Ministro Geral dos Franciscanos visita Petrópolis
e
convida os frades à renovação
Por Frei Gustavo Medella
Sereno, porém incisivo. Alegre, mas realista. Os adjetivos, pouco recomendados na redação jornalística, não podem ficar de fora quando se fala do frade espanhol José Rodriguez Carballo, Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores (OFM). Em visita a Petrópolis, o sucessor de São Francisco encontrou-se com os frades, celebrou a Missa de Pentecostes e visitou o Instituto Teológico Franciscano (ITF). Nesta entrevista, Frei José fala sobre sua participação na V Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM), a presença da OFM na América Latina e no Brasil e também ressalta a importância do ITF para a Ordem Franciscana. Ao fim da entrevista, o apaixonado Ministro Geral deixa escapar uma confidência: “falei com o coração”.
Frei Gustavo - O senhor esteve participando da V CELAM. Na sua opinião, de que maneira a Ordem dos Frades Menores (OFM) pode auxiliar na Missão da Igreja na América Latina?
Ministro Geral- Certamente a Ordem pode colaborar muito com a Igreja da América Latina. Nós estamos aqui desde o princípio, desde o começo da Evangelização. Seria bom recordar que foi um franciscano quem celebrou a primeira missa no Brasil (Frei Henrique de Coimbra, em 26 de abril de 1500) e agora também é um franciscano o primeiro santo do Brasil: Frei Galvão. Isto quer dizer que nós tivemos um grande papel na Evangelização da América Latina e particularmente do Brasil. Hoje temos que não só contar o que fizemos, mas tentar responder aos desafios que nos apresenta a situação deste momento, quando certamente a Igreja da América Latina vai nos chamar a uma Nova Evangelização do continente. Concretamente penso que desta V Conferência (CELAM) vai sair um forte chamado para a participação na Missão Continental. Então eu espero que os frades menores da América Latina, e particularmente do Brasil, se sintam chamados em primeira pessoa a colaborar nesta missão e, ao mesmo tempo, que colaborem não só os que trabalham nas paróquias, mas também os que atuam nos santuários, nas demais presenças franciscanas e também os que estudam e ensinam Teologia. Eu penso que os frades menores do Brasil têm que dizer uma palavra, a partir da reflexão teológica, para ajudar na formação dos discípulos e missionários, entre os quais estão sacerdotes, leigos, nós mesmos como religiosos, e também os bispos.
Frei Gustavo - Quais são as principais preocupações do Ministro Geral com relação à presença da OFM na América Latina e no Brasil?
MG- A minha preocupação neste momento para o Brasil e para a América Latina é um pouco a preocupação para toda a Ordem: dizer que nós realmente vivamos aquilo que prometemos; que nós ponhamos no centro de nossa vida e de nossa missão o Evangelho. Estamos nos preparando para celebrar o oitavo centenário da fundação da nossa Ordem em 2009, mas queremos nos preparar voltando-nos às nossas origens, e por isso o projeto do jubileu se chama “A Graça das Origens”. Voltar às origens quer dizer voltar ao Evangelho, quer dizer assumir o Evangelho como Regra da nossa vida, viver sempre com o coração (voltado) para o Senhor e, como conseqüência, (voltado) também para os homens e mulheres do nosso tempo. E o que peço ao Senhor, neste tempo tão importante para nós como é a Festa de Pentecostes, é que nos dê corações apaixonados por Deus e pelos homens. Eu penso que a igreja necessita de nós, como necessitou nos dias de Francisco (São Francisco de Assis, que fundou a OFM em 1209). Necessita de nós não simplesmente para fazer coisas que podem ser feitas por outros, para “tapar buracos”, mas para sermos testemunhas do amor de Deus pela humanidade. E para isto necessitamos ser, como já disse, homens apaixonados. A Igreja de hoje necessita de homens apaixonados. Isto nós podemos e devemos dar, pois escolhemos seguir as pegadas de Jesus Cristo segundo o exemplo de Francisco de Assis.
Frei Gustavo - Aqui em Petrópolis funciona o Instituto Teológico Franciscano (ITF). Qual deve ser o papel dos institutos franciscanos de estudo?
MG
– Antes de tudo quero agradecer de coração à Província da Imaculada (Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil – instituição à qual pertence o ITF) por tudo que faz em favor deste Instituto Teológico. Quero também agradecer aos professores e aos estudantes que trabalham no instituto e pelo instituto. Eu penso que o ITF de Petrópolis, como os demais institutos franciscanos da América Latina e do mundo, têm uma grande missão, que é a de conhecer, assimilar e traduzir para os nossos tempos o patrimônio filosófico e teológico da Ordem, um patrimônio muito atual. Penso que nós podemos responder a tantas perguntas existenciais que nos vêm do mundo de hoje se nós conhecermos bem o nosso patrimônio. Por isso eu convido os estudantes de Teologia do ITF e os professores a conhecerem em profundidade este patrimônio e traduzi-lo para as categorias atuais, a fim de que possa ser apresentado aos homens e mulheres do nosso tempo. Creio que esta é uma função muito importante dos institutos teológicos franciscanos: que não sejam simplesmente institutos teológicos, mas institutos teológicos franciscanos.
Frei Gustavo - Qual seria, então, o diferencial de um Instituto Teológico Franciscano?
MG - O diferencial é fundamentalmente este nosso patrimônio, que nós precisamos transmitir. Os últimos papas insistiram na força e na atualidade do nosso patrimônio. É triste, às vezes, constatar que os que conhecem melhor hoje e que estão mais interessados em nossa herança não são precisamente os frades, mas os leigos. Na Europa há muito leigos interessados no patrimônio filosófico e teológico franciscano e às vezes os nossos institutos não têm este diferencial. Muitas vezes a Teologia que se estuda em nossos institutos é a mesma que poderia se estudar em qualquer outro. Se for assim, não tem sentido um instituto teológico franciscano. Só tem sentido à medida que nós, partindo de Francisco e dos grandes pensadores da Escola Franciscana, possamos apresentar respostas e valores autênticos ao mundo de hoje.
Frei Gustavo - O ITF, além de frades, tem como estudantes outros religiosos, religiosas e leigos. Gostaria que o senhor deixasse uma mensagem para todos eles.
MG - Primeiro minha mensagem vai aos estudantes franciscanos. Para eles peço que realmente aproveitem este momento no qual se encontram e que se aprofundem no estudo da Teologia e do Pensamento Franciscano. É uma graça que não pode ser desperdiçada, também porque a renovação da Ordem passa necessariamente pela união entre a santidade de vida e o estudo. Sem estudo e santidade de vida não pode haver renovação. Então eu peço a meus irmãos franciscanos que aproveitem realmente este momento e se dediquem em profundidade ao estudo. Aos demais estudantes, primeiro quero agradecer por freqüentarem nosso instituto. Apesar de nossos limites, podemos e queremos oferecer uma boa formação teológica. Portanto, agradeço e, ao mesmo tempo, digo que não vamos decepcionar suas esperanças, porque estou convencido de que o Instituto de Petrópolis, quanto mais franciscano for, mais universal será e melhor responderá aos desafios que a igreja e a vida religiosa têm hoje. Por isso eu digo “muito obrigado” por virem a nós e parabéns por haver escolhido este instituto, que oferece uma reflexão teológica séria e serena. E espero que em breve nós possamos ter uma faculdade de Evangelização. A Ordem e o ITF estão muito comprometidos neste projeto. Penso que a América Latina e o Brasil necessitam desta faculdade de Evangelização. Espero que esta também seja uma maneira pela qual a Ordem colabore com a América Latina e com este grande país que é o Brasil.