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Exposição: Frei Veloso e a tipografia do arco do cego Abertura dia 24/9, sábado, a partir das 11h.
Em cartaz até o dia 15/11
Pinacoteca do Estado:
Praça da Luz, 2
Tel.: (11) 3324-1000
Funcionamento:
de terça a domingo, das 10h às 18h
Ingresso: R$6 | R$3 (meia). Grátis aos sábados |
A Pinacoteca do Estado de São Paulo apresenta Frei Veloso e a tipografia do Arco do Cego, que celebra a obra de Frei José Mariano da Conceição Veloso (1741-1811), no ano do bicentenário de sua morte, em 14 de julho.
Entre as obras a serem expostas estão gravuras e livros impressos originalmente na Casa Impressora do Arco do Cego, pertencentes ao acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. O inventário completo das obras do Arco do Cego no acervo Mindlin é composto de 70 livros, que se complementam com mais 30 obras impressas em outras oficinas, de autoria de Frei Veloso, ou sob sua supervisão.
Na exposição, o acervo bibliográfico será complementado por instrumentos utilizados nas expedições botânicas do final do século XIX, tais como herbários e prensas, além de pranchas de cobre e matrizes das gravuras impressas nas obras. Essas pranchas são parte do acervo da Biblioteca Nacional e vieram ao Brasil juntamente com a família real, em 1808.
O objetivo é proporcionar aos visitantes um amplo conhecimento dos ambientes onde os estudos eram desenvolvidos, e os gabinetes que abrigavam as coleções de animais, plantas, conchas, minerais e tudo o que estivesse relacionado à História Natural.
Missionário, naturalista e editor, Frei Veloso fundou a Casa Impressora do Arco do Cego em Lisboa, 1799, como parte do projeto português de investigação e divulgação do conhecimento sobre a vida e a natureza no Brasil. Nos seus pouco mais de dois anos de funcionamento, o Arco do Cego produziu obras de grande importância científica, que hoje se revestem de inestimável valor histórico - entre tratados de história natural, obras filosóficas traduzidas de diversas línguas, e trabalhos voltados para a arte da ilustração, do desenho e da pintura.
A iniciativa de divulgar ao público a obra de frei Veloso junto à Casa Impressora do Arco do Cego justifica-se pela imensa importância desse legado para o desenvolvimento e a difusão das ciências na transição do século XVIII para o XIX em Portugal e, especialmente, no Brasil. A raridade das obras impressas e o interesse artístico que hoje despertam somam-se à sua extrema relevância histórica e científica. A celebração dedicada a um naturalista brasileiro pouco conhecido do público geral, por fim, reveste essa iniciativa de importância para o resgate da memória brasileira.
FREI JOSÉ MARIANO DA CONCEIÇÃO VELLOZO (1741 - 1811)
Pai da Botânica Brasileira
Entre os naturalistas brasileiros que se empenharam no estudo de nossa flora, homenageamos Frei José Mariano da Conceição Veloso, que ocupa um lugar de destaque pela sua obra monumental intitulada Flora Fluminensis, terminada em 1790.
Frei Veloso nasceu em 1741, na então Província de Minas Gerais, na freguesia de Santo Antônio da Vila de São José, Bispado de Mariana.
Bem jovem ainda sentiu-se atraído ao estudo das ciências naturais, principalmente uma forte predileção pela botânica. Mais do que qualquer outro tipo de leitura gostava Frei Veloso do livro da natureza, fazendo muitas vezes, com seus companheiros, excursões botânicas, entranhando-se nos bosques a procura de flores, a fim de pesquisar-lhes os nomes e notar-lhes as diferenças morfológicas. Apesar de nunca ter tido mestre, conseguiu em pouco tempo aprender muito sobre as principais plantas do lugar em que nasceu.
Frei Veloso nasceu na Vila de São José, atual cidade de Tiradentes/MG, em 14 de outubro de 1742, em uma residência ainda desconhecida. Era filho de José Vellozo da Câmara e Rita de Jesus Xavier. Foi batizado “José Veloso Xavier”, na Matriz de Santo Antônio dessa vila. Sua mãe era irmã de Antônia da Encarnação Xavier, mãe de Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes. É provável que os primos tenham passado alguns anos juntos quando Joaquim José ficou órfão e esteve na companhia de sua tia Rita.
Aos 20 anos, o futuro frei deixou a Vila de São José e foi para o Convento de São Boaventura, onde se tornou franciscano. O espaço também era conhecido como Convento de Macacu, edificado ainda no século XVII e situado no interior fluminense, no arraial Porto das Caixas, atualmente integrando o município de Itaboraí. Fez seus estudos de filosofia e teologia no Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro.
Foi professor de geometria, retórica e história natural. Das ciências que lecionou, nenhuma lhe agradava tanto como a história natural, sendo nomeado professor em janeiro de 1786.
Naturalista por vocação, transformou sua cela num gabinete de estudos.
No ano de 1779 veio governar o Brasil, na qualidade de vice-rei, um português distinto, chamado Luiz de Vasconcellos e Souza. Tendo notícias da predileção e do raro talento de Frei Vellozo pelas ciências naturais, principalmente pela botânica, pediu ao então provincial Frei José dos Anjos Passos para que Frei Vellozo fizesse excursões em toda a Capitania do Rio de Janeiro e reunisse o resultado de suas pesquisas numa obra conjunta.
Surge então a fase mais importante da vida do ilustre frade naturalista.
Durante oito anos consecutivos vemos o incansável pesquisador subir as serras mais altas, descer aos mais profundos vales, e emaranhar-se nos vastos e inextricáveis bosques. Percorreu as matas e praias do Rio de Janeiro em todas as direções, subiu a serra de Paranapiacaba e Parati, visitou as quinze ilhas do Rio Paraíba do Sul, conseguiu levar a cabo suas investigações, reunindo o fruto de suas pesquisas num trabalho magnífico de imenso valor científico, por ele intitulado Flora Fluminensis.
Nas suas excursões científicas, Frei Vellozo era acompanhado por seu secretário-escrevente Frei Anastácio de Santa Inêz, e por Frei Francisco Solano, hábil pintor e desenhista.
A obra gigantesca, trazendo as descrições e figuras de 1.640 vegetais brasileiros, incluindo também inúmeras indicações ecológicas, representa um esforço notável para aquela época, pois foi terminada em 1790.
Infelizmente só 35 anos mais tarde, ou 14 anos após a morte de Frei Vellozo, é que se deu início à sua publicação, isto é, depois de viagens e publicações de outros estudiosos, que continham muitos gêneros e espécies de plantas descobertas por Frei Vellozo.
Consta a obra de Frei Vellozo de onze volumes em fólio, com suas estampas originais executadas a tinta, juntamente com dois volumes manuscritos do texto.
Depois de terminada a obra, seu autor foi apresentá-la à Corte de Lisboa. A obra provocou a admiração de todos.
Em 1809, Frei Vellozo retorna ao Brasil, trazendo consigo os originais dos manuscritos e das estampas da Flora Fluminense. A partida de Lisboa foi motivada pela marcha progressiva do exército francês, na Península Ibérica. Dom João VI veio refugiar-se na Terra de Santa Cruz, e Frei Vellozo seguiu os passos do seu benfeitor, recolhendo-se no Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, onde veio a falecer a 13 de junho de 1811, sem ter tido a satisfação de ver publicada a sua grande obra.
Todos os manuscritos e impressos pertencentes ao espólio de Frei Vellozo foram oferecidos ao Príncipe Regente pelo então Vigário Provincial dos Franciscanos do Rio de Janeiro. A oferta foi aceita, segundo consta no volume III do "Tombo Geral da Província" (manuscrito), à página 208.
Os livros e manuscritos de Frei Vellozo deram entrada na Real Biblioteca em 13 de novembro de 1811. Entre eles se achavam todos os originais da Flora Fluminense.
Muito tempo se passou e nada mais se soube da importante obra de Frei Vellozo. Os manuscritos da Flora Fluminense, que por muitos anos se julgavam perdidos, foram descobertos em 1825 na Biblioteca Imperial pelo então bibliotecário Frei Antônio de Arrabida.
Em carta solene enviada a Dom Pedro I, Frei Antônio de Arrabida descreve a emoção que sentiu ao encontrar os manuscritos da Flora Fluminense e solicita ao Imperador a publicação do texto aqui no Brasil, oferecendo-se para as devidas correções de impressão. Foram enviados a Paris os desenhos para serem ali litograficamente estampados, pois não havia ainda no Brasil técnicas adequadas a esse tipo de trabalho.
Reconhecendo a importância da publicação da obra de Frei Vellozo, o Imperador, após uma semana do recebimento da carta de Frei Antônio de Arrabida, autorizou a imediata publicação.
Em 1825, efetuou-se na Tipografia Nacional do Rio de Janeiro a impressão quase total da Flora Fluminense. O volume, que hoje é uma raridade bibliográfica, abrange 352 páginas e versa sobre 309 gêneros.
A impressão das 1.640 estampas, começada em 1827 em Paris, levou quatro anos e quatro meses para ser terminada.
Quando os últimos fascículos já estavam em fase de impressão, ocorreu a expulsão de Dom Pedro I, em 1831. O novo governo deu ordem para suspender a impressão, recusando-se a pagar o resto da encomenda. Não obstante, a impressão foi terminada, e no processo judicial subseqüente o tribunal francês deu ganho de causa ao impressor.
No livro Fitografia ou Botânica Brasileira de Melo Morais (1881), consta um capítulo sobre a História da Flora Fluminense, que se refere ao triste destino que tiveram os exemplares dos 11 volumes das estampas. Diz ele: "Acabada a obra, consta-me que se mandaram para o Rio de Janeiro 500 exemplares; ficando em Paris 1.500, os quais, não sendo reclamados, foram entregues não sei a quem, e dos quais salvaram-se algumas coleções; e por fim, se reconhecendo que essas estampas não eram mais procuradas, foram vendidas ou dadas ao chapeleiro que fornecia barretinas (chapéu) para o exército francês, o qual forrou com as estampas as barretinas que estava fazendo para os soldados do exército. Os 500 exemplares que vieram para o Rio de Janeiro foram parar no saguão da Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça (em frente ao passeio público), onde permaneceram apodrecendo, pela umidade; fazendo-se presente de alguns exemplares, a uma ou outra pessoa que pedia". E mais adiante diz o mesmo autor: "No dia 14 de janeiro de 1861, a Tipografia Nacional anunciou a venda em leilão de 2.950 arrobas de impressos, indo entre eles alguns exemplares da Flora Fluminense". E termina dizendo: "É digno de reparo, e contrista o coração dizer-se, que no Brasil se vende como papel velho, o produto da inteligência e da arte, adquirido com tantas fadigas e trabalhos, com o qual o Estado gastou muito dinheiro, para com ele fazer-se papel de embrulho"!
Terminando, cumpre dizer que a Flora Fluminense, cuja história, em parte, foi uma verdadeira tragédia, representa uma obra monumental, que não apenas suscita interesse histórico, mas tem também alto valor científico. Frei Vellozo foi um dos grandes pioneiros da botânica brasileira. Seu nome figura sempre com brilho ao lado dos maiores botânicos que o Brasil possui.
Elisabete Barbero Bonfim
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