Reflexão de Frei Augusto Koenig, Ministro Provincial, na abertura do Encontro de Revigoramento, que teve início nesta terça-feira, dia 28 de outubro, no Projeto Santa Clara, em Vila Velha, no Espírito Santo:
Oração, contemplação e meditação
Quando se fala em espiritualidade, pode-se criar imagem de prática desencarnada da vida, dela separada, numa dicotomia dualista de alma e corpo, como que um não tendo nada a ver com o outro... Distinguimos hora de oração, hora de trabalho, de esporte, de televisão, ocupações domésticas, apostolado, atividades evangelizadoras, celebrações, viagens, sono... achando que quando fazemos constar no programa da casa a hora de oração, já estamos “quites” com nossas obrigações com Deus. Na verdade, precisamos é criar uma atitude orante diante de Deus, pela prática do exercício da presença de Deus, em todos os nossos atos. São Francisco era um homem espiritual, via nas criaturas sacramentos de Deus, os pobres precisavam ser evangelizados, retirava-se aos ermos para intensificar sua oração com Deus: Meu Deus e meu tudo! Grande e magnífico Deus! Absorvei, Senhor, eu vos suplico! Quem sois vós e quem sou eu? Grande, poderoso e bom Senhor!...
Sua devoção com o Santíssimo sacramento, com as Sagradas Escrituras, com os mistérios da encarnação, morte e ressurreição do Senhor, sua devoção aos santos, sobretudo a Nossa Senhora, seus jejuns e penitência nos evocam a perfeita alegria, que só pode ter sua origem na graça da presença de Deus. A Presença de Deus fez de Francisco outro Cristo transfigurado, no Monte Alverne.
Segue então, a reflexão que proponho como contribuição à nossa vida de oração:
O que é a oração? – A oração é uma atitude interior da criatura humana diante do Criador. Uma sintonia indescritível, em que se estabelece um canal entre o eu e o Tu, no qual a criatura reconhece o Criador como Senhor Absoluto, Deus Todo Poderoso e Trino, perante o qual tributa um ato de fé. Essa atitude é, antes de tudo, um dom que vem do próprio Deus, do Divino Espírito Santo, que capacita a criatura a balbuciar a palavra do Senhor, Abba Pai, Pai nosso...
Qual a essência da oração – É a mesma que sente a criança, ao elevar os olhos para o pai, e sem precisar dizer muitas palavras, ter a certeza de que é compreendida e socorrida por ele, de modo gratuito e generoso, tantas vezes quantas precisar. É a passagem do eu interior para o eu Superior. É estar em família com a Trindade.
Então, a gente reza só quando precisa? – Bem, pelo menos já é um bom começo. O gato também faz assim: vai rodeando, se esfregando pelas pernas da dona com um miado de comiseração, até despertar a atenção sobre si e obter o que deseja; saí se some, e só volta quando precisa de novo. Para com Deus, isso é muito pouco. Orante é a criatura que se coloca na presença contínua de Deus, como Sumo Bem, Todo Bem, como aquele enamorado, que mesmo ocupado com mil coisas da vida não se esquece da bem-amada e sente nesse amor a força para sua luta na vida e lhe dá a razão de existir.
O que é atitude orante? – A expressão já diz muito. Nossa vida é fragmentada pelos embates de cada dia. Somos tentados a dar mais importância aos afazeres, que nos tomam quase por inteiros, e se entendermos a oração apenas como momentos dentro de um horário, ainda não aprendemos a orar. Aqui vale o episódio bíblico de Marta e Maria, que na compreensão do evangelista Maria foi a privilegiada, porque estava diante do Mestre, enquanto Marta apenas fazia comida, esquecendo-se que o trabalho poderia ser transformado em oração, pois era também para o Senhor. Não obstante, não podemos substituir o “trabalho orante” pela oração diante do Senhor sob o perigo de cair no ativismo.
A oração de Jesus espelha bem a atitude orante diante do Pai, em todos os momentos. Sobretudo nos momentos difíceis, fortes e dramáticos, dirigia-se ao Pai com confiança: nos quarenta dias antes da Vida Pública (Mt 4); na oração sacerdotal narrada por João Evangelista (Jô 17); no Horto das Oliveiras; ao bendizer o Pai por revelar o Evangelho aos pequeninos; ao pedir por seus discípulos; no alto da cruz... O “espírito de oração” se adquire pelo cultivo de momentos fortes na presença do Senhor. Jesus também se retirava, frequentemente, para estar a sós com o Pai. Os discípulos observavam esse modo de agir e um dia lhe pedem: “Senhor, ensina-nos a rezar!” – Quando orardes dizei: Pai Nosso...”
A oração de São Francisco - No seguimento do Mestre, não poderia ser diferente a atitude de São Francisco, de Santa Clara e de seus discípulos. Configurou-se de tal modo ao Mestre, que no Alverne tomou as formas do crucificado. Quem sois vós e quem sou eu? Vós o Senhor do céu e da terra e eu um vermezinho, vosso ínfimo servo. Grande e magnífico Deus! Meu Deus e meu tudo! (mantra de São Francisco: louvor e gratidão)... O segredo da oração em Francisco era seu amor a Cristo: “Já que a força do amor tinha feito de um irmão das outras criaturas, não nos admiraremos de que a caridade de Cristo tenha feito dele um irmão, ainda maior, daqueles que foram distinguidos pela semelhança com o Criador... Dizia que não havia coisa mais importante que a salvação... Daí seu esforço na oração, sua facilidade na pregação e seu excesso de bons exemplos que dava” (2C, 172).
Na oração você louva, agradece, pede e intercede – É melhor lembrar que temos tanto para agradecer, muito mais do que a pedir. Jesus foi sensível ao agradecimento do leproso curado: não eram 10 os curados? Por que só esse estrangeiro veio agradecer? “Pai, rogo por eles, não por mim...”; se houver 20, se houver 10, se houver 5 tementes a Deus, pouparei a cidade...”. “Enquanto Moisés estava com os braços elevados, seu exército vencia...”
O diálogo de Deus conosco no silêncio – Não serão as muitas palavras que comoverão a Deus. Se na oração nos dirigimos a Deus, no silêncio Deus se dirige a nós. Saber escutar a palavra de Deus é o princípio da Sabedoria. Quem não está acostumado a escutar o Senhor, mesmo quando ele fala, não reconhece sua voz. Eu sou o Bom Pastor, minhas ovelhas conhecem minha voz.
1. Certa ocasião, um prédio pegava fogo. Rolos de fumaça, gritaria do povo, sirene de bombeiros, corre-corre. Ali no segundo andar uma menininha já janela, pula não pula e o povo, com a rede, gritava: pula! Coragem! Ela vacilava... – Um senhor avisado que seu prédio pegava fogo, correu para lá e de longe reconheceu a filhinha na janela e gritou: pula que teu pai segura! – Era a voz do Pai! No pai ela confiava. Atirou-se e foi salva.
2. Quem não está acostumado a ouvir a voz de Deus, prefere a segurança dum cipó à beira do abismo, a ouvir Sua voz. (Estória do homem incréu, que rolou da montanha...)
O que é contemplar? – É olhar... escutar... Comunicar-se sem precisar dizer palavra. Por exemplo, dois namorados, na primeira fase do namoro precisam conversar muito, mostrar suas qualidades, convencer por agumento para conquistar o ente amado; na segunda fase, já não é preciso tanta palavra: basta estar junto, as palavras até atrapalham; depois de casados, com a convivência da vida, basta um olhar para o outro entender. Com Deus, dá-se algo semelhante: sua beleza, manifestada na natureza criada do cosmo universal ou na figura humana inteligente ou no verme que se arrasta, ou sua presença eucarística no sacrário, ou nos sinais dos tempos... Transportam-me ao pensamento de Deus presente e imanente com a graça em meu ser.
Conta-sedo Cura D´Ars, que observava todos os dias um homem no fundo da Igreja. Intrigado, perguntou-lhe certo dia: o que o senhor vem fazer aqui todos os dias? – “Venho ver Ele” – E o que Você diz para Ele? – “Não digo nada, não senhor; eu olho para Ele e Ele olha para mim”.
Só quem sabe orar em particular é capaz de orar bem comunitariamente – A oração comunitária pressupõe a oração pessoal, ora como fundamento, ora como complemento. As duas formas se completam. A dimensão comunitária é rica e ouvida por Deus: “Onde dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles”. “Tudo o que pedirdes a meu Pai, ele vo-lo dará...” , porém, “Quando orardes, entrai em vosso quarto...” Momento forte comunitário: oração eucarística e litúrgica... Momento forte pessoal: é Você quem o sabe.
O que dizer da meditação? – A meditação é como uma viagem da existência ao Ser. Entendendo a existência como vida em contingência, a meditação é o caminho que leva a pessoa para o centro de si mesma para o encontro mais profundo com o Ser divino. Nossa vida é um amadurecimento constante que busca a integração, criando raízes na essência do Ser. O caminho que leva a Deus passa pelo coração, do eu interior para o eu Superior.
A meditação matinal ou vespertina, noturna ou diurna, é um retorno a esse enraizamento, que aumenta o crescimento integrado e espiritual. Normalmente, a sociedade oferece meios para o crescimento físico e material, mas a meditação se ocupa do cultivo e do crescimento espiritual. Meditar é penetrar na presença do Um que é.
É preciso meditar todos os dias? – É difícil assumir essa disciplina. A sociedade moderna exige resultados, a meditação apenas o que diz respeito ao Ser. Ser a pessoa como Você foi criado, no âmago de si próprio, buscando a integração com o Ser divino. O cultivo se entende como o acostumar-se com a prática da meditação de todas as manhãs e de todas as noites. Ouvir a palavra e entrar no estado de simplicidade cada vez maior. Para Aristóteles, a eternidade era definida como “um perpétuo agora”. O poder da meditação está exatamente nisto: em procurarmos o momento presente, sem nos preocuparmos com o passado e o futuro. Deus é “Eu sou”, Deus é amor, Deus é agora.
Como meditar? – Existem muitos métodos. Importa que cada um tenha o seu. Aprender a sentar-se bem, quietos e eretos é muito útil para esse início. Respirar profundamente, diversas vezes. Deixar a mantra ressoar em seu coração e sua mente, enraizando-se suavemente no centro. Deixar ir embora todo pensamento periférico e toda atividade da imaginação, sem tentar reprimi-los. Desligue aos poucos os sentidos: feche os olhos, deixe de escutar não prestando atenção aos ruídos e sons... Deixe que a Palavra o leve para além das palavras, dos pensamentos e imagem, para a presença de Deus. Sua presença nos basta. A meditação não busca recompensa ou benefícios, diz apenas respeito ao nosso destino e significado.
Conclusões: O religioso, a religiosa franciscana têm como meta essencial de sua vida buscar esse Deus, na santificação pessoal e fraterna ao modo de São Francisco ou de Santa Clara. Ainda que estejam ocupados com um montão de projetos pastorais e domésticos, o franciscano é antes de tudo um homem de oração, uma mulher orante. Será a oração que dará sentido e sintonia a todas as atividades de evangelização.
A propósito, ore pelo Capítulo Provincial, pela revisão de vida provincial, pelas novas propostas, pela alegria desse grande encontro, que começa com a convocação da Equipe Preparatória e que terá como tema de fundo a Espiritualidade.
Fraternalmente,
Frei Augusto Koenig, ofm