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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
10. “Mãe de Jesus” Na FORMA DE VIDA que deu às Irmãs em 1212, Francisco chamou-as de "esposas do Espírito Santo". Como já tivemos oportunidade de ver, essa forma de vida tem um forte paralelo com a ANTÍFONA DE NOSSA SENHORA do Oficio da Paixão e com a CARTA AOS FIÉIS.
Nesses outros dois documentos, o santo mantém o "esposa do Espírito Santo" que, na Carta aos Fiéis, ele explica: "Somos esposos quando, pela ação do Espírito Santo, une-se a alma fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo" (lCtFi 8). Mas também diz que somos mães:
"Somos mães de nosso Senhor Jesus Cristo quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (cf 1Cor 6,20), pelo amor divino e pela consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo. Oh! Como é santo e dileto ter tal irmão e filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e mais desejável do que todas as coisas: Nosso Senhor Jesus Cristo!".
Dessa forma, entramos em um dos grandes pontos da espiritualidade franciscana: o grande acontecimento, que é a encarnação de Jesus, continua a acontecer todos os dias, na Eucaristia e pelo nosso exemplo.
Queremos fundamentar este capítulo final de nosso trabalho numa comparação de Clara com a "Esposa do Espírito Santo" do Apocalipse: aquela que é Maria e que é o Povo, pois "desceu do céu corno uma noiva vestida de sol, coroada de doze estrelas e com a luz embaixo dos pés". Mas ela também era a Mãe, porque estava grávida E com o Espírito Santo chegará ao fim da história como o Povo Esposa clamando: "Vem, Senhor Jesus! Vem!"
10.1 Clara como a Mãe de Jesus
Não é tão importante que ela venha "a ser no céu coroada como a Virgem Maria", como diz o Cântico de Francisco "Ouvi, pobrezinhas!" O fato mais importante é que ela se reveste de Cristo, o homem novo, e que vai mostrando como continuar a dar à luz a imagem de Cristo que está em nós e em todas as pessoas, especialmente nos irmãos e irmãs mais próximos.
Dessa maneira, Clara pode ser vista na tradição das "ammás", as mães
espirituais do deserto. De fato, foi isso que ela recordou em sua bênção:
"E as abençôo em minha vida e depois de minha morte, como posso, com todas as bênçãos com que o Pai das misericórdias (ef 2Cor 1,3) abençoou e abençoará seus filhos e filhas no céu (ef Ef 1.3) e na terra, e com os quais um pai e uma mãe espiritual abençoaram e abençoarão seus filhos e filhas espirituais. Amém" (BSC 11-13).
A Legenda de Santa Clara confirma essa visão em dois lugares:
"Sigam os homens esses varões, novos discípulos do Verbo encarnado; as mulheres imitem Clara. vestígio da Mãe de Deus e nova guia das mulheres” (LSC, Prólogo).
Hoje, a Igreja rebrota feliz com essas flores geradas por Clara (...) (LSC 11). As filhas gratas por sua bondade correspondiam com toda a dedicação. Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, ( ... ) e admiravam na esposa de Deus a prerrogativa de uma santidade completa (LSC 38).
É bastante interessante que Tomás de Celano, o primeiro biógrafo de São Francisco e autor da Legenda de Santa Clara, que em diversas oportunidades parece ser um misógino, tenha tido uma visão muito positiva do papel feminino da mãe, como observou Valéria Fernandes da Silva (17).
São Paulo dissera: "Eu ... vos gerei em Cristo Jesus (lCor 4,25). Toda vida cristã, aberta para Deus, manifesta-O e é portadora de vida. Quem faz isso está na maior união com Cristo e gera outros Cristos. O que São Francisco diz na Carta aos Fiéis é uma outra maneira de falar dos Esponsais e de Esposo-Esposa: falar de como estamos ajudando os outros a serem outros Cristos e nos tomando nós mesmos outros Cristos. Todo ser humano vindo a este mundo - se souber olhar pela perspectiva do Evangelho - saberá que precisa fazer nesta vida um Processo de Cristificação. É assim que se une a Deus.
Ser mãe de Jesus Cristo é algo parecido com "optar por uma vida de acordo com o Evangelho”. São Francisco usou essa expressão na Forma de Vida para Santa Clara, que é idêntica à sua Antífona de Nossa Senhora onde, no mesmo lugar, ele coloca "Mãe de Jesus". Em outras palavras, "viver o Evangelho" não é apenas pautar-se por orientações dadas por Jesus e contidas nos quatro livros dos Evangelistas; viver o Evangelho é ser um outro Cristo, é desenvolver o Cristo de si mesmo e ajudar a nascerem e crescerem os Cristos que estão em todas as outras pessoas. É por isso que Francisco e Clara, pessoas sem formalismos e sem rigorismos, têm uma veneração tão profunda pelas suas Regras. Não as viam como estatutos: eram uma forma de ser mães de Jesus e de saber ser filhos.
Ser mãe não é apenas gerar, gestar e dar à luz. Tudo isso é estupendo, entretanto, mais importante ainda é saber fazer com que os filhos se sintam totalmente bem acolhidos. Também é saber acompanhar desde os primeiros passos para que cada um realize em sua vida o que Deus sonhou para ele. Nosso próprio apostolado perde o sentido quando, mesmo anunciando com bastante propriedade a Palavra de Deus, esquecemos de ter a melhor compreensão materna para que o Cristo de cada um possa ser bem acolhido, possa crescer e amadurecer.
17. Celano abre possibilidades interessantes para o estudo dos discursos sobre o feminino na ldade Média, ao identificar seu biografado com um papel que é especificamente feminino. Pois se até então era comum nos autores eclesiásticos uma supervalorização da virgindade e uma depreciação das virtudes femininas, Celano simplesmente irá anular qualquer caráter pejorativo na maternidade em seus textos. Ele irá apresentar um Francisco revestido de uma virtude feminina, a maternidade, que em nenhum momento será dissociada desse aspecto fundamental e estabelecida como desprovida de diretivas de gênero.
A maternidade em Celano não é desprovida de gênero, assexuada como a alma para Santo Agostinho. Ao contrário, ela é elogiada naquilo que tem de feminino, que, nesse caso, não seria correspondente à incompletude ou ao mal. Nisso nosso autor irá se aproximar, de certa forma, de Juliana de Norwich, mística e reclusa inglesa, que no século XIV irá associar Jesus Cristo à figura materna, atribuindo-lhe qualidades até então tidas como femininas.
Ao valorizar a maternidade, estado que estava associado ao pecado e a uma vida no saeculum, valorizando a Maria-Mãe em detrimento da Maria Virgem, um maior número de mulheres puderam se reconhecer nos exemplos dados por Celano. Cumprindo de certa forma seu papel pedagógico, de hagiógrafo, suscitando a piedade, a penitência, a devoção e uma vida norteada pelos princípios da vita vere apostolica.
Clara representa não só a mãe das Damas Pobres, como também é filha espiritual de Francisco. Da mesma forma, ela seria identificada com a Mãe de Deus, por ser mãe simbólica e por ser virgem, mas também seria a esposa do Cristo. Ela é mãe, filha, esposa, virgem; a materialização de Maria de acordo com os moldes franciscanos.
Valéria F. da Silva, A mãe como modelo de espiritualidade: discutindo o papel da maternidade nos escritos de Tomás de Celano, in Hagiografia e História, organizado por Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva. Rio de Janeiro 2008.
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