bodas da felicidade eterna, com exclusão das virgens loucas. Lá Cristo vai acomodar suas esposas com os anjos e os eleitos, e passará para servir-lhes o pão da vida, a carne do Cordeiro imolado, o peixe assado na cruz, cozido no fogo do amor em que vos amou fervorosamente" (BoCc 5).
 
Aliás, é notável o Doutor da Igreja dizer que Jesus vai servir às suas sposas "o peixe assado na cruz", numa evidente alusão à lenda do Rei Pescador, que faz parte do ciclo do Santo Graal. Mas foi São Francisco quem explicou, de maneira bem original e no que para ele era o cerne da vida franciscana, o que é sermos esposos:
 
"Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo" (1CtFi 8).
 
E é a essa luz que devemos entender a Forma de Vida que ele deu a Clara e suas Irmãs logo que elas entraram na Ordem:
 
"Desde que por inspiração divina vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim mesmo e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles" (RSC 6,4-6).
 
O fato de as damianitas viverem como esposas de Cristo é mais significativo do que pode parecer a uma primeira vista. O amor de Clara pelo Cristo Esposo levou-a a criar um «grupo de virgens" (collegium virginum, dizem as Fontes) original em comparação com outros mosteiros. Elas eram irmãs de uma maneira nova. Por isso, e por serem franciscanas e pobres, elas sempre relutaram em aceitar as Regras religiosas de Hugolino e de Inocêncio IV, ainda que - depois da morte de Clara - a maior parte dos mosteiros tivesse por fim aceitado a de Alexandre IV até o século xx. Depois de muitos esforços e de algumas pequenas vitórias, chegaram a abraçar, em nosso tempo, a Regra de Santa Clara.

Vamos desenvolver três pontos sobre as Irmãs-Esposas: a) Como é sua vida entre irmãs; b) Qual a sua contribuição para a Igreja; e c) sentido especial de sua clausura.

(14) Chamo a atenção para um fato importante, que não poderei tratar melhor aqui por falta de espaço para comparar os textos: De maneira geral, os papas e alguns outros escritores parecem entender que as Irmãs eram "noivas" de Jesus, que só passariam a ser "esposas" na vida eterna. Ao contrário, Clara parece falar sempre de esposas já neste mundo. Observo que a palavra latina "sponsa", que deu a nossa palavra "esposa" = a mulher casada, em latim significava apenas a "comprometida", ou a noiva. A mulher casada era chamada "uxor" pelos romanos. Era a "ungidora", que no cerimônia do casamento ungia a soleira da porta da casa onde seria sacerdotisa. Dessa palavra só sobrou em português a palavra ''uxoricídío'', o crime de quem mata a esposa. Em grego, noiva é clarnmente "nynfe", enquanto esposa podia ser "gyné" (mulher) a companheira do "anér" (varão), ou "ákoítis", a companheirn do "akóites". Essas duas últimas palavras lembram os que dormiam juntos na "kóite", a cama.

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