Homilia
Pela tua palavra, lançarei as redes
(Lc 5,5)
O Senhor se fez presente entre nós pela Palavra. Ele veio ao nosso encontro na força e suavidade da palavra. Na primeira leitura Ele procura alguém que pudesse enviar; na segunda leitura o enviado torna-se o pai dos crentes; no Evangelho o encontro da Palavra com o pescador: lança a rede, busca águas mais profundas. E na palavra do Senhor nasce a nossa palavra: Pela tua Palavra lançarei a rede.
A Palavra! A palavra que lança, desaloja, faz lançar as redes. A palavra que me lança como uma rede e me enche das dádivas do amor; impulsiona, direciona e me faz trilhar outras veredas, perfazer outros caminhos em busca do abismo do amor d’Aquele que tudo cria, recria deixa ser todo o universo.
A palavra do Senhor! Deus despertador dos que jagem na sonolência da indiferênica, Deus purificador dos corações endurecidos, Deus o procurador de mensageiros, Deus suscitador de profetas, Deus pescrutador dos corações, Deus gerador de Homens novos e livres; Deus amante de seu povo, está sempre buscando até encontrar alguém que esteja bem disposto, livre, para enviar.
A Palavra translúcida, dizia Isaías, que deixa ver: eu vi o Senhor. A palavra indicativa, narradora, pintora; Palavra mensagem: faz ver. E quando na palavra vemos o Amor que não é amado os gonzos de nossa existência tremem, tremem os fundamentos de nosso existir. Palavra que despe toda a nossa pessoa, ilumina a nossa fraqueza, a finitude; aflora a pequenez e a impureza de nosso ser e balbuciamos: Ai de mim sou um homem fraco e de existência breve; Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador; um verme, um servo inútil!
Na inutilidade, no nada, na fraqueza reconhecida e abraçada, a brasa ardente do amor purifica, transforma. E tocado, purificado, revigorado, pela palavra ardente, quente, reverente, qual brasa ardente de amor “Quem enviarei? Quem irá por nós?”, não me retraí, não ressisti, não fugi, mas respondi: Aqui estou! Envia-me. Um aqui estou repetido expresso de modos diversos: batismo, coroinha, seminário, noviciado, diaconato.
Nesta noite diante da nossa Igreja reunida Frei Daniel, tocado pela pelo Espírito que em tudo age, purifica e santifica, respondeu: Aqui estou! Eis-me aqui de quem ouviu a voz do Senhor que diz: quem enviarei? Quem irá por nós? Aqui estou com uma resposta-pedido: Envia-me!
A brasa da palavra-ardente do altar das núpcias de Deus, a ardência do amor verdadeiro, tocou os teus lábios para purificar e transformar a tua pessoa para que nascesse um nova palavra: a tua. O carvão encandescente do amor tocou e purificou o teu ser e tornou-te audaz, livre. Nesse toque sagrado do encontro da purificação do teu coração, agora livre, foste capaz de, na palavra, declarar teu amor: Eis-me aqui, envia-me. Senhor se é teu desejo, se é tua vontade, eis-me aqui. Se sou agradável a teus olhos eis-me aqui. Na minha indignidade, purificado com o fogo de teu Espírito, eis-me aqui e envia-me!
A tua palavra-sim nesta noite diante desta igreja é o transbordamento de teu coração, o desejo da correspondência amorosa. Uma correspondência sem trocas, sem exigências, na gratuidade e liberdade. Por isso, o teu eis-me aqui será livre, incondicionado, em todos os instantes, em todos os momentos em todas as situações. Eis-me aqui repetido todos os dias de tua vida, nas alegrias e esperanças, nas dores e alegrias, nos desânimos e fracassos, nas frustrações e realizações. Eis-me aqui nas perdas, nos danos, no sofrimento, na solidão da cruz.
Eis-me aqui de um esmoler, peregrino, viandante, suplicante, que sempre, somente, livremente, gratuitamente, como o Pobre de Assis, apenas balbucinante disposto e exposto se faz palavra: eis-me aqui... pela tua palavra lançarei a redes!
Um eis-me aqui abraamico. Abraão acreditou na Palavra e tornou-se o pai de todos os que creem. Ele se fez palavra da fé. Ainda em nossos dias ele é a fala para aqueles e aquelas que ouvem a Palavra e põem-se a caminho, sem olhar para trás. Ele, no dizer do Apóstolo-missionário, também te convida hoje e te envia. Não duvides da promessa divina, mas crê no Deus que tem poder para cumprir o que prometeu. Ele cumprirá, pois é fiel em seu amor; Ele deu a sua palavra. Serás também pai de muitos povos. Como homem de fé, de esperança em esperança, não fraquejarás mesmo quando fisicamente te faltarem as forças.
Um homem imitador de Deus, um homem de Deus, gera sempre. Serás capaz de gerar virtudes e filhos mesmo quando pensares que teu coração, à vista de teu físico desvigorado, não mais é capaz de gerar. Se é fecundo sempre quando se confia e espera na palavra do Senhor!
As noites e os dias trabalhados sem resultado aparente são apenas um convite a buscar águas mais profundas, até que já não sejas tu a viver, mas Cristo vivendo em ti. Em Cristo transformado, de Cristo revestido, a tua palavra seja a transparência da palavra que é Jesus. Na busca de águas mais profundas procura não o que é teu, mas o que é de Cristo para que Cristo seja tudo para ti e o percebas em tudo. (Ritual de Ordenação)
Sendo tudo para ti, dirás: na atenção, na tensão de tua palavra, na força, no vigor, no sabor de tua palavra, na confiança, de tua palavra, Senhor lançarei as redes. Na tonância, na ressonância, na sintonia de tua plavra eu lançarei as redes. Sempre iluminado, reforçado, revigorado, confortado, impulsionado pela tua palavra eu lançarei as redes, me deixarei lançar com uma rede.
A tua palavra é tudo para mim! Como viver sem a tua palavra, a palavra do meu amado, a palavra do meu amor, o meu bem querer? Então, Senhor, já não a minha, mas a tua, a tua feita toda minha, na minha a tua, nada de minha que não seja a tua.
Assim, pela palavra dele feita toda tua, seja um padre-discípulo que tenha uma profunda experiência de Deus, configurado com o coração do Bom Pastor, dócil às orientações do Espírito, que se nutre da Palavra de Deus, da Eucaristia e da oração; seja um padre-missionário movido pela caridade pastoral que te leve a cuidar do rebanho a ti confiado e a procurar os mais distanciados pregando a Palavra de Deus, sempre em profunda comunhão com toda a Igreja; seja um padre-servo da vida que esteja atento às necessidades dos mais pobres, comprometido na defesa dos direitos dos mais fracos e promotor da cultura da solidariedade. (DAp 199). Seja um padre cheio de misericórdia, reconciliador e anunciador da paz e do bem. (DAp 198) O amor aos pobres e sofridos será uma fonte espiritual inesgotável e, ao mesmo tempo, será o cuidado para com os pobres que animará e unificará a tua vida e o teu ministério de padre.
Como Daniel seja um padre interpretador dos sonhos do povo, indique a grandeza do Reino de Deus e mostre os pés de barro quando se busca o poder e a riqueza. A minoridade presenteia fecundidade e ousadia ao teu sacerdócio.
E ainda, ao pronunciares a palavra da Palavra: Eis o meu corpo, eis o meu sangue, tomei e comei, tomai e bebei, seja a palavra da transformação, da presencialização, mas, também da tua entrega ao Povo.
Nesta noite somos todos convidados a deixar-mo-nos tomar pela Palavra de Deus. Somos provocados pela palavra a dizermos: eis-me aqui, envia-me. Cada um de nós! especialmente nós sacerdotes, nós Frades Menores. Fomos todos tocados pelo fogo do amor de Deus e porque não brota livremente de nossa boca o Eis-me aqui, envia-me!? Somos convidados a buscarmos águas mais profundas, a buscamos o abismo de amor que nos provoca a sermos como Abraão homens e mulheres da fé. Seguidores do servo inútil, deixe-mo-nos tomar pela provocação de uma vida dada, doada, com gosto de parusia. Deixe-mo-nos tomar pela Palavra que o Pai nos enviou a pessoa de Jesus Cristo e peçamos a graça de sermos anunciadores do Reino.
Querida Comunidade de Rodeio, no sacerdócio de Frei Daniel nos sentimos todos agraciados; sejamos também gratos. Por onde for e onde estiver possa ele sentir que entre as montanhas, numa pequena planície, existe uma Comunidade que o acompanha e o ama.
A Província da Imaculada agradece a Família Dellandreia este irmão que se fez Menor, para ser servidor entre os menores.
Pela tua palavra lançarei a rede!
A tua palavra; a dele na tua, a tua na dele, frei Daniel:
| Palavra |
amada
amante
que chama
clama |
por mim! |
| Palavra |
ave
Fiat |
a mim, em mim! |
| Palavra |
desnuda |
a mim
diante de Ti! |
| Palavra |
espera
pondera
ponte |
de Ti a mim. |
| Palavra |
límpida
grávida |
de Ti! |
| Palavra |
que salta
saltita
crepida |
em mim. |
| Palavra |
terna
materna
mãe |
como Tu! |
| Palavra |
eterna |
a Tua,
eternidade em mim! |
| Palavra |
fogo |
de amor!
ardendo em mim! |
| Palavra |
bendita
suplica |
por Ti. |
| Palavra |
plangente
poente |
saudade de Ti! |
| Palavra |
anúncio
envio |
para o irmão. |
| Palavra |
aberta
oferta |
celebração. |
| Palavra |
norte
suporte
forte
morte |
vida nova que vem de ti
em mim! |
| Palavra |
fonte |
único bem! |
| Palavra |
sorte
consorte |
amor! |
| Palavra |
tom
som |
vibrando em mim;
sinfonia! |
| Palavra |
vazia |
sem Ti! |
| Palavra |
retida
recolhida
vestida |
de Ti! |
| Palavra |
eco |
de Ti em toda criação! |
| Palavra |
confortadora
condutora
sedutora |
TU! |
| Palavra |
confiante
dançante |
em torno a Ti!
|
| Palavra |
silêncio |
novo amanhã! |
TU-PALAVRA, incendeia meu ser!
Amém!
PRIMEIRA LEITURA
Leitura do Livro do Profeta Isaías (Is 6,1-2a. 3-8)
No ano da morte do rei Ozias, vi o Senhor sentado num trono de grande altura; o seu manto estendia-se pelo templo. Havia serafins de pé a seu lado; cada um tinha seis asas. Eles exclamavam uns para os outros: “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; toda a terra está repleta de sua glória”. Ao clamor dessas vozes, começaram a tremer as portas em seus gonzos e o templo encheu-se de fumaça. Disse eu então: “Ai de mim, estou perdido! Sou apenas um homem de lábios impuros, mas eu vi com meus olhos o rei, o Senhor dos exércitos”. Nisto, um dos serafins voou para mim, tendo na mão uma brasa, que retirara do altar com uma tenaz, e tocou minha boca, dizendo: “Assim que isto tocou teus lábios, desapareceu tua culpa, e teu pecado está perdoado”. Ouvi a voz do Senhor que dizia: “Quem enviarei? Quem irá por nós?” Eu respondi: “Aqui estou! Envia-me”.
Palavra do Senhor.
SALMO RESPONSORIAL – Sl 39 (40)
Eu disse: Eis que venho, Senhor,
Com prazer faço a vossa vontade!
- Esperando, esperei no Senhor,
e inclinando-se, ouviu meu clamor.
- Canto novo ele pôs em meus lábios,
um poema em louvor ao Senhor.
- Sacrifício e oblação não quisestes,
Mas abristes, Senhor, meus ouvidos;
Não pedistes ofertas nem vítimas,
Holocaustos por nossos pecados.
- E então eu vos disse: “Eis que venho!”
Sobre mim está escrito no livro:
“Com prazer faço a vossa vontade,
guardo em meu coração vossa lei!”
- Boas-novas de vossa justiça,
Anunciei numa grande assembléia;
Vós sabeis: não fechei os meus lábios!
SEGUNDA LEITURA
Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos (4,18-25)
Irmãos: Abraão, contra toda a humana esperança, firmou-se na esperança e na fé. Assim, tornou-se pai de muitos povos, conforme lhe fora dito: “Assim será a tua posteridade”. Não fraquejou na fé, à vista de seu físico desvigorado pela idade – cerca de cem anos – ou considerando o útero de Sara já incapaz de conceber. Diante da promessa divina, não duvidou por falta de fé, mas revigorou-se na fé e deu glória a Deus, convencido de que Deus tem poder para cumprir o que prometeu. Esta sua atitude de fé lhe foi creditada como justiça. Afirmando que a fé lhe foi creditada como justiça, a Escritura visa não só à pessoa de Abraão, mas também a nós, pois a fé será creditada também para nós que cremos naquele que ressuscitou dos mortos Jesus, nosso Senhor. Ele, Jesus, foi entregue por causa de nossos pecados e foi ressuscitado para nossa justificação.
Palavra do Senhor.
EVANGELHO (Lc 5, 1-11)
Naquele tempo, Jesus estava na margem do lago de Genesaré, e a multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a palavra de Deus. Jesus viu duas barcas paradas na margem do lado. Os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes. Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”. Simão respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”. Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem. Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!” É que o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer. Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Jesus, porém, disse a Simão: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”. Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus.
Palavra da Salvação.