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Projeto Nossos miúdos |
Os meninos "feitiçeiros" em Angola
Em Angola, como em outros países do continente africano, a feitiçaria assume dimensões desumanas que a Igreja não pode ignorar na sua missão e que as autoridades locais não deveriam camuflar, como muitas vezes acontece.
Ainda hoje, esta prática é utilizada em Angola, pelo pretenso adivinho que assim promete libertar o seu inventado paciente do inventado feitiço ( kindoki). Pobres são as crianças que em tais mãos têm a triste sorte de cair!
A vantagem que outras crendices têm sobre a crença no kindoki ( feitiço de pessoas, não de coisas) é que não leva os seus crentes a matar à sexta-feira nem queimar vivo alguém no dia treze, como se chega a fazer ainda hoje, às pessoas que são acusadas de ter feitiço ( kindoki).
A gravidade do problema reside nas modalidades em que a feitiçaria aqui se reveste e nas consequências trágicas que chegam a causar, tais como famílias divididas, crianças e mulheres rejeitadas pelos seus familiares, inocentes assassinados e queimados vivos.
Em Angola, segundo informações policiais, são desta maneira assassinadas pelo menos três pessoas por dia e mais de mil por ano. Isso se verifica na feitiçaria chamada expiatória, a qual identifica um inocente como causador do mal e este torna-se a vítima da família que logo o quer aniquilar e eliminar, fazendo-o das formas mais macabras e impensáveis. Só matando o inocente que foi identificado pelo feiticeiro expiatório, a família julga ter-se livrado do feitiço.
A agravar esta realidade, nota-se com frequência o absentismo da autoridade competente, mesmo judicial, que vê nesta problemática uma questão cultural, não pertencente ao seu foro. No entanto, talvez isto não passe de uma alienação de
quem também acredita no feitiço e teme ser atingido por ele, como represália vingativa, se fizer atuar a justiça.
Contudo há sinais de esperança, pois já se encontram pessoas na cadeia e a prestar contas com a justiça, por terem assassinados os “inocentes meninos feiticeiros”, muitas das vezes, os seus próprios filhos. (Joana Pais de Sousa, Licenciada em Relações Internacionais e Mestra em Estudos Africanos)
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Por Moacir Beggo
De férias no Brasil, o mineiro Frei Márcio de Araújo Terra seguirá neste domingo (23/08) para Assis, na Itália, onde participará de uma experiência religiosa durante um mês com outros frades e leigos franciscanos. Antes de viajar, em visita à sede da Província, em São Paulo, falou sobre seus dez anos de vida missionária na Fundação Imaculada Mãe de Deus (FIMDA), em Angola, o que o torna o missionário mais antigo em terras africanas.
Frei Márcio é o responsável pelo Projeto Nossos Miúdos, que acolhe meninos de rua na Capital, Luanda, sendo a maioria vítima da guerra de mais de 30 anos que destruiu o país. Para este franciscano, que ingressou na Ordem dos Frades Menores no dia 20 de janeiro de 1971, viveu dois momentos históricos nesta missão: conheceu o país angolano destruído, no final da guerra, e hoje como um canteiro de obras. Mais do que construir estradas, pontes e hospitais, o maior desafio da Missão Franciscana e da Igreja local é reconstruir o homem angolano.
É nessa perspectiva que Frei Márcio trabalha no Projeto Nossos Miúdos, que hoje além de acolher os filhos da guerra, dá especial atenção aos filhos considerados pelas famílias como "feiticeiros" (veja box abaixo).
Frei Márcio nasceu em Alterosas (MG), no dia 9 de fevereiro de 1949 e foi ordenado sacerdote no dia 18 de dezembro de 1976.
Acompanhe:
Site Franciscanos: Como foi a sua chegada à Missão? Como era e como está hoje?
Frei Márcio: Iniciei o trabalho na Missão em 1999. Dez anos, portanto. No momento, sou o mais velho de casa. Tenho, então, toda uma experiência, uma caminhada naquele país. Pude presenciar e viver mudanças profundas nestes dez anos, porque em 1999 ainda havia uma situação de guerra e, agora, vivemos uma outra realidade bem diferente, num contexto de paz, de reconstrução nacional. No momento que cheguei, fiz a experiência da guerra, com toda a sua crueldade, sobretudo em Malange. Lá, passei alguns dias e pude, sobretudo, sentir o terror de estar ameaçado pelas duas frentes da guerra (exército da Unita e governo). Agora, o cenário é bem diferente. Há muita esperança.
Site Franciscanos: A guerra não permitiu que a Missão se estruturasse?
Frei Márcio: Na verdade, os confrades que estavam em outra região do país viveram mais intensamente essa questão dos conflitos militares, ao contrário de nós, que estávamos em Luanda. As províncias de Malange e Kibala, onde temos duas fraternidades em Angola, essas viveram mais de perto o conflito militar. Luanda, por ser a capital, estava bem protegida. Todo o exército estava ali para defender o presidente, com isso a população também se sentia mais segura. Por conta disso, houve uma grande migração em Luanda. Para se ter uma idéia, no tempo do império, a capital tinha 200 ou 300 mil habitantes. Hoje, tem 4 milhões. Olha o "crescimento" que teve, ou seja, foi uma desestruturação total da cidade. Imagine se a cidade tinha água para 200 mil habitantes, energia para 30 mil, o que aconteceu quando, de repente, se viu com 4 milhões? Como arrumar tanta água, sobretudo numa situação de guerra, em que as forças estão sempre boicotando essas fontes de vida, como água e energia. Então, tínhamos uma situação totalmente caótica.
Site Franciscanos: Como iniciar um trabalho no meio desta situação? Por onde começar?
Frei Márcio: Dá um desespero muito grande. De um lado, as necessidades do povo e do outro a incapacidade de resolver tantos problemas. Senti muito isso em Malange. Lá existia o PAM - Programa de Alimentação Mundial -, mas que era insuficiente para dar de comer a todo o povo. Aí tínhamos que escolher quem alimentar e quem morrer. Era terrível isso... Doía muito. Se atendia os idosos e as crianças, tinha de deixar os jovens sem alimentação. Essa faixa intermediária ficava desassistida. Era muito cruel! Todo mundo tem fome; não apenas os idosos. Claro, as crianças mexem mais com a sensibilidade, mas não são só eles que tinham necessidades básicas.
Site Franciscanos: Qual foi o seu trabalho na sua chegada?
Frei Márcio: Inicialmente, não tínhamos paróquia e a nossa fraternidade não estava bem estruturada. Ajudávamos e colaborávamos com outras atividades da Igreja de Angola, em algumas iniciativas sociais. Ou seja, fazíamos uma prestação de serviço, muito importante também. Eu iniciei o trabalho pastoral no "Roque Santeiro", que é o maior mercado a céu aberto da África, com os meninos de rua que ficavam ali. Esse trabalho era desenvolvido por uma paróquia dos salesianos, que têm como carisma trabalhar com a juventude. Fui convidado e aceitei trabalhar neste mercado, que é um mundo - milhões de dólares correm ali por dia - e que tem uma origem bem significativa. Está localizado à beira-mar, perto do porto. Então, na época do comunismo, quando tudo era controlado, racionalizado - claro que sempre há corrupção -, havia muitos desvios de mercadorias que eram vendidas neste mercado. Atualmente, há outros interesses. Já são criadas lojas oficiais, supermercados e até shopping. Há dois anos foi construído em Luanda o primeiro shopping. E por brasileiros!
Site Franciscanos: Como esse trabalho depois se tornou o projeto Nossos Miúdos?
Frei Márcio: Os salesianos tinham como projeto uma escola e uma casa de atendimento aos meninos de rua. Durante um tempo, caminhei com eles, ajudando nesta estruturação. Fazíamos encontros semanais com essas crianças que viviam no mercado. Muitas crianças vieram das outras províncias fugindo da guerra. O curioso é que chegavam em vôos militares, que permitiam que elas entrassem nesses vôos para evitar que ficassem na frente dos canhões e fossem eliminadas. Mas em Luanda, abriam as portas dos aviões e diziam: "se vira...". Conclusão: Luanda tinha uma população de rua imensa, sobretudo constituída por crianças e adolescentes. Era a esse grupo que se dava atenção. Depois de um tempo, iniciei um trabalho próprio no nosso bairro Palanca, na periferia de Luanda. Esse bairro também virou Paróquia e tínhamos uma área de assistência espiritual, onde foram criadas as condições para estruturar o projeto.
Site Franciscanos: Como se desenvolveu e está este projeto?
Frei Márcio: Inicialmente era só voltado para os meninos de rua, porque nas situações de guerra a população de rua era imensa. Demos a nossa contribuição modesta, enquanto franciscanos poderíamos dar naquela hora. Além de ser uma casa de acolhimento, é também de recolhimento.
Site Franciscanos: Que ano era?
Frei Márcio: Mais ou menos em 2000. Já temos uma caminhada boa. Só que, com a nova realidade em Luanda, mudou também o perfil de atendimento no projeto. Hoje, não temos só crianças de rua, mas três tipos de atendimentos: os meninos de rua continuam sendo nossa prioridade, mas atendemos crianças acusadas de feitiçaria, que é um fenômeno terrível em Luanda.
Site Franciscanos: Fale mais sobre essa crença em Angola?
Frei Márcio: Isso é um dado cultural difícil para nós enterdermos. Só porque as crianças sonham com alguém e contam para os pais, ela é enfeitiçada. Eles crêem que os mortos estão atormentando aquela criança e vai matar alguém. Se a criança continua a ter esses sonhos, comportamentos até normais na fase infantil, a família se desfaz dela, porque se ficar no seio da família, corre-se risco de morte. Então, eles a eliminam antes. Das 23 crianças que estão conosco em tempo integral, muitas crianças são suspeitas de feitiçaria que não podem voltar para casa. A criança de rua, que teve um conflito familiar, consegue-se fazer a reintegração, mas as crianças acusadas de feitiçaria, nunca se conseguirá. Você recebe uma criança dessa, vai ficar um rapaz, um homem. Eu vou fazer o quê? Algumas instituições se recusam receber essas crianças - não por medo do feitiço, porque têm esclarecimentos -, mas por ver pela frente um desafio muito grande. E são os que mais precisam. Então, em nossa casa, além dessas crianças, temos aquelas também que vêm de pobreza extrema. Alguns, se não tirar do meio familiar, não terão futuro.
Site Franciscanos: Essas crianças ficam vulneráveis à violência, especialmente do tráfico?
Frei Márcio: O tráfico não é uma realidade como nas grandes cidades do Brasil, mas o problema da droga está aparecendo com muita força.
Site Franciscanos: Como é que se desenvolve esse projeto?
Frei Márcio: O projeto tem esse lado bonito de ser auto-sustentável. Nós conseguimos um apoio para comprar maquinários e montar uma pequena padaria. É desse trabalho que sustentamos a casa. Os meninos têm essa iniciação profissional - esse objetivo do projeto -, mas no bairro há outras oportunidades de profissionalização para aqueles que não se sentem identificados com esse tipo de trabalho. Mas o que estão na casa e gostam ficam conosco na padaria.
Site Franciscanos: Esses meninos, especialmente os que atingem a maioridade, são inseridos no mercado de trabalho?
Frei Márcio: Sobretudo esses que são acusados de feitiçaria. Desde o começo, orientamos e encaminhamos para que eles organizem a sua vida por si mesmos, porque sabem que não vão poder contar com suas famílias. Da mesma forma os que fugiram da província e não têm nenhum laço familiar, ou não consegue reatar esse laço. Uma criança que subiu num avião desses durante a guerra e veio parar em Luanda, não sabe mais onde está a mãe, o pai. Muitas vezes, nem os nomes deles... Temos oferecido também, num primeiro momento, quartos para eles poderem viver, sem depender do aluguel. Já facilita poder continuar os estudos e depois mais tarde sair de lá e ter a sua vida independente.
Site Franciscanos: É muito importante a ajuda do Brasil?
Frei Márcio: Nós dependemos de todo esse apoio do Brasil para poder levar todas as obras que temos lá. O projeto já tem essa autonomia, mas no primeiro momento não tinha. Além disso, temos outras iniciativas que queremos realizar e precisamos desse apoio.
Site Franciscanos: Que outros projetos a FIMDA tem?
Frei Márcio: O principal é a evangelização. É a reconstrução do homem. Esta também é uma proposta da Igreja de Angola e particularmente da Arquidiocese de Luanda. O governo vai construir estradas, hospitais, escolas e nós vamos reconstruir o homem. E é a tarefa mais difícil. Reconstruir ponte, com o diamante, não é tão difícil assim, mas reconstruir a alma do ser humano, dilacerada durante 35 anos - contando a guerra civil e a guerra pós-independência -,é muito desafiador. Um jovem de 35 anos, que tem toda a sua força de trabalho, nasceu na guerra, cresceu e foi educado nela. Ele praticamente só conhece a linguagem da violência. Falar de fraternidade, solidariedade soa estranho para ele. Pode até ser que bata no coração dele: "é isso que eu quero, mas não foi isso que vivi ou experimentei durante toda a minha vida"! A religião tem um papel muito importante neste momento, porque dependendo do jeito que se encaminha, orienta, o efeito pode mudar para melhor ou pior. A Universal está lá, com tudo que é demônio também. Para eles que vêm desses sofrimentos, tantos demônios só reforçam esses problemas.
Site Franciscanos: A visita do Papa ajudou?
Frei Márcio: Foi um momento muito forte. Em termos sociais e políticos, não foi o que esperávamos. Mas em termos eclesiais, de avivar a fé, movimentar multidões, foi muito forte.
Site Franciscanos: Que perspectivas tem em relação à Assembléia, principalmente para a sua área social?
Frei Márcio: Temos um projeto de evangelização, que vai contemplar a Palavra, mas também as ações. Mas esse projeto está sendo alinhavado ainda. Ele não vai ser aprovado nesta Assembléia. Só depois do Capítulo da Província, quando então teremos o nosso Capítulo, é que vai se definir melhor a ação evangelizadora. Mas temos esperança. Temos um grupo muito bom e em sintonia na missão.
Site Franciscanos: Qual o futuro da Missão?
Frei Márcio: Tenho muita esperança com essa equipe. Faltam mais recursos humanos e que impedem de abrirmos novas frentes de trabalho. A Missão vai completar 20 anos em 2010 e tem três frades angolanos. Temos ainda que contar muito com o apoio da Província.
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