Em
férias no Brasil, Frei Alexandre Magno Cordeiro
da Silva fala de sua primeira experiência como
missionário em Angola, onde é guardião
da Fraternidade Franciscana da Porciúncula, em
Luanda, e mestre do Postulantado nesta fraternidade.
Por Moacir Beggo
PVF - Como foi a experiência de dois anos como
missionário em Angola?
Frei Alexandre - Quando fui para a Missão
tinha a certeza de ser enviado. Ao chegar em Angola,
descobri que também fui chamado. Deus, já
presente no meio do povo angolano, me chamava. Em Julho
de 2002, quando cheguei em Angola, havia três
meses do término da guerra. Encontrei um povo
cheio de fé com a consciência que, para
a construção da paz, não bastava
o silenciar das armas, mas cada um deveria contribuir
para com esta construção, reconciliando
seus corações feridos pelos trinta anos
de guerra. Com muita esperança, tendo a presença
de Deus, vai-se construindo a reconciliação
e a paz.
PVF - Antes de ir para Angola, o Frei atuava na formação
religiosa no Brasil. A mesma filosofia pode ser aplicada
num país de cultura diferente da nossa?
Fr. Alexandre - A vida religiosa franciscana
exige, antes de tudo, a interiorização
dos valores franciscanos de consagração
a Deus nos votos, na fraternidade e na minoridade, na
contemplação e evangelização.
Estes são valores são fundamentais em
qualquer contexto cultural. O Evangelho e a Igreja devem
inculturar-se sem renegar coisa alguma dos valores franciscanos
e cristãos; mas, ao contrário, estando
persuadidos de que Jesus Cristo "tornado africano"
traz a toda Igreja aspectos importantes de encarnação
e de cultura. Estamos convencidos de que os nossos irmãos
africanos, se forem fiéis ao Espírito
do Senhor, e se O deixarem agir neles, poderão
trazer a toda Ordem uma renovação de espírito
fraterno, de simplicidade, de espontaneidade, de sentido
de pertença a uma nova família alargada.
PVF - Quais as dificuldades e avanços da Missão
de Angola depois do período de paz?
Fr. Alexandre - Como avanço destacaria a abertura
dos caminhos que possibilitaram atingirmos áreas
onde o missionário não conseguia chegar
há quase vinte anos, devido à guerra.
Nestas áreas, encontramos uma infinidade de pessoas.
Muitas mantiveram a fé graças a ação
dos catequistas. Há muitas sedentas daqueles
que anunciem, precisam de formação cristã
e humana. Hoje, justamente nestas áreas, só
temos dois sacerdotes para um total de 663 comunidades.
Assim, a principal dificuldade que temos é o
número reduzido de frades.
PVF - Quantos missionários da Província
estão em Angola? E de outras províncias
e congregações você tem dados?
Fr. Alexandre - Somos 12 frades missionários
brasileiros, sendo 3 professos temporários. Esperamos
ainda a chegada de 3 confrades colombianos. Já
temos 8 confrades angolanos professos temporários.
Somaremos, assim, com a vinda dos confrades colombianos,
23 frades. De outras congregações não
tenho dados precisos, mas sei que depois da guerra temos
tido um número crescente de missionários.
Recentemente chegaram também os Dehonianos. Penso
que o Brasil seja o país que no último
ano mais mandou missionários e missionárias
para Angola. Penso que isto se deve à crescente
consciência da dimensão missionária
da Igreja do Brasil. Oxalá este número
aumente. Temos uma dívida com Angola. O momento
histórico nos diz que é chegada a hora
da evangelização em terras angolanas.
PVF - Quanto tempo vai demorar para se reconstruir
Angola depois da guerra?
Fr. Alexandre - A guerra em Angola foi avassaladora.
Foram mais de trinta anos. Primeiro foram os anos de
guerra pela independência, alcançada em
1975. Depois veio a guerra civil que durou até
2002. Estes anos de guerra destruíram todas as
infra-estruturas: ferrovias, fábricas, escolas
e hospitais. Hoje há um início de reconstrução.
O processo está sendo lento. Há a necessidade
de se fazer a 'desminagem' e, para isto, Angola deveria
receber uma ajuda internacional. Está sendo aprovada
uma lei de terras. Ela deveria possibilitar o retorno
à terra de deslocados que desejam retornar às
suas terras de origem. O governo pede para que os angolanos
que vivem no exterior retornem para dar sua contribuição
na reconstrução. A reconstrução
deverá envolver a todos. A Igreja tem sido uma
companheira. Aliás, a Igreja nunca abandonou
o povo. Foi um apoio religioso, social, alimentar, hospitalar
e educacional. Em documentos episcopais, a Igreja sempre
se posicionou criticamente. Já em 1989, a Igreja
já pedia o fim da guerra, o pluripartidarismo
e a democracia. Os bispos sempre assinaram estas cartas
em comum. E o povo angolano reconhece e é agradecido.
A Igreja tem hoje investido com intensidade na formação
religiosa, na saúde, nas escolas, e formação
para a cidadania. Nossa missão deverá
ser muito na pregação e formação.
Orientar para que a comunidade tenha uma vida de testemunho,
doutrinação e pregação.
Criando cursos que forme grupo de responsáveis.
Formação litúrgica e catequética.
Ter uma formação religiosa sistemática.
Com cursos periódicos, com continuidade, como
na escola. É também nossa missão
ajudar as pessoas a recuperarem os valores culturais
que haviam. Valorizando o aprendizado das línguas
locais.
PVF - Por que ser missionário em Angola quando
você vive num país tão carente como
o Brasil?
Fr. Alexandre - A maior carência que verificamos,
seja no Brasil como em Angola, é a do conhecimento
e da vivência do Evangelho. Daí decorrem
todas as demais carências. Se o Evangelho fosse
vivido todos as demais carências seriam superadas.
Haveria um projeto comum de vida, de partilha e de amor.
Nossa missão enraíza-se numa vontade clara
de Deus em instruir as pessoas. A Bíblia nos
revela que Deus quer um homem instruído e responsável.
Isto vai dignificar o homem. Se não houvesse
a revelação não haveria necessidade
de evangelizar a todo povo. É Deus que quer mensageiros
que vão anunciar. Assim a Evangelização
é fruto de um mandato. Jesus mandou levar o Evangelho
a toda humana criatura. O anúncio do Evangelho
não tem fronteiras. Também a Ordem franciscana
nasceu sob o mandato da missão. Se hoje eu e
você conhecemos o Evangelho foi porque houve pessoas
que deixaram um dia suas terras para nos trazer esta
Boa-Nova. Ainda hoje existem pessoas que não
conhecem Jesus. É urgente a necessidade do anúncio.
Hoje é chegada a hora de irmos levar este anúncio
aos que ainda não conhecem a mensagem de Jesus.
Também aqui internamente, em nosso país,
deveremos fazer todo o esforço para que Ele seja
conhecido por todos. O anúncio do Evangelho deve
chegar lá onde o povo está. Esta é
tarefa de toda comunidade eclesial. E cada um de nós,
a seu modo, deve contribuir para este anúncio.
Assim, como na comunidade primitiva, também nós
deveremos trabalhar de modo complementar. Uns partem
para anunciar a outros povos, outros ao povo local.
Nenhum cristão poderá se furtar deste
mandato. É um mandato urgente, não podemos
esperar.
PVF - O que é ser um frade missionário
franciscano?
Fr. Alexandre - É o frade menor que se sente
inspirado por Deus para anunciar o Evangelho além
das fronteiras de sua terra. Ele, em obediência
ao governo provincial, parte em nome de toda fraternidade
para a missão. Faz uma experiência de êxodo
geográfico e cultural, vivendo na itinerança.
Vive em fraternidade e evangeliza em fraternidade. São
Francisco em sua carta a toda Ordem sintetiza esta vocação
ao dizer: "O frade menor é mandado pelo
mundo inteiro, para dar testemunho de Sua voz por suas
palavras e por suas obras e faz saber a todos que ninguém
'e Todo-Poderoso senão Ele".