Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
São Paulo, 11/02/2012
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Mercado em Malange,
um dos locais da Missão

A "África nos espera" não significa esperar o momento propício em que teremos "sobras" para repartir e enviar, mas significa que chegou para nós a hora do sacrifício, ou seja: deixar compromissos no Brasil, reduzir o número das fraternidades em território da Província, diminuir o número de irmãos nas respectivas fraternidades. Esta nova realidade exige de cada um, conversão, no sentido de maior desinstalação e doação.

A África pode ser comparada a um homem que de Jerusalém descia a Jericó: caiu nas mãos de ladrões que o roubaram, espancaram e abandonaram quase morto. A África é um continente onde inúmeros seres humanos, homens e mulheres, criança e jovens, vivem como se estivessem à beira do caminho, doentes, feridos, inválidos, marginalizados e abandonados. Precisam urgentemente do Bom Samaritano que venha em seu auxílio. Os filhos e filhas da África necessitam de uma presença compreensiva e de uma solicitude pastoral. Necessitam recuperar suas energias para poder pô-las a serviço do bem-comum" (João Paulo 2º - Exortação Apostólica. 41).

Nos anos 80 e 90, o cenário não poderia ser mais desolador e mais fiel à exortação do Papa João Paulo 2º, que comparou a África a um homem espancado, ferido, à espera do Bom Samaritano. A Ordem Franciscana atendeu ao apelo do Papa e a Província da Imaculada Conceição do Brasil atendeu ao apelo da Ordem e enviou, em 1990, os seus primeiros missionários: Frei Plínio Gande da Silva, Frei Pedro Caron e Frei José Zanchet entraram em Katepa (Malange) em setembro de 1990. Em janeiro de 1991 se juntou a eles Frei Juvenal Sansão; depois Frei Lotário Neumann e Frei Evaldo, em março de 1991; e, por último, Frei Odorico Decker.

Para Frei Plínio, ser missionário na África foi a realização de um sonho. “Desde pequeno via os missionários verbitas e redendoristas e dizia que um dia seria missionário”, lembra o irmão leigo, ressalvando, contudo, que não imaginava a guerra civil nas proporções da angolana. “Pensava que era uma guerra isolada, mas não foi bem assim. Ficamos dois anos isolados do mundo em Kibala (93-95), desde a invasão de nossa casa, quando chegaram metralhando tudo. Nesta época, achei que não viveria”, recorda o frade. “Em Angola, eu fiz uma experiência muito grande de Deus, diariamente”, completa Frei Plínio, que ficou lá durante oito anos.

Com Frei Valdir Nunes Ribeiro não foi diferente. Ele traz as marcas no corpo de sua passagem por Angola: em 98, sofreu um atentado e foi baleado por um grupo de quatro militares. O tiro atingiu o glúteo maior direito, mas a bala foi sair no abdômen, um pouco abaixo do umbigo, perfurando quatro vezes o instestino delgado. Das 20 até 6 horas sofreu hemorragia, mas reagiu bem à cirurgia e voltou às atividades da Missão. O único frade a falecer na missão devido ao paludismo foi Frei Lotário, em 4 de janeiro de 93.

Período pós-guerra
Em 2006 - 16 anos depois -, foi a vez do vigário provincial, Frei Vitório Mazzuco Fº,  conhecer a realidade de Angola no pós-guerra. “Ali, uma longa e lenta guerra civil destruiu, dispersou, matou, mutilou, desalojou, perseguiu um povo. Vi tanta coisa pelo chão, mas uma coisa a guerra não pôde derrubar: a beleza da raça daquele povo, sua esperança, sua fé. Um povo luzente e carente que acredita num futuro. Vi o país como um grande hospital, onde cada detalhe vai convalescendo em seu leito de dor e sonhos desta longa agonia pós-guerra civil”,  observa Frei Vitório.

A Missão de Angola foi elevada à condição de Fundação, com o nome de Imaculada Mãe de Deus, no dia 26 de maio de 1998. Hoje, a Fundação tem três fraternidades: São Francisco de Assis, a casa-mãe que fica em Palanca, e onde nasceu a Paróquia de São Lucas (2000); e a Porciúncula, que fica em Viana (pós-Noviciado), as duas em Luanda, na capital angolana. Em Malange – a 430 quilômetros da capital -, funciona o Aspirantado (aberto em 96) e o Postulantado (aberto em 97), no bairro de Katepa. Mas neste território da Missão, de 600 quilômetros para o Sul, há cerca de 600 aldeias.

Depois de 16 anos, a Missão colheu os primeiros frutos com os professos simples e estudantes de Filosofia Frei João Major Serrote e Frei Afonso Kachekele Quissongo. Em julho de 2006, o irmão leigo Frei Alexandre Magno pediu para ser ordenado diácono e se tornou o primeiro da Missão. Para ajudar neste trabalho pastoral, foi ordenado sacerdote em janeiro de 2007.

Do Projeto Missionário da Província faz parte a integração com a 2ª Ordem das Irmãs Clarissas e Ordem Franciscana Secular (OFS), além das irmãs franciscanas de outras congregações.

(Fonte: "A África nos chama - Dez Anos de Presença Franciscana", de Frei Atílio Abati)

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