Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 02/09/2010
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Entrevista
Frei Edrian Josué Pasini

Por Moacir Beggo

Desde 1994 como editor da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus, Frei Edrian Josué Pasini fala nesta entrevista do trabalho especializado que tem para produzir este calendário. Fonte de evangelização e cultura, Frei Edrian lembra que o público da Folhinha continua se renovando e, mesmo com as facilidades das tecnologias de ponta, ela vai continuar tendo seu espaço, assim como poderá ganhar novos leitores pela versão on line. Segundo Frei Edrian, a linguagem simples e acessível a todas as pessoas garante esta preferência. “A Folhinha tem a preocupação de ressaltar o ‘novo’ sem negar o ‘antigo’, enfocando mais o essencial do que o polêmico, franciscanamente (com simplicidade), buscando cativar, mais do que combater”, observa o editor. Frei Edrian, que também é artista plástico, ingressou na Ordem dos Frades Menores pela Província Franciscana da Imaculada Conceição em 1985. Fez a profissão solene em São Paulo, em 90, quando trabalhou até 91 no Pró-Vocações Franciscanas. Em 92, mudou-se para Petrópolis, onde começou o curso de Teologia. Ainda durante os estudos, fora convidado a trabalhar na Folhinha em 94 e continua até hoje. Frei Edrian também é o responsável pela edição do Almanaque Santo Antônio, pela Editora Vozes, onde coordena o departamento sazonal, ou seja, a organização de produtos anuais (Agendinha, Diário, Meditações para o dia-a-dia, Guia do dizimista, calendários de Planejamento).

Conheça um pouco mais sobre este ícone da família cristã brasileira através da entrevista com Frei Edrian!

Site Franciscanos - O que é a Folhinha do Sagrado Coração de Jesus?
Frei Edrian Pasini -
A Folhinha do Sagrado Coração de Jesus é um dos mais tradicionais calendários do Brasil. Composta por uma estampa com a imagem do Sagrado Coração de Jesus e a frase “Coração de Jesus, abençoai este lar!”, traz um bloco com 768 páginas (denominadas de “pagelas”), que são destacadas diariamente durante o ano.

Franciscanos - Desde que ano ela vem sendo publicada?
Frei Edrian –
Ela é produzida pela Editora Vozes desde 1940, sem interrupção. Neste ano, estamos na 68ª edição.

Franciscanos – Há quanto tempo trabalha na edição da Folhinha?
Frei Edrian –
Trabalho na Folhinha desde 1994. A partir do momento que Frei Márcio Aurélio Costa, meu antecessor, adoeceu e teve de se tratar em São Paulo, fui chamado para ser estagiário e logo depois, em maio daquele ano, Frei João Bosco, que hoje é bispo, chegou para auxiliar-me neste trabalho. No final daquele ano, fui efetivado na Editora.

Franciscanos – Como foi este começo?
Frei Edrian –
No começo penei muito. Minha experiência se limitava a leitor da Folhinha. Desde pequeno, minha mãe destacava as pagelas – às vezes ela deixava a gente destacar -, lia as mensagens, pensamentos e piadas. Achava muito interessante. Quando assumi esta função, cheguei a errar, a me equivocar, mas com o passar do tempo consegui aprender com meus erros. É um chavão, mas aconteceu comigo. Aos poucos, fui acumulando conhecimento suficiente para organizá-la e editá-la com segurança.

Franciscanos – Trata-se de um trabalho minucioso e que requer muita atenção, não?
Frei Edrian –
Sim, porque mescla a liturgia, que de três em três anos muda em A, B e C, além de ter o clico ferial que muda de um ano para outro. O calendário litúrgico sofre variações de acordo com as marcações das principais festas móveis: Páscoa, Ascensão do Senhor, Pentecostes, Corpus Christi. Temos as datas comemorativas que são fixas, mas também temos as móveis. O calendário também muda de acordo com o calendário gregoriano permanente composto de 12 calendários pré-estabelecidos. Assim, há muitas mudanças no calendário. É preciso ter uma atenção muito grande porque você lida com muitas datas e detalhes. Além de minucioso, é um trabalho que exige paciência, atenção e um certo perfeccionismo. Não se pode errar. A Folhinha é referência para muitas pessoas e meios de comunicação.

Franciscanos – Como é feita a edição deste “bloco”?
Frei Edrian –
Após o término desta parte, que eu chamo de básico da Folhinha - a liturgia diária, o pensamento bíblico, o pensamento de algum autor que a gente seleciona, a fase da lua, isto é, a parte frontal da Folhinha –, a gente faz uma pauta por áreas, temas e, a partir deles, escolhe os autores que vão redigir textos para o “lado b”, o verso da pagela que traz comentários bíblicos, abordagens na área de psicologia, espiritualidade, saúde, pastoral da família, educação, vocacional etc.

Franciscanos - Quem mais participa da elaboração da Folhinha?
Frei Edrian -
A Folhinha conta com autores convidados em sua elaboração. Cada um pode tratar de determinado assunto em sua área de conhecimento. São autores da própria editora ou outros que oferecem sua pesquisa para o conhecimento dos milhares de leitores da Folhinha. Além dos autores, a Folhinha também conta com a participação do leitor com artigos próprios ou selecionados. Isso ocorre da seguinte forma: ao encaminhá-los para a redação, o leitor autoriza a publicação a título de colaboração. O material é analisado e, em caso de aprovação, será arquivado para ser utilizado em futuras publicações. O colaborador saberá que sua colaboração foi utilizada quando receber uma correspondência avisando de sua participação e receber gratuitamente um exemplar da Folhinha.

Franciscanos - Como é escolhida a estampa?
Frei Edrian –
A gente faz uma pré-seleção e leva para a comissão da Editora que seleciona capas, composta por oito pessoas. É feita, então, uma seleção para definir duas estampas, que são levadas aos funcionários da editora para uma votação que vai escolher a estampa final. Com a escolha nas mãos, essa estampa será trabalhada por um designer.

Franciscanos - Qual a linguagem utilizada na Folhinha? Todos podem ler?
Frei Edrian -
A linguagem usada na Folhinha é simples e direta. Tem a preocupação de ressaltar o “novo” sem negar o “antigo”, enfocando mais o essencial do que o polêmico, com simplicidade busca cativar mais do que combater. Por isso dá uma vontade de folhear e ler tudo de uma vez só. Mas, o prazer maior é justamente de se conter e lê-las a conta-gota, dia após dia.

Franciscanos – O seu conteúdo é sempre o mesmo a cada ano?
Frei Edrian -
As páginas da Folhinha, uma para cada dia do ano, trazem todo tipo de informações, desde as fases da lua, explicações sobre datas comemorativas, mensagens, reflexões, cuidados com a saúde, piadas, passatempos, curiosidades, pensamentos bíblicos e de diversos escritores, a liturgia para a missa diária, santos de cada dia, orações, dicas diversas, receitas culinárias. A cada ano, a Folhinha vem com temas diferentes e diversificados.

Franciscanos - Qual é sua tiragem atual? Qual foi a sua maior tiragem?
Frei Edrian -
A Folhinha do Sagrado Coração de Jesus chega a publicar hoje cerca de 600 mil exemplares. Mas nas famílias, quantas pessoas lêem as suas pagelas? Não raro, as pessoas deixam as pagelas nas mesas e outras pessoas lêem. Muitas levam para seus trabalhos, escolas e passam adiante. Suas pagelas são reproduzidas em tamanho grande, em paróquias, universidades – a gente tem notícia de que a própria Universidade São Francisco faz isso -, e é lida em programas radiofônicos. Exemplo disso é a Rádio Globo AM, do Rio, que cita as datas comemorativas a partir da Folhinha do Sagrado. Sua tiragem máxima ocorreu em 1982, com exatos 1.260.705 exemplares.

Franciscanos – Com quanto tempo de antecedência você começa a preparar a Folhinha?
Frei Edrian –
Começo no final de junho e vou com a redação até final de novembro. Aí, o texto original segue para a diagramação no mês de dezembro. Passa pela revisão técnica. Volta para mim em janeiro para fazer a revisão e fevereiro segue para a gráfica. A partir daí, começa-se a impressão que vai até junho, com o primeiro lote impresso. Por exemplo, a partir de junho deste ano, inicio a preparação da Folhinha de 2009, quando ela completará 70 anos de existência.

Franciscanos – Você também faz o Almanaque Santo Antônio. O que o diferencia de um calendário como a Folhinha?
Frei Edrian –
A diferença começa pelo formato. A Folhinha é um bloco com páginas que podem ser destacadas, diariamente. O Almanaque é um livro, em que seus textos tem uma abordagem maior ou mais livre. Já na Folhinha, a gente limita: o autor tem de fazer o texto com a média de 750 caracteres com a contagem de espaços entre as palavras. A Folhinha é dirigida para um público mais religioso, enquanto o Almanaque é mais cultural. A gente põe, sim, textos religiosos, mas ele “abraça” um público que a gente chama assim “de almanaque”. Como costumo dizer nos lançamentos, o Almanaque Santo Antônio é um anuário que contém 224 páginas, com conhecimentos que favorecem a formação cultural, religiosa e humana, servindo especialmente para famílias, professores, estudantes e todas as pessoas que apreciam uma literatura leve e repleta de informações úteis para o dia-a-dia.

Franciscanos – Quando o Almanaque Santo Antônio foi criado?
Frei Edrian –
O Almanaque da Vozes tem trinta anos. Os primeiros organizadores foram Frei Almir Ribeiro Guimarães e o funcionário Francisco de Assis Pereira. Em 1978, eles fizeram a primeira edição.

Franciscanos - Há algum fato da história da Folhinha que pode ser realçado desde o tempo em que vem sendo publicada?
Frei Edrian -
Um fato marcante ocorreu no início da década de 90. Em visita à sede da Editora Vozes, o cacique xavante Aniceto, da reserva indígena de Sangradouro (MT), “pediu que lhe mostrassem a máquina Pavema onde a Folhinha é impressa. Os freis contam que o cacique tocou a máquina, cheirou e ficou algum tempo em silêncio, como se fosse uma reverência. De repente, virou para os anfitriões (frades e funcionários) e disparou: ‘Eu não podia voltar à minha tribo sem ver essa máquina. Porque mais importante que o brilho da coroa do imperador, que está no Museu Imperial, é essa máquina, O brilho da coroa eu não posso levar para a minha tribo, mas essa máquina produz a Folhinha que está pendurada na minha oca” (Contado por Frei Márcio Aurélio Costa em entrevista ao Jornal do Brasil, 27/08/1992: O ‘best-seller’ das paróquias). Uma homenagem à Folhinha, em forma de poesia, foi escrita pela grande poeta Adélia Prado e colocada numa das páginas iniciais da Folhinha de 1995.
A morte do escritor/ não se quer resolver dentro de mim./ Mas não tenho gosto na infelicidade/ e por isso busco meu caminho/ como um verme sabe do seu, dentro da terra./ Muitas coisas me valem quando Deus fica estranho/ e do que é mínimo, às vezes,/ vem o desejado consolo./ Informativo Popular Coração de Jesus/ é o nome de um calendário de parede./ ABENÇOAI ESTE LAR está escrito nele./ O coração sangra na estampa,/ mas o rosto é doce, próprio a enternecer/ as mulheres da cozinha, feito eu./ Toquem mal o piano, vou me deliciar/ - nada é mesmo perfeito -,/ uma gota de mel desce em minha garganta./ No dia 8 de janeiro está escrito na folhinha:/ A FÉ GUIOU OS MAGOS - LUA NOVA AMANHÃ./ Lua nova, que nome mais bonito pra um consolo.(Poesias Reunidas, S.. Paulo, Editora Siciliano, 1991)
Outra poeta, a Cora Coralina, também escreveu um poema em homenagem à Folhinha e está naquela que foi sua casa, hoje museu, lá em Goiás Velho. Não conheço pessoalmente, mas sempre se fala neste fato.

Franciscanos - Qual a influência da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus?
Frei Edrian -
Sua influência é algo impressionante. A Folhinha imprime os números dos dias de domingo em vermelho, mas em 1999 foram impressos em tinta preta. Naquele ano, um padre missionário xaveriano, que trabalhava com índios Kayapó, em São Félix do Xingu (PA), e usava a Folhinha em seus trabalhos, escreveu reclamando desta mudança, pois na língua indígena, os domingos eram identificados pela cor vermelha da Folhinha. Os índios Kayapó chamam o domingo de “pi ôk kamrêk”, que em sua língua significa “papel vermelho”. Em 2000, a Folhinha voltou a trazer impressos os domingos e feriados na cor vermelha. Sua influência chega aos boletins, jornais e até em novelas. A última novela das 7, “Cobras e Lagartos”, expunha a Folhinha na casa da atriz Eliane Giardini, que fazia o papel de uma católica fervorosa, moralista e carola. O seriado “A Diarista” mostrou a Folhinha em close no primeiro capítulo. Nos capítulos seguintes, usaram-na como parte do cenário. É interessante ver que ela chega tanto aos meios urbanos como aos meios rurais. Temos notícias que lá nos seringais da Amazônia as pessoas lêem a Folhinha. O teólogo Leonardo Boff conta isso no livro do centenário da Vozes: “Andando pelos fins dos anos 70 pelas selvas amazônicas do Acre, visitando comunidades de base dos seringueiros, cheguei, certa feita, numa colocação (casa de seringueiros) ao entardecer, no coração da floresta. Depois das rezas, dos comentários bíblicos, dos cânticos e das conversas, disse que vinha de Petrópolis. Aí, o líder das comunidades daquela região afastou-se e desapareceu para dentro do quarto escuro. Voltou com um pacote envolto em plástico. Era a Folhinha do Sagrado Coração de Jesus que ele guardava no plástico para preservá-la da umidade da floresta. E disse-me: ‘Dia após dia leio a pagela, com seus santos, suas lições, suas luas e receitas; e guardo todas as pagelas já passadas para lê-las juntos quando nos reunimos; aqui é uma fonte de sabedoria; e o Sr. vem de Petrópolis onde se edita essa preciosidade e ainda escreve nela; estou feliz de cumprimentá-lo e abraçá-lo’”.

Franciscanos - Quem são os leitores, da Folhinha?
Frei Edrian -
Estão entre os leitores donas de casa, professores e jovens estudantes, idosos e pessoas de meia idade, pessoas que moram em áreas rurais e grandes centros urbanos, devotos do Sagrado Coração de Jesus, trabalhadores e gente simples que encontra na fé cristã o alento e a força de viver. Há também leitores fora do Brasil. Através de cartas percebemos que brasileiros residentes no exterior, em países como Portugal, Itália, França, Japão, Estados Unidos e em países da América Latina também têm o costume de ler e até de participar do Concurso Bíblico promovido pela Folhinha e elaborado por Frei Ludovico Garmus, professor na área bíblica no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis.
Não se pode deixar de lembrar o fato de que muitas vezes os textos da Folhinha são reproduzidos pela mídia escrita e falada. Isso aumenta o número de leitores e ouvintes.

Franciscanos – No tempo da internet, a Folhinha pode desaparecer?
Frei Edrian –
Olha, temos um público fiel e percebemos que ele se renova. Um exemplo: temos o Concurso Bíblico e recebemos cartas de muitos jovens, que são leitores da Folhinha. Isso vem de geração em geração. Os avós passam para os pais, que passam para os filhos, que passam para os netos. A Folhinha, como o livro, é um objeto tátil. Você tem ele a todo momento. Já com o computador é difícil. Tudo bem, hoje tem os portáteis. Mas até ligar e conectar, demora. A Folhinha você pode destacar e levar a pagela para qualquer ambiente. Muitos professores a utilizam em sala de aula. Aonde os padres não chegam, a Folhinha está lá como um instrumento de evangelização, formação e educação. Ela tem um público grande, tanto na cidade quanto no campo. Acho difícil ela acabar. Entretanto, ela também se modernizou em sua apresentação e acesso. Para os leitores internautas, além da Folhinha de parede e da versão como calendário de mesa, existe a possibilidade de se ler a Folhinha pela internet. No site da Editora Vozes – www.vozes.com.br – pode-se acessar a Folhinha digitalizada. Ela é disponibilizada a todo leitor.

Franciscanos – O calendário de mesa existe há quanto tempo?
Frei Edrian –
A Folhinha é impressa na versão-mesa desde 1996, trazendo um espaço para anotações. Quem não a quer pregada na parede, pode usar a versão para mesa. Sua tiragem é bem menor e fica em torno de 6 mil.

Franciscanos – Além do site da Vozes, quais são os canais por onde o leitor pode ter a Folhinha do Sagrado Coração de Jesus?
Frei Edrian –
O leitor pode encontrá-la nas livrarias da Editora, nas livrarias católicas, nas paróquias e comunidades. Pode também encomendá-la através do telefone da Vozes (24) 2233-9042 ou 2233-9029, pelo e-mail vendas@vozes.com.br ou ainda pelo site da Loja Franciscanos – lojafranciscanos.com.br

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