Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 24/05/2012
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Como ser cristão hoje, seguindo
os passos de Frei Bruno

Por Frei David R. Santos, OFM

Estamos no século XXI e deparamo-nos com muitos desafios e contradições que exigem dos cristãos uma atuação mais crítica, consciente e eficaz. Frei Bruno antecipou-nos e, com suas atitudes, ensinou-nos a como ser cristão neste século. Esse ensinamento ele transmitiu-nos já em 1958! Frei Bruno percebeu que a exploração da mão-de-obra remunerada, com baixos salários, iria gerar muita exclusão. Antecipando-se, ele agiu como deveriam agir todos os bons cristãos: organizou os pobres para se fortalecerem fazendo vencer a justiça de Deus na relação entre patrões e empregados. Um exemplo disso foi a corajosa postura de Frei Bruno frente à exploração das empregadas domésticas. Não pensou duas vezes: organizou a ASSOCIAÇÃO DAS EMPREGADAS DOMÉSTICAS de Joaçaba, SC. É bom lembrar que isto aconteceu em 1958, quando nem se imaginava ainda surgir no Brasil a TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, que despertou e fez multiplicar associações de todos os tipos de excluídos, a partir da ação e da reflexão dos cristãos católicos. Neste aspecto evangelizador, ele é apresentado como um modelo de cristão para os nossos dias.

Frei Bruno teve naquele tempo, quando circulavam poucos textos com leituras criticas da sociedade da época, uma brilhante atuação. Os textos com leituras críticas da exploração do homem pelo homem e da organização dos sistemas políticos e sociais de hoje estão amplamente à disposição dos cristãos. O desafio dos cristãos no mundo é hoje muito maior do que no tempo de Frei Bruno, exigindo cristãos hábeis. O sistema de alienação hoje é muito forte. Dentro de quase todas as instituições, principalmente das empresas, a postura de omissão e de acomodação dos cristãos é preocupante. Os cristãos facilmente se submetem, ficam omissos para se garantirem no emprego, fechando os olhos às injustiças. Por isso, dar testemunho cristão hoje supõe muita fé, maturidade e visão ampla.

Há uma campanha de lavagem cerebral para manipular as mentes e conseguir que todos se convençam de que tudo está bem, que não há alternativa e que são muito felizes por estarem empregados. A mídia, as instituições e o ambiente global da sociedade: tudo serve para desencorajar qualquer tentativa de atuação mais corajosa. Dessa forma, somente personalidades fortes, com convicção muito madura, poderão doar seu tempo à organização do pensamento crítico e na formação de associações de inspirações cristãs, corajosas e conscientes dos desafios do século XXI. A maioria dos cristãos, por terem recebido uma fraca formação cristã na catequese e nas missas, ficará calada. A pressão psicológica em favor da omissão é forte. Na prática e de fato, a maioria cede e perde sua própria convicção e não faz investimentos espirituais em si que gerem a força da esperança. Assim, recorremos ao nosso Frei Bruno; que ele inspire e ajude seus devotos a mudarem de atitude! Além de buscarmos por milagres para resolver problemas pessoais, devemos também dirigir nossas orações e pedidos, para a solução dos problemas sociais.

Hoje em dia, existem milhares de associações, sindicatos e organizações que dizem representar os mais pobres. No entanto, as mesmas estão entregues às mãos de acomodados e omissos, que não respiram o mesmo sonho por justiça social que animou Frei Bruno a constituir uma das primeiras Associações de Empregadas Domésticas do Brasil. Muitos desses “Presidentes” de Associações são católicos. No entanto, nos perguntamos: são católicos conscientes ou de formação ingênua? Nessas Associações há necessidade de atuação de pessoas que se alimentem do idealismo, de doação de suas próprias vidas em prol de projetos concretos, transformadores. Não podem se deixar levar pela corrupção que assola grande parte da sociedade, das Associações, dos Sindicatos e principalmente dos funcionários públicos. O que é mais preocupante, do maior ao menor, segundo o nível hierárquico, com poucas exceções. O episódio dos “cartões corporativos” “deixando a nu” muitas pessoas “tidas como honestas”, inclusive muitos gestores de Universidades Públicas, os forjadores do Brasil de amanhã, deixa-nos atordoados. Tudo isso faz-nos clamar fortemente a Frei Bruno que interceda junto a Deus por nós e que ilumine todos os Agentes de Pastoral de todos os níveis, dando-nos luzes frente aos desafios da Evangelização no século XXI.

Há necessidade de que os católicos se manifestem como os servidores do Reino mais convictos, mais dedicados e mais honestos. Grande parte deles quer ter uma postura mais comprometida? Fomos contagiados por um estranho comodismo, quase imperdoável. Poderemos ser o sal da terra, a luz que, em todos os ambientes da sociedade, atrai os olhares e constrói o bem. Queremos essa espinhosa missão? Queremos atender aos apelos de Paulo quando na segunda Carta a Timóteo,1,8 conclama-nos: “sofre comigo pelo Evangelho...”? Ou quando Jesus, em Mateus 17,7 toca nos discípulos e diz “levantai-vos e não tenhais medo”?

Sem mística, sem fé e sem convicção é impossível agir como cristão no mundo. Rahner já dizia que no século XXI a Igreja seria mística ou não seria Igreja. Acreditamos que corremos o risco de sermos apenas um amontoado de pessoas que repetem fórmulas, “fregueses de sacramentos”, sem compromisso com a realidade de Deus que reflete no mundo. A formação paroquial tradicional não basta. Por sinal, grande parte dos que vão ao culto são justamente as pessoas que vivem em um mundo paralelo ao de Deus, não querem muito compromisso. Vão só cumprir “sua obrigação”. Quem exige esse tipo de obrigação? Deus? Todos os Profetas e Evangelistas afirmam que o Culto que Deus quer é a prática do Direito e da Justiça. Quem pratica o Direito e a Justiça, este sim, pode Celebrar o culto com a consciência tranqüila porque sente que está com o dever cumprido.

Que a nossa intercessão junto a Deus pelo Bem-Aventurado Frei Bruno faça-nos constituir centenas de associações, a exemplo da Associação das Empregadas Domésticas, todas a partir das angústias do povo dos dias de hoje, para tornar verdade a força de Deus em nós.

E-mail: freidavid@franciscanos.org.br

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