Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 13/02/2012
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Paulistano nato, do tradicional bairro do Brás, Frei Agostinho Salvador Piccolo, comemorou neste domingo, dia 24, o Jubileu de Ouro de vida sacerdotal. A Igreja do Pari, que viu tantos anos Frei Agostinho consagrar o Pão e o Vinho no seu altar, lotou para mais esta celebração especial. Frei Vitório Mazzuco Filho, Vigário Provincial e ex-aluno seu, lembrou que Frei Agostinho é hoje um referencial de vida, um modelo vivo de santidade.
Nesta entrevista ao site "Franciscanos" e ao Boletim "Caminhando" da Paróquia do Pari, Frei Agostinho fala da sua vocação, da sua família, da formação, dos seus hobbies e do jubileu. Acompanhe

Por Moacir Beggo
Site Franciscanos - Como nasceu a sua vocação para a Vida Franciscana?

Frei Agostinho - A palavra vocação é muito rica. Desde seu étimo. Vem do Latim : “vocatio” – do verbo “vocare”, que significa chamar, o ato de chamar(-se) ou o seu efeito; é uma disposição natural, tendência, algum talento, dom natural. Dizemos, por exemplo: Pelé tinha excepcional vocação para o futebol. Ana Botafogo, vocação para o balé.
Na Bíblia, as cenas de vocação estão entre as páginas mais impressionantes. As vocações têm por objeto missões: se Deus chama é para enviar. “Vai!” A vocação “é o chamado que Deus dirige ao homem a quem ele escolheu para si e que destina a uma obra especial no seu plano. Vejam-se, por exemplo, as vocações dos patriarcas Abraão e Moisés (Gn 12,1; Êx 3, 10.16), dos profetas (Is 6,9), Jeremias (1,7), dos apóstolos (Mc 3,13), de Paulo (Rm 1, 1.7). Mais particularmente, conota chamamento para um estado de vida próprio: matrimônio, vida religiosa, sacerdócio. O Papa Paulo VI dizia: “Vocação é um dom libérrimo de Deus.” No meu caso, a vocação franciscana e sacerdotal não nasceu de encanto infantil, como às vezes lemos de biografias um tanto fantasiosas de santos. Desde crianças, “brincando de dizer missa”, vestindo batina... Eu sonhava com aviação. Do sobrado de minha casa, no Brás, via o Campo de Marte, zona norte de São Paulo. Nos sábados à tarde, principalmente, funcionava a escola para vôos, treinamento de evoluções, e me fascinava. Depois, pensei em medicina. Outros comentavam que devia ser advogado, diplomata ou locutor (gostava de falar, de harmonizar). Um dia, era coroinha da Igreja Santo Antônio, assisti a um filme sobre missões entre os índios da prelazia de Chapada dos Guimarães, hoje atração turística; naquele tempo, década de 40 ainda, uma aventura. O Bispo de lá era um franciscano, Dom Vunibaldo Talleur. Encantei-me com a aventura. Chegado à adolescência, propus-me: Pra lá é que eu vou! Depois, em contato com os Frades do Pari, fui cristalizando a idéia e me orientando. Para surpresa de muita gente, pois eu era meio sapeca (mas legal!), louco por bola, tricampeão paulista de basquete colegial (Liceu Acadêmico São Paulo, junto com um futuro jogador do time principal do Corinthians, Dr. Rubens Rodrigues, ortopedista, e ainda amigo); adorava também cinema, e estava sempre cercado de fãzinhas do colégio e do bairro... Mas Deus ia mexendo os pauzinhos... E acabei no time de São Francisco de Assis!

Site Franciscanos - Que etapas o Sr. fez na formação?
Frei Agostinho - Depois do ensino médio no Seminário Santo Antônio, Agudos (SP), ingressei no Noviciado na cidade de Rodeio, perto de Blumenau ( SC), de fundação italiana, pequena mas muito simpática. Fiz Filosofia e Teologia nos Institutos Franciscanos (Curitiba, PR, e Petrópolis, RJ), de alto nível, 7 anos. Iniciei Letras na Universidade Católica de Petrópolis, depois continuei na USP, onde me formei. Segui pós-graduação, com estágios de Orientação Educacional em Institutos Franciscanos (Holy Name College) e na Catholic University of America, Washington, D.C., Estados Unidos. Em seguida, cursos semestrais de Psicologia Vocacional e de Franciscanismo, junto ao douto franciscanólogo Frei Kajetan Esser, em Grottaferrata, Itália. Mais tarde, mestrado em Espiritualidade Franciscana, no “Pontifício Ateneo Antonianum”, hoje “Pontifícia Universitas Antoniana”, Roma, Itália. Sempre com muito gosto e aplicação.

Site Franciscanos - Como foi sua ordenação sacerdotal?
Frei Agostinho - Seriamente e alegremente preparada, em Petrópolis. No dia 2 de julho de 1957. Já estava na Ordem há 7 anos. Mestre era Frei Evaristo Arns, o futuro Cardeal Arcebispo de São Paulo Dom Paulo Evaristo, que, ao longo dos anos, continuou sendo para mim um dos mais achegados orientadores, nos estudos e na vida franciscana. A ordenação sacerdotal, ou presbiteral, é precedida de vários graus, chamados de ordens menores, subdiaconado e diaconado, num crescendo de formação eclesiástica. E, na idade de jovem mais maduro, a gente pode assumir o compromisso de consagração ao Reino de Deus, como dizemos, na missão de evangelizar e servir aos irmãos e irmãs que a Providência vai colocando ao longo de nossos caminhos. Inspirei-me cedo em exortação de Francisco de Assis, em carta muito pessoal e tocante enviada a toda a Ordem dos Frades Menores lá por 1220: “Considerai a vossa dignidade, irmãos sacerdotes, e sede santos, porque Ele é santo (...) Nada de vós retenhais para vós, a fim de que totalmente vos receba aquele que totalmente se vos oferece.”

Site Franciscanos - Como o Sr. se sente nestes 50 anos como sacerdote?
Frei Agostinho - Acho que muitos esperariam a resposta: “Sinto-me realizado.” Não. Sinto-me, sim, muito grato a Deus pelo dom da perseverança. Muito grato a meus familiares e tantos amigos e amigas que entraram em minha vida. Ao mesmo tempo, desafiado a continuar de coração aberto a quantos puder servir, acolhendo, compreendendo, orientando, perdoando, entusiasmando. Peço a Deus que eu seja dócil aos seu planos, buscando diariamente ser sempre mais generoso, disponível, terno e cordial, colaborando na construção de um mundo justo, solidário, fraterno.

Site Franciscanos - Quantos anos trabalhou na Educação?
Frei Agostinho - Cerca de 40 anos. Aliás, já como estudante de Teologia dei aulas ou sessões de formação religiosa, em colégios particulares e estaduais. Concluído o curso, assumi funções em colégios dos Franciscanos em São Paulo, no Paraná, e no Seminário vocacional na cidade de Agudos. Como professor, orientador, diretor. Sempre apreciei e aprecio. Porque a Educação, repito o emérito educador Dom Bosco, “é obra do coração”. Vejo, com os pedagogos e pedagogistas de hoje, que a educação é o caminho para a saída de todas as crises. “A importância do educador, do professor nunca foi tão patente como hoje, e será ainda mais decisiva no século XXI” – escreve J. Delors, presidente da Comissão Internacional sobre a Educação, no Relatório para a Unesco intitulado “Educação: um tesouro a descobrir”.

Site Franciscanos - Qual é a relação entre o Religioso e a Família?
Frei Agostinho - Boa pergunta. Às vezes, as pessoas pensam que o Religioso, Frade ou Padre é um ser etéreo, uma espécie de ET, um ser doutro planeta. Para mim, a Família é superimportante. Eu sou de família numerosa. Éramos 8 irmãos, 5 mulheres e 3 homens. Os 3 mais velhos já faleceram. Éramos e somos muito unidos, crescendo juntos, com muito afeto. Meu Pai era homem firme, lutador, todo dedicado à família e ao trabalho. Minha Mãe, bem meiga, acolhedora, de piedade simples e coerente. Amigos e Amigas, considero-os extensão da família. Ao longo dos anos de Frade e Sacerdote, construí muitas Amizades, sinceras, leais, legais, dedicadas. A Bíblia tem imensa razão quando expõe: “Quem encontra um Amigo, uma Amiga, encontra um tesouro.”

Site Franciscanos - Quais são os gostos, hobbies, cultura, esporte de Frei Agostinho?
Frei Agostinho - Em termos de comida, adoro massas. Em casa, 5ª.f. e domingo eram sagrados, macarronada, nhoque, lasanha... Na Itália, “la pasta” é de domingo a domingo. Pizza, podem servir-me toda noite que topo... Gosto de cinema desde criança. Já há algum tempo ficou bem raro, por causa das funções que me absorvem bastante tempo. Gosto de praia e de montanha. Também se tornaram mais difíceis, mas são muito reconfortantes. A montanha me inspira a escrever. Hobbies são a leitura, música, literatura., associadas a cultura. No tempo de faculdade, “fiz amizade” com alguns poetas e escritores: Drummond, Rui Barbosa, Machado de Assis, Fernando Pessoa, em nossa língua portuguesa. Em Latim, li bastante Cícero e textos doutros autores religiosos, Santo Agostinho e São Boaventura, principalmente. Dante, claro, não podia faltar, em italiano. Outros autores estrangeiros, no original, ainda hoje, mais em temas meus de franciscanismo. Relacionado a esse assunto, andei colecionando imagens, estatuetas, estampas de São Fancisco de Assis. Música: a clássica, também com menos possibilidade hoje. No tempo da “Jovem Guarda”, eu era “Jovem Frade”, gostava do Roberto Carlos. Por ocasião de viagens, apreciava comprar postais. Acumulei bom número, depois passei adiante, ao Seminário de Agudos.
Esporte foi sempre meu forte. Como bom brasileiro, bom de bola em futebol, artilheiro marcador e difícil de ser marcado. Basquete, um tônica de minha história. No colégio, aqui em São Paulo, fui tricampeão infantil paulista, invicto. De novo, sem modéstia, sempre cestinha. Ainda hoje acho que desafio os jovens e não faço feio. Pratiquei, igualmente, vôlei, futebol de salão, handebol, exercícios de barra e, pasmem, remo – no tempo de sócio do Corinthians e do Tietê navegável!

Site Franciscanos - Quantos anos o Sr. trabalhou na formação?
Frei Agostinho - “Formação”, para nós, é a preparação devida para candidatos à vida religiosa ou sacerdotal, em colégios próprios, os seminários. Encarregados são os professores, religiosos ou leigos, e os específicos, orientadores e diretores. Eu, diria, tive a dita de trabalhar 10 anos no Seminário Franciscano de Santo Antônio, na cidade de Agudos, cerca de 25 km de Bauru, SP, 330 km da Capital. Fui professor de latim, português, inglês, ensino religioso, depois orientador educacional e diretor. Participava das aulas, estudo orientado, liturgia, recreios, torneios e jogos dos seminaristas, e fui, por 6 anos, diretor do teatro. Hoje, orgulho-me em dizer que uns 50 frades e 7 bispos franciscanos no Brasil foram meus alunos. Torço, também, por novas e boas vocações para este nosso Brasil e para enviar nossos voluntários em missão a outras nações.

Site Franciscanos - O que o Sr. diz sobre vocações aos jovens?
Frei Agostinho - Não obstante certa onda hodierna de secularismo, alienação de muitos jovens, embalo de drogas, sente-se outra onda na busca do transcendental. E em concreto? Aprimoram-se grupos de jovens que se engajam nas comunidades, seriedade em relação a estudos, mesmo à noite, após jornada dura de trabalho. Vale, pois, a pena reencantar a vida. Julgo que, nesses ambientes, vocação não estará fora de moda. Dependará do dom de Deus e do (protagonismo juvenil) – como realçou o Papa Bento XVI no encontro de maio com os jovens em São Paulo.

Site Franciscanos - Como um jovem pode seguir o seu exemplo para ser franciscano?
Frei Agostinho - Assusta-me um pouco o “seguir meu exemplo”. Nosso educador Paulo Freire, no seu estilo bem original, usa a expressão “corporificação das palavras pelo “exemplo”. Não é o só dizer e parecer, mas ser. Julgo que posso mostrar um caminho. Digo, então: 1º) Meu querido jovem, seja apaixonado pelo sonho e utopia, a denúncia da realidade falha e o anúncio de um mundo melhor;
2º) Seja autêntico, transparente para com todos, amigo, sem exclusão - como o próprio Jesus Mestre indicava e exigia;
3º) Reserve “um picadinho” do dia para uma interiorização, um encontro no silêncio consigo mesmo, e transforme esse encontro numa comunhão com o Cristo Amigo, com o Deus da Sabedoria e Bondade, e peça discernimento e coragem para abrir-se a novos e belos horizontes, numa doação de vida como profeta da esperança, para a construção de um mundo de solidariedade, justiça e paz.

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