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A Consagração
Em pouco tempo, Clara chegou à Porciúncula.
Francisco a acolheu e lhe deu as boas-vindas.
Comovida, ela entrou na igreja, ajoelhou-se
diante do altar e, por alguns instantes,
deteve-se em oração. Depois, levantou-se
com decisão; tirou o calçado, despiu-se
do vestido de brocado e o trocou por uma
túnica grosseira, retirou seu rico cinto
e o substituiu por uma corda áspera.
Em seguida, ajoelhou-se ainda; soltou de
uma vez os cabelos que deslizaram sobre
os ombros; depois, permaneceu com a cabeça
inclinada, à espera do último sacrifício.
Francisco recolheu com delicadeza a loura
cabeleira e, bem devagarzinho, a cortou.
A cerimônia estava acabada.
A reação dos parentes
Como era de se prever, a reação dos parentes
de Clara não se fez esperar. Pela manhã,
apenas descobriram sua fuga, puseram-se
em pé de guerra e rapidamente chegaram ao
mosteiro de São Paulo para reconduzi-la
à casa. Ameaçaram arrombar a porta. Querem
Clara, viva ou morta. Com o aparato exterior
e as ameaças, esperam assustá-la, mas iludem-se!
Clara é irremovível. Visto que era vã toda
a ameaça, recorrem às boas maneiras, às
lisonjas e às promessas; fazem apelo aos
sentimentos, à dor da mãe, das irmãs, de
toda a família, mas Clara é inflexível;
sabe que está mais em segurança entre aquelas
paredes do que se estivesse num castelo.
Agarra-se ao altar - Quando se dá
conta de que estão a ponto de perder o controle
e recorrer à violência, Clara, com um gesto,
fez desmoronar todas as ilusões deles: foge
para a igreja e corre para junto ao altar;
com uma das mãos segura a toalha e com a
outra retira o véu da cabeça, fazendo-a
aparecer sem os cabelos que haviam sido
cortados.
Demonstrava, assim, ser agora consagrada
a Deus e que ninguém podia tocá-la. Diante
de tanta firmeza, aos familiares outra coisa
não restou senão abandonarem a igreja e
o mosteiro e partirem confusos.
Transferida para o mosteiro de Santo
Ângelo - Em São Paulo, Clara pôde
permanecer só poucos dias. Foram talvez
as próprias monjas a solicitar o afastamento
dela depois da confusão provocada por sua
presença.
Francisco interessou-se pela transferência
dela. Mais uma vez, dirigiu-se aos Padres
Beneditinos e obteve a transferência de
Clara para o mosteiro de Santo Ângelo de
Panzo.
Finalmente um pouco de paz! - Na
quietude e no silencio do mosteiro de Santo
Ângelo, Clara pôde revigorar o seu ideal
de vida.
Apegava-se cuidadosamente às prescrições
da Regra de São Bento, que possui como fundamento:
“Ora et Labora”! Com isso, Clara não pretendia,
certamente, abraçar a Regra de São Be nto.
Não teria tido sentido sua fuga para a Porciúncula,
durante a noite, seu total abandono a Deus
para além de qualquer estrutura, a exemplo
de Francisco.
No mosteiro de Santo Ângelo, Clara viveu
por algumas semanas. Foram para ela dias
de serenidade e de alegria indescritíveis.
A alegria de Clara estava toda no sentir-se
amada e protegida pelo Senhor, como mesmo
amor com que uma mãe protege sua filhinha.
A fuga de casa lhe havia fechado o mundo
às costas para abrir-lhe um umbral do mistério
de Deus. Sua vida, agora, havia se transformado
em um arco-íris de oração e contemplação:
em um agradecimento alegre e infantil.
Fugira de casa em uma noite de primavera,
para abraçar o ideal de total pobreza, e
encontrara a verdadeira liberdade, a perfeita
alegria. Havia atingido o seu sonho.
Encontra-se com sua irmã Inês
Clara sentia a necessidade de externar sua
ardente experiência mística. Quase todos
os dias, sua irmã Inês ia visitá-la: era
uma jovem belíssima, de somente quinze anos,
de grande sensibilidade para com o sobrenatural.
Depois da fuga de Clara, os familiares haviam
depositado nela sua esperança.
“Cara Inês — confiava-lhe a irmã — lembra-te:
é preferível viver um só dia na casa do
Senhor, que mil dias fora dela. A juventude
é vento que passa. A beleza se desvanece
como a fumaça. A vida termina e aqui não
fica nada.
“Oh! minha irmã, se tu pudesses provar a
doçura do amor do Senhor! E um amor sempre
jovem, que ninguém nos pode arrebatar!”
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"Altíssimo,
onipotente, bom
Senhor,
teus são o louvor,
a glória, a honra
e toda a bênção.
só a ti,
Altíssimo,
são devidos;
e homem algum é
digno
de te mencionar.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as tuas
criaturas,
especialmente o
senhor irmão
Sol, que
clareia o dia
e com sua luz
nos alumia.
E ele é belo
e radiante
com grande
esplendor:
de ti, Altíssimo,
é a imagem.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela irmã Lua
e as Estrelas,
que no céu
formaste claras
e preciosas e belas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Vento,
pelo ar, ou
nublado
ou sereno,
e todo o tempo,
pelo qual
às tuas
criaturas dás
sustento.
Louvado sejas,
meu Senhor
pela irmã
Água,
que é mui
útil
e humilde
e preciosa e casta.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Fogo
pelo qual iluminas
a noite.
E ele é belo
e jucundo
e vigoroso e forte.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa
irmã
a mãe Terra,
que nos sustenta
e governa,
e produz frutos
diversos
e coloridas flores
e ervas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelos que perdoam
por teu amor,
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Bem-aventurados os
que as sustentam
em paz,
que por ti,
Altíssimo,
serão coroados.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã
a Morte corporal,
da qual homem algum
pode escapar.
Ai dos que morrerem
em pecado mortal!
Felizes os que ela
achar
conformes à
tua santíssima
vontade,
porque a morte Segunda
não lhes
fará mal!
Louvai e bendizei
a meu Senhor,
e dai-lhe graças,
e servi-o com grande
humildade."
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