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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
9.1 Contemplação dominada pela gratidão Seu Testamento começa:
"Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida" (TestC 2-3).
E o Benefício que dá sentido a todos os outros é o próprio Jesus Cristo. A gratidão é a admiração sem limites por descobrir-se amada por Deus, por um Deus Esposo, que se dirige a ela de um modo pessoal. Ela quer "pagar" o amor com amor. É a dimensão agradecida da graça. Clara amplia o que Francisco dizia: "Nada de vós retenhais para vós mesmos para que os receba inteiros aquele que inteiro se entrega a vós" (CtOr 29). Ela também escreveu: "ame totalmente aquele que se entregou inteiro por seu amor" (3CtIn 15).
9.2 O processo é de fidelidade crescente
Na segunda Carta, ela escreveu:
"Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel: não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe, mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança. Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho, para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou" (2CtIn 11-14).
Ela comunica uma experiência vivida na luta pela fidelidade, pois sofreu não poucas vezes obstáculos que poderiam ter ameaçado sua adesão ao que prometera a Cristo Esposo. A segunda Carta foi redigida durante o generalato de Frei Elias, no meio dos problemas por que estava passando a Primeira Ordem. Foi dentro disso que Clara observou o processo de fidelidade com todas as suas conseqüências e riscos, convidando Inês a uma adesão esponsal diante de qualquer insinuação a sugestão inoportuna:
"Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre" (2CtIn 17-18).
Não era uma fidelidade à norma, mas ao seguimento Jesus pobre e desprezível:
"Veja como por você Ele se fez desprezível e o siga, sendo desprezível por ele neste mundo" (2CtIn 19). Pois concluiu, explicitando melhor a contemplação: "Com o desejo de imitá-la, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz" (2CtIn 20).
Essa fidelidade a inflamava:
"Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, Ó rainha do Rei celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!" (4CtIn 27-30).
9.3. Contemplação transformante
Quando ensinou o que era contemplação, Clara propôs uma verdadeira transformação da pessoa amante na pessoa amada:
"Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória, ponha o coração na figura da substância divina, e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da divindade" (3CtIn 12).
É o olhar atento, deliciado, constante, aberto e disponível para aquele que é o espelho, o esplendor, a figura e a imagem da Divindade que nos absorve. Muitos místicos disseram algo semelhante: contemplar o ícone até ser em ícone transformado, como sabemos que foi e é vivido pelos monges do Monte Atos, na Grécia, dedicados à confecção de ícones. Eles se embebem nos ícones e se iluminam no Sol de Deus, acabando eles mesmos ícones vivos iluminados por essa Luz.
Como Francisco, que pediu luz interior ao Crucificado de São Damião, Clara também se tornou luminosa. Seu o olhar de Clara não era exterior ou passivo; era criador porque ela bebia a luz de Deus. Por isso, foi uma viva expressão do processo interior que transforma o contemplativo em imagem daquele a quem contempla com amor.
Clara fez de sua vida a busca desse "Santo Graal": a "doçura escondida", reservada por Cristo para os que o amam. Na quarta carta, no lugar de doçura ela fala em delícia. A contemplação clariana, delicadamente esponsal, "é um olhar da alma e do coração para o objeto amado, até ficar embebidos por seu próprio amor e "aderindo a Ele com todas as fibras da alma "em que a esposa é passiva sob a ação do Esposo (4Ctln). Tanto o olhar amoroso inicial como a experiência receptiva em que culmina, são para santa Clara simplesmente "contemplação".
9.4. A contemplação abre para a fraternidade e a Igreja
O Cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI, chamou Santa Clara de "anima ecclesiastica, esposa de Cristo" (FormSor 4-5 1990, 239). A contemplação clariana, que leva à transformaçãoo esponsal não é uma piedade espiritual que foge do mundo e de seus desafios. Ela evoca a Beleza e o Amor de Jesus para todos, tem uma missão eclesial.
Na mesma carta em que deu a Inês de Praga o ensinamento fundamental do que era contemplação, Clara escreveu este texto notável:
"Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu Corpo inefável" (3Ctln 8).
Sua fonte, o Apóstolo, é São Paulo, que também disse que era um "espelho da glória do Senhor", e que de fato se espelhou em Cristo até ser nele também transformado. E também disse que completava e supria o que faltava no Corpo de Cristo, e que considerava os irmãos das diversas comunidades fundadas por ele como "colaboradores" em Cristo (cfRm 16,3, 16,9; 16,21; 1Cor 3,9; 2Cor 8,23; Fp 2,25; 4,3; 1Ts 3,2).
Sua contemplação não a afastava da Igreja: levava-a a entrar em comunhão missionária com todos os "gemidos da humanidade e da Igreja, nos membros que "vacilam e caem". Numa passagem de seu Testamento, falando com as Irmãs, Clara diz outra coisa muito significativa para sua visão de Igreja:
"Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que Ele vai chamar para a nossa vocação. Para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo" (Teste 19-20).
Clara é mãe de suas irmãs como filha da Igreja; sua maternidade é imagem da Mãe Igreja, que é fecunda, nutre e protege, guia e ensina. É irmã para todos os crentes, companheira na vocação comum, companheira de viagem e apoio. Assim se indica a idéia da comunidade, da "solidariedade" e da suplência. É esposa do Senhor e por isso motivo de alegria, sinal irradiante de esperança para a humanidade.
9.5. Uma contemplação iluminada
Na contemplação, Clara tem um ponto bem interessante de comunhão com Francisco: Eles contemplam com os olhos. Ambos falam intensamente de experiências visuais do seu desejo de ver Deus. É nessa linha que vai a sua contemplação do Cristo Esposo, porque quem o vê está vendo o Pai que habita numa altitude inacessível.
Para dar o justo valor a esse particular é bom lembrar que os orientais falam em contemplação com o uso de todos os sentidos.
Já recordamos que as Irmãs viam em Clara uma experiência parecida com a de Moisés, que "via Deus face a face". Repetimos os textos mais importantes:
"Era assídua na oração e contemplação. Quando saía da oração, seu rosto parecia maís claro e mais bonito que o sol e suas palavras exalavam uma doçura inenarrável, tanto que sua vida parecia toda ceJestial" (Irmã Amata de Corozano em ProcC Iv,4).
" ... quando ela saía da oração as Irmãs se alegravam como se ela estivesse vindo do céu" (Irmã Pacífica de Guelfúcio, em ProcC 1,9).
Isso nos faz lembrar que São Francisco chamou de belos os Irmãos Sol, Lua e estrelas no seu Cântico de Frei Sol, justamente porque eles são luminosos. E nos faz recordar esta importante citação:
"Entre todas as criaturas carentes de razão, amava com afeição maior o sol e o fogo. Pois dizia: "De manhã, quando nasce o sol, todas as pessoas deveriam louvar a Deus que o criou para a nossa utilidade, porque é por ele que nossos olhos são iluminados de dia. À tarde, quando anoitece, todas pessoas deveriam louvar a Deus pelo irmão fogo, pelo qual nossos olhos se iluminam de noite. Pois todos somos como cegos e, por estes nossos dois irmãos, o Senhor ilumina nossos olhos. E assim, devemos louvar o Criador, particularmente por essas e pelas outras criaturas que usamos todos os dias" (EP 119,1-3).
É evidente que os "olhos iluminados" dos dois eram os "olhos do espírito" (cf Adm I), com os quais eles contemplavam Deus. Por isso, tinha uma visão diferente de si mesmos, do próximo, das criaturas, do mundo da história.
Como lembra o Evangelho de Lucas:
"A lâmpada do corpo é o olho. Quando o olho é sadio, o corpo inteiro também fica iluminado. Mas, se ele está doente, o corpo também fica na escuridão. Portanto, veja bem se a luz que está em você não é escuridão" (L 1134-35).
Chamo a atenção para o fato de que Clara, como Francisco, deve ter tido excelentes oportunidades de contemplar famoso ícone do Cristo de São Damião. Não podemos afirmar que eles tenham tido um conhecimento teórico da teologia que está por trás dos ícones: a teologia da luz. Mas devem ter sido influenciados por ela através do ícone.
A teologia da luz, também chamada de teologia da beleza representa a santidade de Deus como a Luz. É a luz de Deus que deixa os santos iluminados de santidade. É na contemplação da luminosidade dos santos que iconógrafos contemplam a luz que vão passar para os ícones: os seus quadros. E os fiéis tomam um banho de luz de Deus diante dos ícones.
Clara e Francisco contemplativos estão passando para nós a Luz da santidade de Deus.
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