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São Paulo, 12/02/2012
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Abrace o Cristo Pobre

Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)

Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

10.2 Divinizar o humano e humanizar o Divino
Em Maria está "toda a plenitude da graça" (SdVM). Ela é a fonte constante da graça porque sua intimidade única com a Trindade faz dela uma fecundidade espiritual permanente.

Eva, com Adão, "quis ser como Deus". Nós somos Adão e Eva que nos perdemos nessa aventura porque rejeitamos Deus. Maria tornou efetiva uma dimensão divina que já tínhamos uma vez que fomos criados "à imagem e semelhança de Deus", mas que, na prática, estava sem efeito pelo afastamento da soberania de Deus.

Maria não se tomou deusa. Foram as suas atitudes de ser uma filha reconhecida do Pai, uma esposa consciente do Espírito Santo e a mãe concreta de Jesus que lhe deram a dimensão do divino que nos elevou a uma vida sobrenatural. Dessa maneira, ela manifestou a ternura de Deus em uma forma humana, permitindo que nela enxergássemos a ação do Espírito Santo.
 
Para Deus, Maria é o humano. Para nós, Maria é uma visão do divino. Mas nela há um grande intercâmbio entre o divino e o humano. Nossa Senhora demonstra como Deus é terno e amoroso. Não muda Deus: muda nossa experiência de Deus.
 
Em geral, costumamos apresentar uma religião longínqua e muito intelectualizada. É preciso ter uma fundamentação solidamente doutrinal, mas uma comunicação bem fácil, alegre e concreta. Sem fazer antropomorfias de Deus, temos que ver e demonstrar como nosso Deus, tão teórico e distante para muitos, pode ser humanizado. Precisamos lembrar que as próprias palavras Javé, Jesus, Emanuel e Paráclito induzem a ver a presença de Deus no humano.
 
Nossa Senhora deu a Jesus Cristo traços, gestos, atitudes, entonação ... deu-lhe uma natureza humana verdadeira. É preciso lembrar que Nossa Senhora não acolheu apenas a semente do corpo de Jesus. O Concílio Vaticano II ensinou, na Lumen Gentium, que Maria Santíssima recebeu o Verbo de Deus no coração e no corpo (LG 53). E abriu para nós - por obra de Deus, é claro - a possibilidade de continuar humanizando o divino e
divinizando o humano.
            .
A Lumen Gentium também ensina que Nossa Senhora não foi mãe e também virgem, mas foi uma Mãe virginal porque sua maternidade divina foi certamente de ordem física mas, antes de tudo, foi "uma concepção no coração pela fé" (LG 63). A virgindade no corpo foi apenas um sinal, um sacramento da sua virgindade no coração. Que é isso? O fato de ser só de Deus, sem deixar de ser humana. Aliás, sendo até mais plenamente humana.
 
Quando São Francisco a saúda como "Virgem feita Igreja" mostra-nos que também nós temos essa virgindade na fé, que prestamos ao Esposo. Imitando a Mãe de seu Senhor, pela virtude do Espírito Santo, a Igreja conserva virginalmente uma fé íntegra, uma sólida esperança e uma sincera caridade (LG 64). "Como por ela era piedosamente movido para todas as criaturas, especialmente, porém para as almas remidas pelo precioso sangue de Cristo, quando as via manchadas por alguma sujeira de pecado, deplorava com tanta ternura de comiseração, que todos os dias dava-as à luz como uma mãe em Cristo" (LM 8,3).
 
Nós temos o papel de ajudar as pessoas a serem mais humanas: é assim que Deus vai continuando a se encarnar.
 
10.3 Levar Jesus no coração e no corpo
Santa CLara tem algumas preciosas passagens de suas cartas em que também ensina como ser mãe de Jesus:
 
"Falo do Filho do Altíssimo, que a Virgem deu à luz permanecendo virgem depois do parto. Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho que os céus não podiam conter, mas que ela recolheu no pequeno claustro do seu santo seio e carregou no seu regaço de menina" (3CtIn 17-19).
"Assim como a gloriosa Virgem das virgens o trouxe materialmente, assim também você, seguindo seus passos, especialmente os da humildade e pobreza, sem dúvida alguma poderá trazê-lo espiritualmente em um corpo casto e virginal. Você vai conter quem pode conter você e todas as coisas, vai possuir algo que, mesmo comparado com as outras posses passageiras deste mundo, será mais fortemente seu" (3CtIn 24-26).
 
Levar no coração e no corpo é celebrar o fato de que somos imagem e semelhança, somos palavras originais e filhos adotivos, somos outros cristos.

10.4 Dar à luz pela santa operação  
Com muita beleza e mestria, Clara usa diversas vezes a imagem bíblica do espelho que, para ela, é Jesus. Ser espelho é uma expressão freqüente na literatura mística da Idade Média, como podemos encontrar em São Bento, Guilherme de Saint-Thierry e nas místicas da "Brautmystik". Nós a encontramos nas Cartas e no Testamento de Santa Clara. As citações são as seguintes:

"Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória" (3CtIn 12)."
"Pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha. Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto" (4CtIn 14-15).
 
"Pois nesse espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar. Preste a atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi colocado no presépio" (4CtIn 18-19).
 
"No meio do espelho, considere a humildade, ou,  pelo menos, a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano" (4CtIn 22).
 
"E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa. Assim, posto na árvore da cruz, o próprio espelho advertia quem passava para o que deviam considerar" (4CtIn 23-24).
 
"Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que Ele vai chamar para a nossa vocação. Para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros" (TestC 19-21).
 
Há uma coincidência em toda esta utilização da simbologia do espelho. Sempre se usa para indicar algo profundo que tem que recorrer a tal simbologia para expressar alguma coisa além da realidade em si. Isso se chama sacramentalidade. Cristo, Francisco, as Irmãs ... são um sacramento em que Clara se espelha ou para quem ela é espelho. Precisamente, em um excelente artigo sobre esta questão, Dino Dozzi traçou esta linha de compreensão do "espelho de Clara" como sacramento de uma presença. Diz Dozzi que, nos Escritos de Clara, o espelho se refere a realidades diversas, mas sempre se trata de pessoas: Cristo, Francisco, Clara, Inês, as primeiras Irmãs, as Irmãs futuras. Os diversos "espelhos" de que Clara fala estão relacionados até ser um sacramento, sinal e instrumento do outro, e assim até chegar ao Espelho por antonomásia que é Cristo.
 
Também se pode sublinhar a reciprocidade da presença que está por' baixo. Este espelho torna Cristo presente para Clara, mas também Clara' para Cristo e para si mesma; torna presente Francisco para Clara, mas também Clara para Francisco; torna presente Clara para Inês, mas também Inês para Clara; torna presente Clara para as primeiras irmãs. O espelho como sacramento de uma presença cria contemporaneidade, horizontes profundos, faz de todos, para além de qualquer barreira cronológica, uma só família. Deste modo, quem se ensimesma no Espelho de Cristo Esposo, quem se reflete no espelho fraterno do amigo do Esposo (Francisco) convida Inês e as Irmãs a ser por sua vez "espelhos vivos", isto é, sacramentos de outra Presença para elas mesmas, para as Irmãs que virão no futuro, para todos que puderem aproximar-se do mosteiro.
 
Mas essa sacramentalidade exemplar (speculum et exemplum), não se refere unicamente a uma convivência sadia, bela e amável no recolhido claustro damianita. Há uma exemplaridade que se explica pela missão eclesial que Clara e as Irmãs receberam, e que, portanto, tem uma projeção apostólica a partir desse mesmo locus charismaticus. Aqui torna a aparecer o paralelismo entre Santa Clara e São Paulo. O apóstolo, que falou em ser "espelho da glória do Senhor", ele que se espelhou em Cristo até ser nele também transformado, disse igualmente que completava e supria o que faltava no Corpo de Cristo, e que considerava os irmãos das diversas comunidades fundadas por ele como "colaboradores" em Cristo. Esse é o teor das palavras de Clara a Inês a respeito da intercessão em favor da Igreja: "Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu Corpo inefável" (3CtIn 8).
 
10.5 Com Maria na missão da Igreja
A contemplação esponsal de Clara e das Irmãs não era uma piedosa fuga de todos os dramas em que os membros do Corpo inefável de Deus podem cair. É um binômio entre contemplação esponsal e missão eclesial, que não só não se opõem, mas se exigem reciprocamente. "A contemplação está unida à missão, pois na medida em que se realizou o que é Deus, e se experimentou até que ponto o fato de conhecer e amar a Deus é constitutivo de um humanismo total e de uma existência completa, nessa medida se sofre e fica surpreso de que Deus não seja conhecido e não seja amado". Por isso podemos afirmar que a delicada, profunda e extensa contemplação esponsal de Clara, permitiu-lhe entrar em comunhão missionária com todos os "gemidos" da humanidade e da Igreja, nos membros que vacilam e caem (cadentium membrorum).

Esse ardor missionário de partilhar as dores do Corpo de Cristo, levou-a a curar doenças de Irmãs ou de outros que iam a São Damião com sofrimentos físicos, psíquicos, e mesmo morais. E houve outro testemunho eclesial muito concreto: quando os "membros que vacilam" não eram os enfermos de males físicos, psíquicos ou morais, mas os próprios pastores que demonstravam fraqueza diante de sua missão. Era ao testemunho da hierarquia da Igreja que esta mulher, esposa de Cristo, atendia, para sustentá-los em sua missão dentro e à frente da Igreja, esposa de Cristo também.
 
Hugolino nos dá testemunho disso, tanto quando era cardeal, como quando foi eleito Papa. São dois textos cheios de agradecimento e afeto para com a esposa Clara, em quem se reconhece como irmã e mãe:

"À caríssima irmã em Cristo e mãe de sua salvação, dona Clara, serva de Cristo, Hugolino, ostiense, indigno e pecador, recomenda-se em tudo que é e pode ser [ ... ] Entrego-lhe minha alma e lhe recomendo meu espírito, para que, como Jesus entregou o espírito a seu Pai na cruz, você também responda por mim no dia do juízo, se não tiver sido solícita e atenta por minha salvação. Estou certo de que conseguira do sumo Juiz tudo que pedir com insistência de 'tanta devoção e abundância de lágrimas".
"À dileta filha abadessa e à comunidade das monjas reclusas de São Damião de Assis [ ... ] como, no meio das numerosas amarguras e infinitas angústias que sem cessar nos afligem, vós sois nossa consolação [ ... ] fareis com que Deus seja glorificado 'em vós e nos enchereis de gozo, pois vos abraçamos com íntimo amor como filhas prediletas, ou melhor, se podemos dizê-lo, como senhoras, pois são esposas de nosso Senhor. Mas porque, como confiamos vos fizestes um só espírito com Cristo, pedimos que em vossas orações, lembrando-se sempre de nós, eleveis as piedosas mãos ao céu, suplicando insistentemente que Aquele que sabe que nós, colocados no meio de tantos perigos, não podemos agüentar por nossa fragilidade, nos dê força por sua virtude, conceda-nos dar conta tão dignamente do ministério que nos confiou que redunde em glória para Ele, alegria para os anjos e salvação para os que foram confiados ao nosso governo".

 
A relação de afeto do Pastor Supremo da Igreja ficou marcada também em uma chave esponsal na  carta circular que o cardeal Reinaldo enviou nesse mesmo ano de 1228 (datada em 18 de agosto), para comunicar a nomeação do novo visitador e assistente das damianitas (precioso documento em que temos um primeiro elenco dos mosteiros das origens clarianas): Frei Filipe Longo. Mas no curso da carta, se diz explicitamente o que as Irmãs significavam para o Papa: "Ele fez seu vigário na terra aquele que era vosso pai e senhor, cujo amor por vós não sofre o desgaste da diminuição, pois consegue crescer todos os dias. De fato foi oportuno e conveniente que o Vigário de Cristo Esposo, pastor e bispo do rebanho universal do Senhor, também se ligasse por amor perpétuo às adolescente em cujo amor castíssimo apóia-se o Esposo".

Podemos ver nesse relacionamento entre o Papado e Clara o que teólogo H.U. Von Baltasar aplicava ao relacionamento a Igreja e Maria:

"Em Maria a Igreja tomou corpo antes de se organizar em Pedro. A Igreja é primeiro feminina, e esta prioridade é uma constante que subsiste quando recebe seu complemento masculino no ministério eclesiástico [ ... ] E só para que não se esqueça dessa feminilidade primordial, só para que seja sempre receptáculo e não possessiva e dispositiva, incrustou nela o ministério masculino, que representa o Senhor administrador da Igreja, sempre dentro dos limites de sua receptividade feminina".

Neste sentido há uma complementaridade entre Instituição e Carisma, entre Pedra e Maria, entre Gregório IX e Clara. Devemos dizer que Santa Clara representou para seu mundo e para sua Igreja esse espelho em que se podia reconhecer a ternura e a bondade de Deus, precisamente porque ela se espelhava no Espelho de Deus, até ser transformada nele.

Essa foi à missão clariana a partir de uma contemplação esponsal: aproximar ao homem concreto, ao mundo concreto, à Igreja concreta o rosto de um Deus Esposo, amante, doce e luminoso, para todas as amarguras e escuridões que pode haver nos membros desse grande corpo que representa a humanidade e a Igreja. A partir da Igreja, e em filial e real comunhão com ela, Clara foi speculum et exemplum, ícone vivo do que Deus quer de todos seus filhos. Ela mostrou assim uma pequena porção de terra (porciúncula) em que verdadeiramente se vivia como cristão. São Damião tornou-se desse modo um lar aberto para todos: pobres, enfermos, frades, prelados. Cada qual em sua medida ou necessidade, encontrou em São Damião a bênção e a luz que Deus repartia pelas mãos daquela que foi esposa para Cristo, e mãe e irmã para todos os que nele amou.

"Filha bendita, como a língua do corpo não pode expressar melhor o afeto que tenho por você, peço que aceite com bondade e devoção isto que eu escrevi pela metade, olhando ao menos o carinho materno que me faz arder de caridade todos os dias por você e suas filhas" (4CtIn 36-37).
 
Ao finalizar toda esta nossa consideração, é bom recordar um pensamento que encontramos ao estudar Orígenes:
 
Como o Pai gera eterna e continuamente o Filho, o Filho é concebido de modo permanente na alma do crente através de uma vida santa, com boas ações, até chegar à bem-aventurança de uma estreita união com o Filho, em que poderá gozar da visão do Pai como o próprio Cristo o vê. É o ponto alto de um caminho esponsal: chegar à mais completa transformação naquele a quem amamos.

A alma chega à perfeição quando pode cantar com a Esposa.

Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
Abrace o Cristo Pobre - A Espiritualidade de Santa Clara de Assis
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Piracicaba - 2009
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