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No final de semana, de 19 e 20 de março, estive em Lubango, para um seminário sobre ecologia, com a Família Franciscana daquela cidade. O seminário tinha por objetivos: colocar em pauta na Família Franciscana o tema da ecologia; sensibilizar sobre a problemática ambiental de atual; refletir sobre o Carisma franciscano da fraternidade universal; e propor pistas de ação de cuidado com o ambiente.
Depois de Luanda, Lubango é a cidade com maior presença franciscana. Esse foi um dos motivos para organizar ali este seminário. Nesta cidade existem oito entidades franciscanas, cada uma com uma fraternidade: a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, a Ordem de Santa Clara (Clarissas), a Ordem Franciscana Secular, a Congregação das Religiosas Escravas da Santíssima Eucaristia e da Mãe de Deus, a Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, a Congregação das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, as Irmãs Franciscanas da Visitação de Maria, a Congregação das Irmãs Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado. Em Lubango existem cinco noviciados (não apenas franciscanos), sendo dois masculinos e três femininos, ao todos, no momento, são 63 entre noviços e noviças. É uma opção devido ao clima da cidade, mas também para promover intercâmbio na formação. A Fundação Imaculada Mãe de Deus tem um terreno, com o objetivo de no futuro construir o noviciado.
O seminário desenvolveu a seguinte programação: conceituação de ecologia e a problemática atual, trabalhando principalmente a questão do efeito estufa e as mudanças climáticas; São Francisco de Assis e a espiritualidade ecológica; teologia bíblica da criação, e um rápido levantamento da realidade ambiental de Angola e os desafios que isso implica para a Família Franciscana. Devido à temática do aquecimento global e das mudanças climáticas, servi-me também de subsídios da Campanha da Fraternidade, do Brasil. A participação contou com a presença de todas as fraternidades e de quase que a totalidade das pessoas. A motivação foi tal que as Irmãs Clarissas fizeram questão de participar, oferecendo o mosteiro para a realização do encontro, participando inclusive do almoço comunitário de encerramento. Na avaliação foi solicitado a continuidade do estudo, com outras oportunidades de encontro. Um pequeno “inconveniente” foi que, no sábado de manhã, havia profissão religiosa de final de noviciado das Irmãs Coracionistas, que ocasionou a ausência de algumas pessoas.
A viagem foi um capitulo à parte. Para dois dias de encontro, mais um de passeio, foram quatro dias de viagem, entre ida e volta. Lubango dista de Luanda 850 Km. De Malanje, não havia passagem pelo caminho que pretendia fazer, devido às chuvas e ao longo trecho de estrada de chão. O caminho que fizemos deu 1.120 km (fizemos, porque foi junto o Frei André Gurzinski, de Kibala), com pernoite em Benguela, na casa das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria. O trajeto mais interessante é o de Benguela a Lubango (360 km). Benguela é litoral, beira de praia, e Lubango está a mais de 1.800 metros de altitude. A subida é constante. Nos primeiros 120 km, a estrada é encantadora, acabada, bem sinalizada, curvas aerodinâmicas, bem projetadas, subidas constantes, mas suaves. Depois vem um trecho com asfalto ruim, mal acabado, sem sinalização, e, em seguida, a tortura: um longo trecho de chão, em alguns lugares pelo leito da estrada, mas grande parte por desvios. Não havia atoleiros, com risco de não passar, mas era impossível fazer mais do que 20 km em uma hora (foi 01h50 para percorrer 36 km). Dizem que a companhia parou de trabalhar porque o governo não paga. Ainda há canteiros de obras e máquinas ao longo da via, mas paradas. Depois vem novamente o asfalto, mas já bem danificado.
Independente da estrada, é interessante observar a paisagem, é claro, com um olhar ecológico. Passa-se por diversos ambientes. No litoral, o clima é árido, a vegetação é de estepe, mas dá uma sensação de deserto (e olha que estamos no período de chuva). À medida que se vai subindo, a paisagem vai mudando, a vegetação vai se transformando, as árvores vão aumentando de tamanho e a mata muda de intensidade. A estepe vai se transformando em savana, com pequenos arbustos e muito capim, muito vulnerável ao fogo. Em seguida vem uma floresta aberta, uma mata meio transparente, as árvores já são maiores, mas não muito grandes, o capim vai diminuindo, mas sempre presente. Por último, a floresta, mais densa e úmida. Ao falar em floresta, é claro, não dá para imaginar uma Amazônia, mas alguns lugares até lembra a mata Atlântica brasileira. Ao longo de todo o trajeto há rebanhos de gado, que representam perigo para o trânsito, mas sempre acompanhados de pastores.
Lubango é uma cidade bonita, com muitas atrações turísticas devido à sua geografia. Chegamos a visitar alguns lugares, mas não deu para apreciar devido à chuva, por isso não vou comentar. Fica para outra ocasião. As impressões mais fortes que ficam foram a mobilização da Família Franciscana, o interesse e a participação, inclusive das irmãs Clarissas, a reação e o impacto de algumas pessoas diante de algumas descobertas da realidade e dos desafios ambientais, a necessidade de voltar e continuar a reflexão, e promover e incentivar alguma iniciativa de mobilização da sociedade local.
Frei Atílio Battistuz
Malanje, 29 de março de 2011. |