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Por Moacir Beggo
A crise de vocações nos institutos religiosos, masculinos e femininos, é uma realidade hoje. O jovem parece mais fascinado pelas facilidades deste mundo moderno e globalizado, imediatista e on line, do que por uma vida de entrega, que exige um compromisso perene. Esse cenário, contudo, não assusta Ir. Tereza Albanez, Ministra Geral da Congregação Franciscana das Filhas da Divina Providência. Para ela, esse mundo também gera muito sofrimento, muita exclusão, e as irmãs têm um papel importante: ser sinais de esperança e de paz. É assim, com muita calma, simplicidade, sobriedade e alegria, que Ir. Teresa anima o grupo de 50 irmãs da Congregação, conhecida por seu trabalho de qualidade na educação e, hoje, também pelo grande leque de obras sociais que mantém. Acompanhe a entrevista.
Site - Irmã, por que, no momento, a Congregação está clarificando o carisma?
Ministra Geral - Nossa Congregação surgiu das Pequenas Irmãs da Divina Providência e, com o passar do tempo, achamos que deveríamos clarificar o nosso carisma. Estamos trabalhando para encontrar em documentos qual era mesmo o desejo das irmãs na época da separação? O que elas queriam? Qual foi o fragmento ferido que viram para formar uma nova congregação? Em 2008, iniciamos esse trabalho e, ao mesmo tempo, para que o nosso carisma fique claro, precisamos também ter uma história escrita. Temos muitos volumes escritos, mas não temos dados que são importantes para a clarificação. Para isso, um historiador está nos ajudando, que é o Frei Sandro Roberto da Costa, ofm, professor do Instituto Teológico Franciscano da Província da Imaculada Conceição, fazendo todo um resgaste da nossa história.
Site - E quem ajuda na clarificação?
Ministra Geral - A Ir. Maria Vilani Rocha, Provincial das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras.
Site - E quando a Congregação terá essa definição do carisma?
Ministra Geral - Colocamos como meta até janeiro de 2012. Até lá deveremos estar com a história escrita e com o carisma clarificado. Nós, irmãs, estamos muito empenhadas.
Site - Quando a Sra. foi eleita e o que é ser Ministra Geral?
Ministra Geral - O primeiro período começou em janeiro de 2006, quando fiquei 4 anos. No Capítulo, em novembro do ano passado, fui reeleita para mais quatro anos, ou seja, até 2014. Quanto a ser Ministra Geral, trata-se de uma função de muita responsabilidade, dinamizar, animar, a Congregação no sentido espiritual e humano e responder juridicamente perante aos órgãos religiosos e civis. Somos um grupo de 50 irmãs, muito bom, e que me ajuda bastante. Ser Ministra Geral para esse grupo não é difícil. Por outro lado, como pessoa, cresço muito, pois sempre estou diante de muitos desafios. Mas também tenho muitas alegrias.
Site - Quais os desafios da Congregação hoje?
Ministra Geral - Não diria só da Congregação, mas da Igreja. Hoje, há uma crise de vocações. Esse é o grande desafio. Atualmente, a vida religiosa não tem mais aquele grupo grande de jovens vocacionadas. Como enfrentar essa crise é nosso maior desafio, sem dúvida.
Site - Como animar, atrair o jovem para a vida religiosa?
Ministra Geral - Esse é o outro desafio. Eu vejo que uma das formas de atrair o jovem é estar no meio de deles. É um desafio para nós, pois estamos em obras sociais e nem sempre a nossa missão é direta com os jovens. Nossa missão nas paróquias e em nossas obras sociais, temos irmãs envolvidas com grupo de jovens, com a catequese e grupos de reflexão. Nas missões populares, se atinge um grande número de jovens. Além disso, nossas casas sempre estão abertas a eles. Mas temos que sempre nos perguntar se estamos atraindo ou não e se não estamos o porquê.
Site - A que se deve esta crise na Igreja?
Ministra Geral - Estive no mês de maio na assembléia da União Internacional das Superioras Gerais, um organismo internacional que reuniu 800 participantes em Roma (de 7 a 11 de maio), e o tema era: "Conheço a fonte que emana e jorra, mesmo que seja noite", refletindo um pouco São João da Cruz e a crise de vocações, que é a noite escura da vida religiosa.
Acredito que não temos isso bem claro ainda. Mas sabemos que vivemos uma situação mundial de muita transformação na sociedade. Os parâmetros religiosos, culturais e sociais são outros. Houve uma mudança. E rapidamente! Acredito também que nós, vida religiosa, tanto masculina como feminina, ainda não estamos preparados para isso. É difícil entendermos esse conceito de mundo hoje. Existe um artigo na revista "Convergência" do ano passado que aborda o Tema da "modernidade líquida". Hoje, quase tudo é tão passageiro. Poucas coisas são permanentes. Há dificuldades para assumir compromisso que exigem fidelidade. E, sem dúvida, ao meu ver, estamos numa crise e para superá-la, ainda estamos buscando caminhos.
Site - Como está a Congregação em termos de vocações?
Ministra Geral - Temos jovens que estão sendo acompanhadas nas casas, para a depois vir para o Aspirantado. Em julho faremos um encontro com elas na casa de formação, para uma formação e convivencia. Este ano estamos com uma noviça e uma juniorista.
Site - Quais são os campos de evangelização na Congregação?
Ministra Geral - Os campos de evangelização é com criança, adolescente e idoso. Estamos no Colégio, Centro de Juventudes, Abrigos de Longa Permanência para Idosos e Centro Dia, que é um projeto, em parceria com a Prefeitura de Serra Negra, que iniciamos este ano e que está dando muito certo. Os idosos ficam durante o dia e a noite retornam para suas casas, mantendo o vinculo famíliar. Estamos também em Paróquias, em missões populares e em missão na Republica Dominicana, numa comunidade intercongregacional.
Site - Quanto tempo a Sra. trabalhou como educadora?
Ministra Geral - Praticamente toda a minha vida religiosa foi com educação. No início, trabalhei um ano com meninas adolescentes e depois fiquei 4 anos numa obra só com meninos. Depois, vim para o Colégio, e fiquei nessa missão 18 anos. Fui transferida para uma creche onde fiquei quase quatro anos, quando fui eleita como Ministra Geral e, então, voltei para a Sede Geral. Sempre colaborei com formação de lideranças e me dediquei muito à formação de catequistas. Mesmo trabalhando no colégio, os meus finais de semana eram dedicados à paróquia e à formação de leigos, nas assessorias de retiros e encontros. Essas atividades são muito importantes, pois aproximam a gente da comunidade.
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Site - Fale de sua vocação?
Ministra Geral - Sou natural de Mandaguari, Noroeste de Paraná. Minha família, de origem italiana, sempre foi muito católica. Nós morávamos num sítio e, com 11 anos, comecei a participar da comunidade de onde morávamos. Me convidavam para o rezar o terço, pois naquela época, rezava-se novenas, trezenas, em todo o mês de maio, junho etc. Quando mudamos para a cidade, estava com 17 anos. Nessa época, comecei a atuar melhor: fui catequista, da equipe de liturgia, congregação mariana, enfim, tinha uma vida muito envolvida com a comunidade. Com isso, fui percebendo que gostaria de dedicar minha vida de uma forma diferente. Não me via, assim, numa família fechada, mas penso que tinha um espírito um pouco missionário. Não tinha muita clareza ainda. Em minha cidade, tinha um amigo e sua irmã era desta Congregação. Então, conversei com ela e acabei fazendo uma experiência na Congregação. Sei, hoje, que foi a Divina Providência que me trouxe até aqui.
Site - O que a Sra. acha da “evangelização" via internet?
Ministra Geral - Vejo com uma das formas. Ou nós entramos neste mundo ou ficamos para trás. O meu trabalho hoje é quase todo feito no computador. Faço textos, comunico com as irmãs via skype, tudo via computador. E a evangelização também deve ser feita on oline, porque os jovens estão muito “antenados” e muitas pessoas em geral hoje têm acesso a Internet. Porém, não podemos esquecer que ainda há muitos de nossos irmãos que não têm acesso a tudo isso e da nossa missão de envangelizar pelo testemunho e pelo contato direto com as pessoas.
Site - Você poderia deixar uma mensagem neste final de entrevista?
Ministra Geral - Diria que hoje vivemos neste mundo globalizado, imediatista, rápido, onde as pessoas parecem que não pensam mais. As respostas são muito imediatas. Por outro lado, vivemos num mundo de muito sofrimento, de muitas dúvidas. Do sofrimento que não é gratuito, mas é causado pelos descasos, pelo egoísmo de quem acumula para si o que deveria ser de todos. Todos os dias nos deparamos com realidades muito sofridas de tantos irmãos nossos. Acredito que o mundo espera de nós, religiosas (os), que sejamos pessoas portadoras de esperança e de paz. Essa é a grande missão nossa, não importa onde estejamos e o que fazemos – digo sempre isso às irmãs, temos que ser esse sinal de esperança, porque Cristo está vivo e está no meio de nós. E que nosso Deus não é um Deus que esqueceu do seu povo. Mas é o Deus que “viu a aflição do seu povo e desceu para libertá-lo”. Então, é um Deus que escuta, que vê e que age! Portanto, temos que ser essas pessoas que com a nossa vida deixamos transparecer a esperança e a paz que vem do nosso Deus que caminha conosco e nunca nos deixa sozinhos!
Conheça mais: www.franciscanasprovidencia.org.br
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