Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 24/05/2012
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Por Moacir Beggo

Mostrar às pessoas qual é o sentido de vida que São Francisco propõe. É assim que, em 61 anos de profissão religiosa na Ordem dos Frades Capuchinhos, Frei José Carlos Corrêa Pedroso, ocupa grande parte de sua vida. Na verdade, como ele mesmo diz, está “inteiramente entregue a isso”.

Aos 79 anos, esse Mestre em Espiritualidade Francisclariana passa grande parte de seu tempo coordenando o Centro Franciscano de Piracicaba, no interior de São Paulo, onde reside. Além da série de livros publicados sobre espiritualidade franciscana, das palestras e aulas que ministra, Frei José Carlos se dedica com muita paixão ao Curso Franciscano de Verão, anualmente no mês de janeiro.  Idealizador do curso em 2008, hoje ele colhe os frutos e comemora o sucesso desta iniciativa.  "É interessante porque sempre sonhei alto, mas neste caso, a realidade ultrapassou o sonho. Estou feliz com o andamento do curso como nem esperava".

Hoje, um dos maiores mestres de espiritualidade franciscana do Brasil, Frei José conta que o objetivo do curso é oferecer a todos os "amigos de São Francisco e Santa Clara", religiosos e leigos, um aprofundamento do carisma francisclariano com consistência acadêmica.


Nesta entrevista, concedida durante o Curso de Verão, o foco não poderia ser outro senão a espiritualidade franciscana, sobre a qual Frei José Carlos fala com paixão. A mesma paixão que brotou aos 14 anos, quando voltou a ingressar no Seminário Seráfico, onde mais tarde foi professor, formador e diretor. Eleito Definidor na sua Província desempenhou a função apenas um ano já que foi eleito Provincial para um período de 5 anos. Mas em seguida, foi eleito para uma missão maior: Definidor Geral da Ordem dos Capuchinhos e passou 12 anos morando na Itália.


Acompanhe a entrevista!

Site Franciscanos - Depois de 800 anos, Clara e Francisco têm lugar no mundo de hoje?
Frei José Carlos Pedroso – Acredito que sim. Aliás, costumo ver Clara como a mulher que foi guardada para o século 21, porque ela traz uma série de aberturas que nós não tínhamos descoberto nem em São Francisco. Pode ser que no tempo em que ela foi esquecida, não tenham querido ver todo o seu alcance. São Francisco também é o homem universal e fora do tempo, porque foi um dos maiores imitadores de Jesus. Isto é, ele conseguiu completar aquela dimensão: a medida do ser humano perfeito, que foi Jesus. A gente vê que São Francisco é conhecido e admirado por budistas, espíritas, protestantes e tanta gente porque o grande motivo é ser uma pessoa realizada. Não é à-toa que foi eleito o homem do milênio. Enfim, acredito que hoje não dá mais para entender São Francisco sem Clara. Ela tem uma espiritualidade que, de um lado, é quase igual ou a mesma de São Francisco, e de outro lado, muito original. Como ela é mais clara ao escrever, hoje compreendemos São Francisco a partir do que ela diz.

Site Franciscanos - É correto chamar Clara de “Plantinha” quando lemos que ela era uma grande mulher para a sua época? Isso não desvirtua a história?
Frei José Carlos Pedroso - É uma leitura desajeitada. Costumam entender que ela seria como um vaso querido de São Francisco, que ele punha na janela e regava todo dia. Seria uma criança. Mas quem conhece os textos das Fontes sabe que plantinha, em latim plântula, é o que nós chamamos de muda. Quando um mosteiro fundava outro, o fundador era chamado de plantador e o fundado era a muda, ou plantinha, porque nos primeiros tempos dependia dos cuidados do outro. Nas suas biografias, São Francisco é chamado de plantador da Ordem dos Menores. A Ordem de Santa Clara também foi plantada por ele. Uma das coisas que surpreendem em Santa Clara é que, depois de ser obrigada a seguir a regra de São Bento, a regra de Hugolino e a regra de Inocêncio IV, ela pôde finalmente fazer a dela. É notável a sua maneira de ser livre. Para dar alguns exemplos: As regras dos papas diziam que o silêncio era perpétuo, mas Clara disse, em sua Regra, que o silêncio era perpétuo desde as completas até a hora de Prima”. Quer dizer, só durante a noite. No refeitório, havia silêncio “na hora das refeições”, porque é provável que, em outras horas, elas fizessem no refeitório seus recreios e trabalhos manuais. E conversavam. Clara chega a dizer que na enfermaria elas tinham obrigação de falar para consolar as doentes. Hugolino dizia que, na igreja, as Irmãs deviam estar separadas do povo com uma grade e um pano preto, tão grosso que impedisse totalmente a visão. Santa Clara escreveu que elas ficariam separadas por uma grade com um pano preto, que só seria levantado quando uma irmã precisasse falar com alguém. Então, com muito jeitinho, para não ferir, ela vai promovendo uma abertura. É uma cabeça totalmente diferente de tudo que se viu mesmo depois. E precisava defender a fraternidade, um ponto essencial para os franciscanos.

Site Franciscanos - São Francisco idealizava uma igreja de retorno ao Evangelho. No atual contexto mundial, é possível isso?
Frei José Carlos Pedroso - Muita gente diz isso: São Francisco idealizava uma Igreja de retorno ao Evangelho, aos pobres. Mas os pobres são conseqüência. O retorno é ao Evangelho Jesus. Ele é a boa nova. Temos o livro do Evangelho que fala dele. Mas ele é a boa nova. O retorno é a Jesus Cristo. Se eu me voltar de verdade para Jesus Cristo, vou encontrar o pobre. Jesus assumiu a pobreza, como diz a Carta aos Filipenses: Ele é Deus, não ficou cheio disso, mas se esvaziou até ser encontrado como servo para nos salvar. Nesse sentido, também é interessante que São Francisco, antes de morrer, tenha deixado uma última vontade para Santa Clara, dizendo: "A pobreza é fundamental para nós. Então, você não largue a pobreza por vontade e conselho de pessoa alguma”. Pessoa alguma incluía o papa. Mais tarde, justamente quando o Cardeal Hugolino, já papa, foi a Assis para canonizar Francisco, entrou em São Damião antes de subir à cidade: Foi falar com Clara.  E disse: "Olhem, minhas filhas, essa pobreza que vocês querem não vai dar certo. Não vão conseguir sobreviver. Vocês precisam ter propriedades”. E ela escutava quieta. – “Não se preocupem, tenho algumas propriedades e dou para vocês”, dizia Hugolino. E ela continuava quieta. Então, o papa disse: – “Se é por causa do voto de pobreza, você sabe que, como papa, eu posso dispensar do voto”. Então ela respondeu: "Por favor, não me dispense de seguir o meu Senhor Jesus Cristo". É interessante observar São Francisco falar em viver o Evangelho sem propriedade, em obediência e castidade. Ele nunca mais usa a palavra castidade. Quando usa é para dizer "louvado sejais meu Senhor pela Irmã Água, que é preciosa e casta". Então, essa castidade era algo que não estava na visão dele. Antecipando o Concílio Vaticano II, para ele o voto seria o do amor fraterno. Recomendo a leitura do meu livro "Livres para amar" -, em que vemos que só a partir do Concílio Vaticano II o voto de castidade passou a ser o principal. Porque o voto não é negativo, o voto é sempre positivo. A “Perfectae caritatis” e Paulo VI insistiram nisso. Hoje, temos uma visão mais clara. Não é o sexo que é pecado; é o que o acompanha: manipulação da pessoa, desrespeito à pessoa, injustiça com a pessoa. Sendo o voto de fraternidade, quantas vezes estamos pecando contra a fraternidade? Até todos os dias...

Site Franciscanos - Que ensinamentos de São Francisco  podem ajudar a nossa sociedade e como fazer isso?
Frei José Carlos Pedroso - Há muitas coisas. Eu diria que o fundamental é que São Francisco recorda que a realização do ser humano está no Deus que se encarnou. Naturalmente pouca gente entende isso a ponto de saber expressar, mas as pessoas entendem quando vêem um Francisco profundamente humano. Às vezes perguntamos porque as imagens de São Francisco costumam ter pombinhas e um lobo. Pode ser que o povo tenha entendido mais do que nós que ele é um homem que, chegando à plenitude, tem um relacionamento aberto com todos os seres, com as pessoas, os animais e as coisas. Diria que uma de suas grandes contribuições para renovar a sociedade é dar sentido às coisas. Recordo que um tempo atrás vivemos a experiência do QI, do Quociente de Inteligência. Mas o QI é a medida da inteligência lógica. Depois foi descoberto o QE para medir o quociente de emoção. Agora aparecem livros que tratam do QS, o quociente de espiritualidade. O que é o QS? Não é necessariamente chegar a Deus, mas descobrir um sentido das coisas. É claro que ao descobrir o sentido das coisas vai se chegar a Deus. Então, percebemos que o mundo de hoje tem essa sede. E Francisco é um que sabe mostrar.

Eu vou dizer uma coisa que é muito pessoal. Acho que sou alguém que chegou diferente à vida franciscana, porque meu pai e meus avós eram terceiros franciscanos. Quando fiz dez anos, meu pai me deu uma vida de São Francisco, a de Maria Sticco, publicada pela Vozes. Eu li, reli e decidi: “É isso que eu quero. É a isso que vou me dedicar”. Meu pai me encaminhou para um Seminário Seráfico. Lembro que ali, no seminário, levei um susto. Tinham um São Francisco na capela, faziam procissão de São Francisco, festa de São Francisco, mas nada do que tinha visto na vida de São Francisco. Diziam: “Você vai ser padre, mas se por acaso a cabeça não der, vai ser irmão leigo”. Na época era ser um frade de segunda categoria, encarregado dos trabalhos materiais. Mas a busca por São Francisco e pelas coisas dele eu não via. Durante um tempo até me deixei levar. Então, hoje, tenho 61 anos de profissão religiosa. Estou há muito mais tempo entregue só a isso: a mostrar às pessoas qual é o sentido de vida que São Francisco propõe. Já fiz isso de mil maneiras e em muitos países. A gente percebe que todas as pessoas se interessam por São Francisco. Às vezes, os leigos mais que os religiosos; as mulheres mais do que os homens. Até evangélicos e budistas se interessam. Uma vez, fui chamado para dar uma entrevista na Rede Vida sobre São Francisco. Era o programa do Altemeyer (Fernando) e achei uma coisa interessante. Assim que acabou a gravação da entrevista, os funcionários da televisão caíram em cima de mim para falar de São Francisco. Não sei se quem assistiu se interessou, mas os funcionários gostaram. Todo mundo queria saber de São Francisco.

Site Franciscanos - Qual  o principal ensinamento que São Francisco deixou para a humanidade?
Frei José Carlos Pedroso - Ele redescobre o sentido da fraternidade. Hoje se fala muito em fraternidade, mas nós percebemos que precisamos nos entender mais. Lembro que a Revolução Francesa, que era ateia, tinha como ideal a fraternidade, liberdade e igualdade.  Os maçons se dizem irmãos. São Francisco vai à fraternidade verdadeira. E Jesus quando veio disse: quando vocês rezarem, digam “Pai nosso”. No cap. 25 de São Mateus, quando fala do fim do mundo, Jesus faz umas perguntas que parecem estranhas:  Eu estava na cadeia e você veio me visitar; não tinha comida e você me deu; não tinha casa e você me acolheu. E a gente pode perguntar: mas quando o senhor estava na cadeia, doente e sem casa? Toda vez que você fez isso ao menor dos meus irmãos fez a mim. O sentido da fraternidade está no fato de, como diz São Paulo, passarmos a ser filhos adotivos de Deus porque Jesus se fez nosso irmão. E, aliás, é interessante porque nos disseram tantas coisas quando éramos crianças: Se você faltar à missa uma vez vai para o inferno. E Jesus vendo todo mundo não pergunta a ninguém se foi à missa, não pergunta se leu as encíclicas, não pergunta nem se observou a Regra Franciscana. Só vai perguntar se cuidei bem do irmão necessitado. Que era Ele. E passamos a pensar diferente.

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