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São Paulo, 12/02/2012
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Abrace o Cristo Pobre

Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)

Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

8.1.2. Elas refletem umas para as outras o Cristo Esposo e Espelho
A vida em São Damião supunha um testemunho mútuo das Irmãs que viviam ali dentro, um testemunho que inflamasse umas às outras e a todos que pudessem conhecê-las:

"Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou as coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros" (TestC 19-21).
 
Elas deviam ser um "espetáculo da santidade". De fato, ser espelho é uma expressão freqüente na literatura mística da Idade Média, como podemos encontrar em São Bernardo, Guilherme de Saint- Thierry e nas místicas da "Brautmystik". Nas Cartas e no Testamento de Santa Clara, as ocorrências são muitas. E, sempre, o espelho é Jesus:
 
"Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória" (3CtIn 12).

"Pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha. "Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto" (4CtIn 14-15).
 
"Pois nesse espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar ... Preste a atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi colocado no presépio". (4CtIn 18-19).
 
"No meio do espelho, considere a humildade, ou, pelo menos, a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano" (4CtIn 22).

 
"E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa; assim, posto na árvore da cruz, o próprio espelho advertia quem passava para o que deviam considerar" (4CtIn 23-24).
 
Podemos perguntar-nos: por que usavam tantas vezes a simbologia do espelho? Parece que era sempre para indicar algo profundo, que expressava alguma coisa além da realidade palpável. Era um sinal eficaz como um sacramento: tornava alguém presente melhor do que em uma fotografia: Cristo, Francisco, as Irmãs: todos eram sacramentos vivos em que Clara se espelhava ou para quem era espelho. E, corno o espelho reflete, mostra não só a figura de outra pessoa, mas também a minha, abre-nos para uma infinita multiplicação da presença de Deus. E podemos encontrar em todos os espelhos o rosto do Esposo, de Cristo. E nele nos reconhece. Dando-nos conta de tudo que é semelhante, e de tudo que está precisando ser transformado.
 
8.1.3. A “Forma de Vida” é para Esposas que são Irmãs
Hugolino e Inocêncio IV deram a Clara e suas Irmãs urna "Forma de Vida" que era uma regra jurídica para "monjas". As damianitas - e, certamente, a sua fundadora - nunca as aceitaram de boa vontade. A "Forma de Vida" de Santa Clara é muito diferente dessas regras e da posterior que foi imposta por Alexandre IV: ela faz uma proposta de vida a irmãs muito amadas que se descobriam e se encontravam no amor do único Esposo. Por sua experiência esponsal, Clara enxergava e criava na sua fraternidade de São Damião as "doçuras" e "delícias" que - segundo o seu testemunho - eram gozados pelas que amavam a Deus de verdade (Cf 3CtIn 14).
 
Podemos perceber isso quando confrontamos alguns dos numerosos pontos em que, com muita sabedoria, Clara se afasta do que lhe tinham dado Hugolino e Inocêncio:

- dá mais responsabilidade às Irmãs - trata-as como adultas:

"Pelo menos uma vez por semana, a abadessa tenha que convocar suas Irmãs para um capítulo ... E tratem aí, de acordo com todas as Irmãs, o que for necessário para a utilidade e o bem do mosteiro, porque muitas vezes o Senhor revela à menor o que é melhor" (RSC 4,15-18). "Se alguém, por inspiração divina, vier ter conosco querendo abraçar esta vida, a abadessa deverá pedir o consentimento de todas as Irmãs" (RSC 2, 1). "Se algo for enviado a alguém por parentes ou por outros, faça a abadessa que isso lhe seja dado. Se tiver necessidade, ela mesma poderá usá-lo; se não, que o dê com caridade a uma Irmã que precise. Mas se lhe for mandado algum dinheiro, a abadessa, com o conselho das discretas, faça provê-la do que tiver necessidade" (RSC 8,9-11).
 
- Abre mais a c1ausura, admitindo possibilidades de saídas se houver:

 " ... um motivo útil, razoável, manifesto e aprovado" (RSC 2,13).

- Não impõe um hábito estrito, como faziam as Regras de Hugolino e Inocência IV. Limita-se a dizer:
 
"E, por amor do santíssimo e queridíssimo Menino deitado no presépio envolto em panos pobrezinhos (cf. Lc 2,7.12), e de sua santíssima Mãe, admoesto, peço e exorto minhas Irmãs a se vestirem sempre de roupas vis" (RSC 2,25).

 
- Deixa mais livre o silêncio, que devia ser total e perpétuo nas outras Regras, e chega a considerar casos em que as Irmãs possam falar com pessoas de fora:
 
"As Irmãs, com exceção das que servem fora do mosteiro, observem o silêncio desde a hora de Completas até a Terça. Calem-se também continuamente na igreja e no dormitório; no refeitório, só enquanto comem; com exceção da enfermaria, em que as Irmãs sempre podem falar discretamente para distrair as doentes e cuidar delas. Mas podem insinuar o que for necessário sempre e em toda parte, brevemente e em voz baixa... E isso só se faça muito raramente na grade, e de maneira nenhuma na porta. Por dentro dessa grade ponha-se um pano, que não será removido a não ser quando se prega a palavra de Deus ou quando alguma Irmã falar a alguém" (RSC 5, 1-4, 9-10).
 
Os testemunhos das Irmãs no Processo de Canonização comprovam essas liberdades. Da mesma forma, ela também não se importa com muitos detalhes disciplinares das Regras que tinham sido dadas pelos papas, como tudo que se referia aos clérigos que podiam entrar na clausura.

Essa atitude de mãe e irmã foi tão inefável quanto a sua vivência esponsal: não há palavras para expressar o afeto profundo, puro e verdadeiro, no que se refere ao Esposo Cristo ou no que se refere às pessoas que se amam nele, como Clara descreve a Inês em um texto de "inefabilidade" (cale-se a língua da carne) depois de ter descrito em traços apaixonados e totalmente pessoais o que supõe o amor esponsal por Cristo:

"Que mais? No amor por você, cale-se a língua de carne, fale a língua do espírito. Filha bendita, como a língua do corpo não pode expressar melhor o afeto que tenho por você, peço que aceite com bondade e devoção isto que eu escrevi pela metade, olhando ao menos o carinho materno que me faz arder de caridade todos os dias por você e suas filhas" (4CtIn 35-37).

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