Por Moacir Beggo
Responsável pela parte histórica dos bens que deverão ser restaurados no Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro, que em 2008 completou 400 anos de sua fundação, a museóloga e historiadora Maria Emília Mattos, professora da UFRJ, consultora do IPHAN para o inventário de Bens Móveis e para a recuperação de todas as obras do Patrimônio Histórico nos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo, fala com exclusividade ao “Site Franciscanos” e afirma que a história franciscana tem de ser reescrita.
Para ela, nos livros de história do Brasil, os jesuítas são enaltecidos – e merecem – mas os franciscanos são relegados a um segundo plano. E na sua opinião, os franciscanos tiveram um papel histórico e cultural maior na cena brasileira.
Maria Mattos coordenou a criação do Museu da Penha, no Convento de Vila Velha e foi responsável pelo restauro no Convento Franciscano de Angra dos Reis. “Bernardino de Sena é uma arquitetura franciscana de estilo próprio com torre do lado esquerdo, três janelas na frente, cárceres, chaminé e que ainda conserva as portas originais de sua construção”, explica.
Mas história, memória e preservação são palavras que acompanham Maria Mattos desde a infância. Quando pequena, em Belém, do Pará, a mãe não tinha condições financeiras e levava a menina para visitar os museus, como o Goeldi. “Eu adorava tanto que sabia de cor onde estavam as peças”.
Para se tornar museóloga, foi um passo. “Me tornei museóloga porque quando houve o quarto centenário da cidade do Rio de Janeiro, me inscrevi e passei para ser guia. Fui trabalhar no Museu de História e decide: ‘vou seu museóloga’. Quando acabou o contrato, no outro ano, fiz prova para o concurso de museus, passei e fui estudar”, explica a historiadora.
Na sua carreira, Maria Mattos trabalhou no Museu de Belas Artes, no Museu Histórico do Rio de Janeiro, no Museu de Arte e Tradições Populares, que hoje é Museu Carmem Miranda, e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. “Aí eu fiquei e me aposentei, depois de 20 anos”.
Acompanhe a entrevista!
Site Franciscanos - A sra. tem uma visão sobre o patrimônio histórico da Província?
Maria Mattos - É um patrimônio de alta representatividade, porque ele não foi feito de uma hora para outra, mas durante os séculos de existência desta Província. Assim como em outras igrejas históricas do Brasil, há marcas nesses bens culturais de uma riqueza muito grande, como toda a parte de joalheria e a própria indumentária, principalmente de Nossa Senhora, que eram ofertados pelos fiéis devotos. Era usual antigamente, pois se tratava de um costume português que chegou até nós com os nossos povoadores, de ofertar jóias à imagem. E essas jóias eram ex-votos. Então, podemos ver imagens padroeiras detentoras de uma joalheria representativa, principalmente a portuguesa. Várias igrejas que têm como padroeira Nossa Senhora, dentro de suas várias invocações, possuem verdadeiros tesouros de joalheria. Como também há muita prataria ou ourivesaria. Algumas igrejas têm a banqueta do altar-mor - que são em geral de, digamos, 10 peças - toda em prata e custava muito caro. Era muito dispendiosa. Mas era pagamento de uma promessa. A cruz processional ou as várias processionais são outros exemplos. Quando você começa a olhar os acervos das igrejas brasileiras, encontra muitos objetos de grande relevância histórica e artística. E obras dos grandes mestres e grandes artistas da época. Por exemplo, grande parte da prataria que existe nas igrejas históricas do Rio de Janeiro é do ourives José de Oliveira. Então, são peças de grande valor. Há muitas obras que são representativas da cultura nacional nos conventos franciscanos e também populares, mesmo quando se encontra uma peça que foi feita por um artista popular, mas que é de grande representatividade popular. É o caso dos ex-votos pintados. Por exemplo, uma das coleções de ex-votos pintados é de Angra dos Reis, e a outra está em Congonhas do Campo. São coleções brasileiras de grande representatividade, enquanto objeto devocional, enquanto arte religiosa e enquanto manifestação artística da pintura brasileira. Uma das primeiras representações da figura feminina na pintura brasileira se encontra nos ex-votos de Angra dos Reis. Então, é muito importante que se lance um olhar mais firme, mais abrangente para os acervos históricos que ainda estão em nossas mãos, como o Convento Santo Antônio, que fez 400 anos; os conventos de São Sebastião, da Penha e de Santos, para citar os mais antigos. Considero um milagre que as duas peças colocadas por Frei Palácios no convento da Penha estejam lá até hoje: o quadro de Nossa Senhora das Alegrias e imagem de Nossa Senhora da Penha que ele mandou buscar em Portugal.
Site Franciscanos - Poucas Ordens religiosas têm essa riqueza histórica como a franciscana?
Maria Mattos – É verdade. Você é surpreendido pelo que existe dentro dos conventos, das clausuras, e acho que é uma necessidade urgente de se inventariar. Eu não sei qual é a disposição da Ordem Franciscana, eu não conheço quais são profundamente as regras da Ordem, mas sei que não existe ainda, não foi instituído, um Setor de Patrimônio Histórico para preservar o que a Ordem tem. Esse patrimônio deve ser inventariado no seu específico artístico e cultural. Por que ele chegou ali? Quando ele chegou? Por que ele ainda está ali? Quem foi o frade que o segurou?. Sou suspeita para dar esse depoimento, mas tenho uma verdadeira reverência e admiração pela atitude dos franciscanos, enquanto missionários, enquanto frades, que são observantes de toda a Regra Franciscana, de toda a religiosidade franciscana, mas que souberam também segurar grande parte do seu patrimônio, que é da Ordem. É o caso do Frei João do Amor Divino, no Convento Santo Antônio, e do Frei Alfredo Setaro, no Convento da Penha de Vila Velha. Os dois salvaram muita coisa histórica nesses conventos. Tenho também verdadeira admiração pelos grandes cronistas da história franciscana no Brasil. Isso também tem que preservado. Sei que existem dois museus: o da Penha e o de Agudos, que têm um patrimônio interessantíssimo, com objetos de entomologia e mesmo arqueologia. Isso tem que ser preservado. Há uma necessidade de se voltar um pouco e olhar para o passado, porque senão isso tudo se perde. Primeiro, se perde pela falta de conservação necessária e, segundo, pela cobiça. Porque há mil olhos vigiando. Em muitos brechós você chega a se surpreender com o que está sendo vendido ali. Por exemplo, antigamente, não era moda colecionar paramentos. Agora, até os paramentos que ficavam quietinhos, guardados dentro dos gavetões das sacristias, estão sendo vendidos e por um bom preço. Por que de repente virou moda você fazer um quadro na sua sala com parte de uma casula, que é um objeto decorativo. Então, até onde conheço o acervo da Província é muito representativo e precisa ser preservado para evitar que um dia vá parar nos brechós.
Qual o seu trabalho no Convento Santo Antônio do Rio?
Maria Mattos - Eu sou museóloga historiadora e durante muitos anos trabalhei no Patrimônio Histórico e Artístico Nacional na área de bens culturais e móveis. Depois que me aposentei, faço consultoria de história do Brasil, ligada à história da Igreja e à parte de consultoria de bens culturais móveis. Então, no Convento Santo Antônio, trabalho como consultora de história, museologia e de história de arte no Brasil. Agora, existem também consultores de restauração, de história da arte e de arquitetura.
O momento não poderia ser melhor, com as comemorações dos 400 anos. O Convento Santo Antônio é um marco na cidade, por ser a primeira Igreja do Rio de Janeiro. É bom a gente pensar que se o Santo Antônio não estivesse plantado, edificado no alto daquele morro, talvez o Rio de Janeiro não tivesse mais aquela vista belíssima, ou o que restou daquela vista belíssima. Talvez o Largo da Carioca não fosse hoje o Largo da Carioca, porque se pensava arrasar tudo aquilo quando se arrasou o Morro do Castelo. Então, o Santo Antônio é importante enquanto monumento religioso e enquanto monumento histórico dentro da evolução urbana da cidade do Rio de Janeiro.
Como se deu essa evolução urbana?
Maria Mattos - São quatro morros que avalizam o centro histórico do Rio de Janeiro, mas o que realmente defendeu muita coisa ali, defendeu inclusive a expansão da cidade toda para o lado, que chamavam na época sertão, porque é quando você desce a rua Riachuelo, entra pela rua dos Inválidos e pelo campo de Santana, foi o Santo Antônio. Se Santo Antônio não tivesse ficado ali, os belíssimos arcos da Lapa não estariam mais ali. Ele tem uma função histórica e também outra característica marcante dentro da história do Rio de Janeiro, que é a atuação dos franciscanos. Eles participaram ativamente de tudo que acontecia na cidade. É tanto que quando os famosos corsários (não eram piratas porque estavam a serviço de Jean-François Duclerc) invadem o Rio de Janeiro, a grande reação vem do povo que foi para o Santo Antônio buscar apoio nos frades. E dali eles saem para brigar. Quando a ajuda que vinha de Minas Gerais chegou, o povo já tinha expulso grande parte daqueles corsários. Era muita gente e muito bem armada. Eles entraram e saquearam o que puderam do Convento de Santo Antônio. O povo ficou com os frades e lutaram muito. Quando você vai ao Museu Histórico Nacional, está lá em exposição no pátio dos canhões, um dos canhões de René Duguay-Trouin. Era um canhão com grande potência de tiro. Ele tinha nove navios apontando para o Rio de Janeiro. Os frades estavam do lado do povo e atuavam como missionários por todo o interior do estado do Rio de Janeiro, tanto que vai encontrar eles nos conventos de Cabo Frio, Macacu e no belíssimo convento São Bernardino de Sena, em Angra dos Reis, que hoje é uma ruína mas é uma maravilha.
Há uma boa sintonia entre frades e povo?
Maria Mattos - Eu admiro os franciscanos por sua atuação, enquanto ministros da religião católica, enquanto homens e franciscanos. Eles sempre souberam atuar nestas três áreas. Dentro da cultura nacional, você vai encontrar essa presença marcante dos franciscanos. Eles eram pregadores, professores, filósofos, músicos, escritores e grande intelectuais. Frei Sampaio era um grande pregador e um dos capelães da Capela Real, que se torna grande amigo de D. Pedro I e de Dona Leopoldina. E como a Dinastia de Bragança era devota de Santo Antônio e São Francisco, eles iam muito ao Convento Santo Antônio. Até o Princípe Dom João ia ao Convento. Uma vez por semana ele almoçava com os frades. Então, aquelas pedras antigas que estão ali no claustro, nos corredores, nas alas foram pisadas pela Corte Portuguesa. Dona Leopoldina e D. Pedro iam muito lá e Frei Sampaio orientou muito D. Pedro durante todo o processo de nossa independência. Então, na cultura nacional, os franciscanos são intelectuais com grande presença, historiadores, cientistas, musicistas. Isso tudo tem de ser condignamente preservado. Por exemplo, os arquivos pessoais dos frades têm de ser reunidos. Isso tem de ser inventariado e preservado, porque não vamos perder só a história franciscana, mas a história do Brasil.
Como Frei Galvão, que hoje é santo.
Maria Mattos - Não podemos esquecer dos santos franciscanos, que viveram uma vida de piedade cristã e humildade, como nosso primeiro santo brasileiro, Frei Galvão, e outros como Frei Fabiano de Cristo, Frei Bruno, Frei Rogério. É uma Ordem de presença marcante e muita gente não conhece. Eles são humildes e não divulgam o que fazem. E o caso dos projetos sociais do Sefras, pouca gente conhece a obra de inclusão digital do Convento Santo Antônio, para citar um exemplo. Essa humildade faz com que não os encontre relacionados na cultura nacional. Por exemplo, o Frei Pedro Sinzig. Eu o conheci através do Clarivaldo Prado Valadares, que é um dos maiores críticos da história da arte do Brasil. Era amigo pessoal dele. E quando você lê o livro de Valadares, ele cita Frei Pedro na bibliografia. Eu perguntava: quem era esse homem?. E quando o Clarivaldo citava alguém, tratava-se de uma pessoa importante, que tinha representatividade na cultura nacional. Quando comecei a pesquisa do Convento Santo Antônio, vi quem era o Frei Pedro. Vi quem era Frei Velloso e assim tantos outros.
Eu ia esquecendo de dizer que os franciscanos são tão importantes dentro de nossa história que você tem três grandes franciscanos que foram capelães da FEB: o Frei Alfredo Setato, Frei Gil Maria e Frei...
Sobre o Convento N. Sra. da Penha, em Vila Velha, onde trabalhou, que aspecto a Sra. destacaria enquanto santuário mariano mais antigo do Brasil?
Maria Mattos - O Santuário da Penha é um dos mais antigos da América Latina. Deve ser um dos mais antigos junto com o de Nossa Senhora de Copacabana (Basílica Nossa Senhora de Copacabana, esta situada na cidade de Copacabana, na Bolívia. É onde se encontra a imagem de Nossa Senhora de Copacabana, a padroeira da Bolívia. A igreja foi construída no ano de 1550, em estilo renascentista e foi reconstruída entre 1610 e 1651). A Penha começa com Frei Palácios. Ela não recebe de imediato o nome de Santuário, mas a devoção começa logo (há 450 anos). O Santuário da Penha emociona pela presença dos devotos que chegam ali para pagar uma promessa. Todo capixaba é muito devoto porque Nossa Senhora é a padroeira, mas mesmo antes já levavam as crianças recém-nascidas para apresentarem à Nossa Senhora da Penha. Eles trazem o bebezinho recém-nascido, pela ladeira da penitência, e depois sobem os 174 degrau para entrar na igreja. Isso me emocionou muito quando estive lá e justifica que esse santuário seja considerado o primeiro do Brasil. E depois ele tem essa característica muito comum aos santuários de ser de difícil acesso. Um lugar de veneração, de contrição e de fé. Exemplo disso, a Procissão dos Homens. Não existe nada igual.
E é um santuário franciscano?
Maria Mattos – Pois é, os livros de história do Brasil enaltecem muito os jesuítas e eles têm o seu valor. Mas os franciscanos, que entram com 20 linhas, quase nada, para mim tem presença maior. Quando os jesuítas foram embora, os franciscanos assumiram a educação. Ninguém diz isso. A história tem de ser reescrita. Eles têm de ser reestudados para serem apresentados dentro da história do Brasil.
Como a sra. vê a distinção entre arte religiosa e arte sacra?
Maria Mattos - Concordo muito com o que diz Pastro (Cláudio). Através dos séculos, a houve uma grande representatividade da arte dentro dos templos, de qualquer religião. Mas a Igreja Católica, por sua importância dentro da história universal, sempre teve numa situação privilegiada e vem acumulando um patrimônio imensurável sobre a arte. E esta arte, que é praticada dentro de um espaço sacralizado, definem-na como uma arte sacra, mas na realidade é uma arte religiosa. Ela é feita para enaltecer a divindade. Embora ela seja um espelho do gosto daquela época, o estilo em vigor, ela é feita para Deus, como reforça a citação de Fra Angélico, que só pode pintar quem tem Cristo dentro dele. Você não pode criar uma obra de arte dentro de uma Igreja se você não tem uma religiosidade. Senão vai acontecer o que se vê agora, em templos modernos, que são frios e gelados. São espaços vazios, apenas tem o Cristo, às vezes tem um ambão. Conheço algumas igrejas que nem dá para ficar lá dentro. Você não tem o clima necessário para ficar ali, para fazer a sua demonstração de amor a Deus. Reflete o nosso momento atual, mas tem que ser revisto. A Igreja é um espaço sagrado e não pode ser menosprezado.
Como rever isso?
Maria Mattos – É um pouco da coordenação da Igreja. No caso dos bispos, eles têm de fazer normas para que se mude um pouco este comportamento. Não é um ato televisivo. Não se pode consagrar em qualquer coisa, por exemplo. Eu vi uma vez um padre que cortou uma garrafa de plástico pelo meio e consagrou o vinho. Como ele não levou o cálice, ele usou o plástico. Não está certo, tem que ser revisto. Outro exemplo, vi um padre vestido de bermuda fazendo uma encomendação de um corpo. É preciso ritos como diz Exupery.
O que dizer da idéia de que “a base mais profunda da arte sacra é a beleza, que é atributo de Deus”?
Maria Mattos - O belo é um atributo de Deus. É uma espiritualidade, porque Deus tem a beleza. Eu penso assim, que vai haver um outro Concílio, que vai adequar aquilo que está um pouco solto. Os padres não entenderam e cada um faz o que quer. As freiras também fazem o que querem. Há um limite. É como você mandar um médico para a sala de cirurgia sem todo aquele ritual necessário, com toda aquela roupa por causa da assepsia.
Até que ponto a formação do clero influencia na formação da espiritualidade, e por conseqüência, na visão mais ampla e profunda da arte sacra?
Maria Mattos - Os seminaristas precisam ter uma matéria – não dentro do currículo oficial – paralela, sob a importância da preservação do acervo da arte sacra. Muitas padres ou frades erram por ignorância. Ou não conheceram e não foram despertados para isso. Quando assumem uma paróquia, com mil problemas, não vão nunca se preocupar se tem cupim naquela talha ali. Mas se eles já vêm aprimorados, vão perceber que não é só telhado e parede que têm de ser preservados, mas o que está dentro também. Terão outro tipo de atitude.
A Província ia mandar Frei Róger estudar arquivologia. Mas ele tinha característica para ser um museólogo e eu pude mostrar a isso ao Frei Moisés Bezerra. É preciso mais dois, pelo menos, formados em museologia na Província, para se criar um Departamento de Inventário e Preservação do Acervo. |