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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
8.3. A clausura das Irmãs de Santa Clara As clarissas são as franciscanas de clausura. As clarissas atuais até fazem voto de clausura. Observo que a palavra clausura é da raiz do verbo "claudo" = fechar, aparentada com a palavra chave (em latim clauis). Em latim, é um particípio futuro, significando um lugar que vai ser fechado. Outra palavra aparentada é claustro, que lembra mais um ambiente fechado. As Regras de São Bento, de Hugolino e de Inocêncio IV, bem como a de Santa Clara, não usam a palavra clausura. Nas FONTES CLARIANAS só a encontramos na procuração dada por Clara e as Irmãs para vender um terreno, que é chamado de clausura, palavra que indicava que ainda não tinham feito nenhuma cerca. Clara só usa a palavra claustro para lembrar que Nossa Senhora recebeu Jesus no "claustro do seu santo seio" (3CtIn 19).
Em nossos dias, estamos encontrando sérias críticas à clausura das clarissas, mesmo por parte de franciscanos e franciscanas. Há quem diga que esse tipo de vida não tem mais sentido e também quem o atribua ao machismo da Igreja, que sempre teria demonstrado desconfiança em relação às mulheres religiosas. Muita gente diz que Santa Clara ficou na clausura por imposição, uma vez que no tempo dela não se entendia outro tipo de vida religiosa para as mulheres.
É certo que se podem citar alguns fatos históricos para corroborar algumas dessas afirmações, mas há muito preconceito. Não é possível fazer generalizações.
Não vamos tratar extensamente desse assunto aqui, porque estamos estudando apenas a espiritualidade de Santa Clara. Vou apresentar sucintamente a visão de dois autores atuais dos mais abalizados. E concluir com a minha visão sobre a clausura das clarissas dentro da sua espiritualidade própria.
Uma primeira visão muito bem fundamentada é a da estudiosa CLARA AUGUSTA LAINATI, da ordem das clarissas. Para ela, a clausura é uma expressão do mistério pascoal, é uma kénosis para uma comunhão: uma morte para uma vida. É fundamental um artigo que ela publicou na revista das clarissas Forma Sororum em 1983 (15).
Ela começa afirmando que a clausura das clarissas não é um meio para aprofundar a contemplação, pois existem muitos outros meios eficazes para isso. Para ela, a clausura é um modo típico de Santa Clara para aprofundar a kénosis (o esvaziamento, cf Fl 3,5ss) do Senhor Jesus Cristo. Ela vê um valor na clausura que limita a pessoa no espaço, empobrece suas possibilidades de ação e movimentação para mergulhar no "vazio" da criatura com o Cristo crucificado, com o Cristo que fica sozinho na montanha mas aberto para a contemplação do Pai. Cita São Francisco na sua Regra para os Eremitérios, onde diz: "No claustro onde moram não permitam que entre nenhuma pessoa (REr 7).
Outra visão muito importante é a do estudioso franciscano Jesús SANZ MONTES, autor de diversas obras fundamentais sobre Santa Clara e as clarissas (16).
Para ele, Santa Clara encontrou na clausura de São Damião o "lugar carismático" para sua opção do seguimento esponsal de Cristo.
Ele lembra que nem toda vida contemplativa exige a clausura, nem toda clausura expressa e desenvolve a vida contemplativa, mas pode haver uma forma de existência cristã em que, por vocação carismática, por divina inspiração, unam-se as duas realidades. Lembra também que o próprio São Francisco deu um primeiro passo para a c1ausura de Clara fundamentado na sua opção pelo Esposo:
" ... e como se a serva humilde tivesse desposado Cristo diante do leito nupcial dessa Virgem, São Francisco mudou-a imediatamente para a igreja de São Paulo, para que ficasse lá até que o Altíssimo dispusesse outra coisa" (LSC 8).
Santa Clara escolheria um caminho que implicava ser monástico, claustral e franciscano, correspondentes à sua vocação para a fratemidade, a contemplação e a pobreza. A genialidade de Clara está justamente em sua capacidade de ter unido as duas figuras de Marta e Maria, vivendo sua vocação c1austral aberta ao mundo e ao serviço dos pobres. Sobre a escolha de vida claustral como modalidade de serviço à Igreja, Clara estava em sintonia com Francisco e Hugolino.
No hortus conclusus, na cella vinaria, do São Damião de Clara de Assis, desenvolveu-se essa história de seguimento esponsal de Jesus Cristo, como um espaço que representava o locus charismaticus de sua vocação eclesial, em uma progressiva identificação kenótico-pascoal com Cristo Esposo. Definitivamente, Ele é o grande "Tu" por quem Clara iniciou todos os seus êxodos, por quem fez todas as suas opções e por quem pacientemente aguardou todas as suas esperas, para que fosse brotando uma forma vitae que harmonizava todos esses fatores já indicados, e que faziam de seu caminho uma novitas capaz de catalisar aquele dilatado movimento feminino que se reconheceu no carisma de Francisco de Assis.
Para concluir, proponho que essas abalizadas opiniões desse dois utores sejam lidas à luz do que falamos sobre a vida de Clara e suas Irmãs no não-lugar e no não-tempo. Creio que de fato, a opção das clarissas pela clausura tem uma luz própria, diferente da "clausura" das "contemplativas". Elas estão no seu lugar de esposas de Cristo que se descobrem como irmãs.
15 La Clausura: non "mezzo di contemplazione", ma modo típico delle Clarisse di esprimere il mistero pasquale Una kénosi per una comunione: uma morte per una viúl, en Forma Sororum 20 (1983) pp 201-203.
16 Proponho que se leia especialmente o livro "Illun totaliter diligas - La simbología esponsal como clave hermenéutica del carisma de Santa Clara de Asis, Roma 2000.
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