Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012
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"Deus me chamou para a Missão"

Em férias no Brasil, Frei Alexandre Magno Cordeiro da Silva fala de sua primeira experiência como missionário em Angola, onde é guardião da Fraternidade Franciscana da Porciúncula, em Luanda, e mestre do Postulantado nesta fraternidade.

Por Moacir Beggo

PVF - Como foi a experiência de dois anos como missionário em Angola?
Frei Alexandre - Quando fui para a Missão tinha a certeza de ser enviado. Ao chegar em Angola, descobri que também fui chamado. Deus, já presente no meio do povo angolano, me chamava. Em Julho de 2002, quando cheguei em Angola, havia três meses do término da guerra. Encontrei um povo cheio de fé com a consciência que, para a construção da paz, não bastava o silenciar das armas, mas cada um deveria contribuir para com esta construção, reconciliando seus corações feridos pelos trinta anos de guerra. Com muita esperança, tendo a presença de Deus, vai-se construindo a reconciliação e a paz.

PVF - Antes de ir para Angola, o Frei atuava na formação religiosa no Brasil. A mesma filosofia pode ser aplicada num país de cultura diferente da nossa?
Fr. Alexandre - A vida religiosa franciscana exige, antes de tudo, a interiorização dos valores franciscanos de consagração a Deus nos votos, na fraternidade e na minoridade, na contemplação e evangelização. Estes são valores são fundamentais em qualquer contexto cultural. O Evangelho e a Igreja devem inculturar-se sem renegar coisa alguma dos valores franciscanos e cristãos; mas, ao contrário, estando persuadidos de que Jesus Cristo "tornado africano" traz a toda Igreja aspectos importantes de encarnação e de cultura. Estamos convencidos de que os nossos irmãos africanos, se forem fiéis ao Espírito do Senhor, e se O deixarem agir neles, poderão trazer a toda Ordem uma renovação de espírito fraterno, de simplicidade, de espontaneidade, de sentido de pertença a uma nova família alargada.
PVF - Quais as dificuldades e avanços da Missão de Angola depois do período de paz?
Fr. Alexandre - Como avanço destacaria a abertura dos caminhos que possibilitaram atingirmos áreas onde o missionário não conseguia chegar há quase vinte anos, devido à guerra. Nestas áreas, encontramos uma infinidade de pessoas. Muitas mantiveram a fé graças a ação dos catequistas. Há muitas sedentas daqueles que anunciem, precisam de formação cristã e humana. Hoje, justamente nestas áreas, só temos dois sacerdotes para um total de 663 comunidades. Assim, a principal dificuldade que temos é o número reduzido de frades.

PVF - Quantos missionários da Província estão em Angola? E de outras províncias e congregações você tem dados?
Fr. Alexandre - Somos 12 frades missionários brasileiros, sendo 3 professos temporários. Esperamos ainda a chegada de 3 confrades colombianos. Já temos 8 confrades angolanos professos temporários. Somaremos, assim, com a vinda dos confrades colombianos, 23 frades. De outras congregações não tenho dados precisos, mas sei que depois da guerra temos tido um número crescente de missionários. Recentemente chegaram também os Dehonianos. Penso que o Brasil seja o país que no último ano mais mandou missionários e missionárias para Angola. Penso que isto se deve à crescente consciência da dimensão missionária da Igreja do Brasil. Oxalá este número aumente. Temos uma dívida com Angola. O momento histórico nos diz que é chegada a hora da evangelização em terras angolanas.

PVF - Quanto tempo vai demorar para se reconstruir Angola depois da guerra?
Fr. Alexandre - A guerra em Angola foi avassaladora. Foram mais de trinta anos. Primeiro foram os anos de guerra pela independência, alcançada em 1975. Depois veio a guerra civil que durou até 2002. Estes anos de guerra destruíram todas as infra-estruturas: ferrovias, fábricas, escolas e hospitais. Hoje há um início de reconstrução. O processo está sendo lento. Há a necessidade de se fazer a 'desminagem' e, para isto, Angola deveria receber uma ajuda internacional. Está sendo aprovada uma lei de terras. Ela deveria possibilitar o retorno à terra de deslocados que desejam retornar às suas terras de origem. O governo pede para que os angolanos que vivem no exterior retornem para dar sua contribuição na reconstrução. A reconstrução deverá envolver a todos. A Igreja tem sido uma companheira. Aliás, a Igreja nunca abandonou o povo. Foi um apoio religioso, social, alimentar, hospitalar e educacional. Em documentos episcopais, a Igreja sempre se posicionou criticamente. Já em 1989, a Igreja já pedia o fim da guerra, o pluripartidarismo e a democracia. Os bispos sempre assinaram estas cartas em comum. E o povo angolano reconhece e é agradecido. A Igreja tem hoje investido com intensidade na formação religiosa, na saúde, nas escolas, e formação para a cidadania. Nossa missão deverá ser muito na pregação e formação. Orientar para que a comunidade tenha uma vida de testemunho, doutrinação e pregação. Criando cursos que forme grupo de responsáveis. Formação litúrgica e catequética. Ter uma formação religiosa sistemática. Com cursos periódicos, com continuidade, como na escola. É também nossa missão ajudar as pessoas a recuperarem os valores culturais que haviam. Valorizando o aprendizado das línguas locais.

PVF - Por que ser missionário em Angola quando você vive num país tão carente como o Brasil?
Fr. Alexandre - A maior carência que verificamos, seja no Brasil como em Angola, é a do conhecimento e da vivência do Evangelho. Daí decorrem todas as demais carências. Se o Evangelho fosse vivido todos as demais carências seriam superadas. Haveria um projeto comum de vida, de partilha e de amor. Nossa missão enraíza-se numa vontade clara de Deus em instruir as pessoas. A Bíblia nos revela que Deus quer um homem instruído e responsável. Isto vai dignificar o homem. Se não houvesse a revelação não haveria necessidade de evangelizar a todo povo. É Deus que quer mensageiros que vão anunciar. Assim a Evangelização é fruto de um mandato. Jesus mandou levar o Evangelho a toda humana criatura. O anúncio do Evangelho não tem fronteiras. Também a Ordem franciscana nasceu sob o mandato da missão. Se hoje eu e você conhecemos o Evangelho foi porque houve pessoas que deixaram um dia suas terras para nos trazer esta Boa-Nova. Ainda hoje existem pessoas que não conhecem Jesus. É urgente a necessidade do anúncio. Hoje é chegada a hora de irmos levar este anúncio aos que ainda não conhecem a mensagem de Jesus. Também aqui internamente, em nosso país, deveremos fazer todo o esforço para que Ele seja conhecido por todos. O anúncio do Evangelho deve chegar lá onde o povo está. Esta é tarefa de toda comunidade eclesial. E cada um de nós, a seu modo, deve contribuir para este anúncio. Assim, como na comunidade primitiva, também nós deveremos trabalhar de modo complementar. Uns partem para anunciar a outros povos, outros ao povo local. Nenhum cristão poderá se furtar deste mandato. É um mandato urgente, não podemos esperar.

PVF - O que é ser um frade missionário franciscano?
Fr. Alexandre
- É o frade menor que se sente inspirado por Deus para anunciar o Evangelho além das fronteiras de sua terra. Ele, em obediência ao governo provincial, parte em nome de toda fraternidade para a missão. Faz uma experiência de êxodo geográfico e cultural, vivendo na itinerança. Vive em fraternidade e evangeliza em fraternidade. São Francisco em sua carta a toda Ordem sintetiza esta vocação ao dizer: "O frade menor é mandado pelo mundo inteiro, para dar testemunho de Sua voz por suas palavras e por suas obras e faz saber a todos que ninguém 'e Todo-Poderoso senão Ele".

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