O Jubileu, recapitulação e síntese da vida franciscana
Por Frei Regis Daher, ofm
A participação de uma celebração jubilar é um momento de experimentar uma graça especial. Os 25 anos da Fraternidade Santa Clara foi um desses momentos, porque
foi possível viver a recapitulação da graça das origens, e na pessoa de alguns irmãos e irmãs, testemunhar o que significa a síntese do carisma. Nessas ocasiões, palavras e gestos adquirem uma nova profundidade, um significado especial, mesmo que sejam de uma história já muito conhecida, por todos aqueles que a viveram numa parcela do tempo.
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| Imagem de Santa Clara |
Fachada do Colégio Santa Clara, no Alto de Pinheiros |
A festa do Jubileu de Prata da Fraternidade Santa Clara, ao reunir num mesmo local e ocasião, personagens de uma bela página da história franciscana, permitiu reviver e celebrar a experiência bíblica da recapitulação. Em muitos momentos da história da salvação, o olhar do presente se volta para o passado e, a partir da fé, se faz uma retrospectiva de tudo o que se viveu e se experimentou, percebendo nos fatos e acontecimentos, dos mais comuns aos mais intensos e dramáticos, a ação de Deus tecendo um pacto de comunhão, de vida e de amor. Não de forma linear, mas entremeado de altos e baixos, de recusas e de adesão, de erros e de acertos, de êxodo e de retorno, de separação e de reconciliação, de Calvário e de Tabor, de cruz e de ressurreição, de morte e de vida. A Bíblia chama esses momentos de Aliança, que pela nossa fragilidade, precisa ser renovada continuamente naquela que é a única, perfeita e ‘eterna aliança’, a de Jesus Cristo, o Filho Deus, que recapitula em si mesmo todas as alianças anteriores. Algumas passagens bíblicas revelam esse olhar de recapitulação da história da salvação: Lc 24, 25-27 (Jesus e os discípulos de Emaús); At 2, 14-42 (o discurso de Pedro em Pentecostes); At 3, 17-26 (discurso de Pedro no pórtico de Salomão); At 8, 27-35 (Felipe e o camareiro etíope); Hb 11, 1-40.12, 1-3 (a fé exemplar dos pais). Da mesma forma, no seu Testamento, São Francisco recapitula toda a ação de Deus em sua vida, identificando, passo a passo, todas as situações de encontro nas quais foi sendo gerada a forma de vida.
No período jubilar maior de 2008-2009, quando a Família Franciscana celebra os 800 anos do carisma de Francisco e de Clara de Assis, a Ordem dos Frades Menores convocou os seus membros a recuperar, reviver e a celebrar “a graça das origens”. Penso que em cada celebração jubilar das fraternidades da OFS, da mesma forma, é possível experimentar essa mesma recapitulação da história própria de cada uma, como novo impulso, a partir da graça das origens, recuperando e vivendo um novo tempo de anúncio, de encarnação do carisma nos tempos atuais (cf. “Andar por outras trilhas”, documento da FFB, Reviver o sonho de Francisco e Clara de Assis no chão da América Latina e do Caribe, 35-36).
Na presença, no gestos, nas palavras de algumas pessoas e nos sinais celebrativos da festa jubilar da Fraternidade Santa Clara, todos nós pudemos testemunhar a recapitulação da graça das origens que se perpetuaram ao longo dos 25 anos. Destaco alguns:
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| Paulo Machado |
Paulo Machado da Costa e Silva
Sua figura, de imediato, faz lembrar os patriarcas bíblicos, pela sua vitalidade aos 92 anos de idade; pela lucidez da visão franciscana da vida ou simplesmente, por tudo aquilo que ele significa para a OFS do Brasil e do mundo. É o que nós, comumente, costumamos nos referir como “ícone” de vida franciscana quando, numa única palavra ou pessoa, vemos sintetizados os valores mais genuínos do carisma e da forma de vida. Sua vida fala por si mesma.
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| Antônio Fortes |
Antônio Fortes Lopes, o “Toninho”
Numa pequena e rápida entrevista, durante o café de acolhida, essa outra figura emblemática, me revelou alguns fatos de sua trajetória, ligados à história da OFS no estado de São Paulo. Um “caipira do interior, de Botucatu”, no dizer dele mesmo, que ingressou na OFS em 1944. Em 1980 veio para São Paulo, quando ainda era o ministro da Fraternidade de Botucatu e, por convite de Frei Alécio Broering, ajudou a fundar a fraternidade na Vila Clementino, juntamente com Giancarlo e Sandra Occhionero, João Antônio Bruno Neto e Sônia Bruno e outros irmãos. Nos anos seguintes, juntamente com Frei César de Oliveira Bastos, OFMCap (+ 2004), na época o Assistente Nacional para a OFS, e com Giancarlo Occhionero, responsável regional pela formação, percorreram o estado São Paulo, atuando no processo de organização, reestruturação, formação e fundação de novas fraternidades, inspirados pela renovação desencadeada pela nova Regra aprovada pelo papa Paulo VI em 1978. Em 1983, deram os primeiros passos para a fundação da Fraternidade Santa Clara, iniciando os/as irmãos/ãs no caminho de Francisco. Se o Dr. Paulo Machado faz lembrar os patriarcas bíblicos, Toninho nos remete ao espírito missionário do Apóstolo Paulo, não pela destreza, profundidade e erudição dos argumentos teológicos, mas pela mesma chama do ardor apostólico e pelo seu amor seráfico contagiante. Toninho traz nos olhos a bondade e a ternura de Francisco de Assis.
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| Rosalvo e Heidy |
Rosalvo Gonçalves Mota
Junto de sua esposa Heidy e de Sandra Occhionero, são os irmãos da primeira hora, os três remanescentes do primeiro grupo de professos da fraternidade. Os depoimentos dos irmãos Paulo Machado, Maria Bernadette e Flávio Trindade acerca do serviço franciscano vivido e prestado pelo Rosalvo, nesses 25 anos, testemunham a integridade de seu caminho. Como vice-ministro geral da OFS ele continua, a exemplo de Francisco, percorrendo outras vias, anunciando e alimentando a chama da vocação franciscana secular. Sua emoção refreada, nas lágrimas quase que proibidas, em seu depoimento no final da celebração, falam daquela intensidade de poder olhar e contemplar a recapitulação da graça das origens. A emoção e as lágrimas contidas falaram o que não disseram as palavras, porque a vida é sumamente maior e mais profunda. No gesto simples, discreto e carinhoso da Heidy nas mãos do esposo, após o término de sua mensagem, revelam que ela esteve ao seu lado na comunhão da mesma vida, vocação e consagração, certamente não sem pouca renúncia, entrega e sacrifícios. Da mesma forma, Sandra Occhionero, com o braço imobilizado na tipóia, junto do esposo Giancarlo, são sinais daquela jovialidade, alegria e vigor franciscanos que, ao contrário dos valores do mundo, crescem sempre mais com o passar dos anos, porque nascem de outra raiz.
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| Frei Anacleto (dir.) e Frei Vitório |
Frei Anacleto Gapski e Frei Vitório Mazzuco Filho
Na pessoa dos dois confrades estava expressa a comunhão de vida e da vocação comum partilhadas na assistência espiritual. Junto de Frei Alberto Beckhäuser, Frei Salésio Hillesheim, Dom Frei Severino Clasen, eles nos fazem recordar a palavra do apóstolo Paulo: “Eu plantei, Apolo regou, mas era Deus que fazia crescer . Assim, aquele que planta não é nada , e aquele que rega também não é nada: só Deus é que conta, pois é ele quem faz crescer . Aquele que planta e aquele que rega são iguais; e cada um vai receber o seu próprio salário, segundo a medida do seu trabalho. Nós trabalhamos juntos na obra de Deus, mas o campo e a construção de Deus são vocês” (1Cor 3, 6-9).
Na sua mensagem durante a missa, Frei Anacleto, brincando, afirmou que Frei Vitório ainda não chegou à quarta parte dos seus 12 anos de convivência com a Fraternidade Santa Clara. Talvez, nesta partilha de vida no carisma comum, os frades sejam, do mesmo modo e na mesma intensidade, eles próprios tão beneficiados na assistência que promovem junto aos irmãos da Terceira Ordem. Sobre esta reciprocidade de vida, o ex-Ministro Geral da OFM, Frei John Vaughn, afirmou sobre os franciscanos seculares:
"Eles nos oferecem, Irmãos Menores, um modelo de zelo, em sentido evangélico, para salvar o mundo. Mostram-nos que precisamos realmente manter-nos fiéis à nossa vocação franciscana. Quanto mais nos comprometermos com os franciscanos seculares, tanto mais nos inseriremos nos interesses que Francisco teve para com o povo em sua situação vital. Estamos lado a lado e reciprocamente nos necessitamos. Mesmo quando os irmãos têm certo sentido da tradição franciscana e também têm o tempo e a possibilidade de chegar a determinadas áreas, também aí necessitamos dos franciscanos seculares para apoiar-nos e completar-nos”.
A CASA DO PÃO
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| Flávio Trindade |
Flávio Trindade, Roberto, Marilena e Lela Campos Rodrigues
No seu também emocionado depoimento, o atual ministro da fraternidade, Flávio Trindade, recapitulou em números, a extensão cronológica dos 25 anos: 300 meses de reuniões. Jubileu é também a visão de conjunto da história vivida. E a forte emoção desses momentos brota exatamente da visão instantânea, num flash, de tudo aquilo que se viveu, se sofreu para permanecer na decisão do primeiro amor. É a experiência da contemplação que unifica a fragmentação da vida, no fio condutor do sentido oculto e total da existência. Foi esta a experiência de Pedro, Tiago e João ao contemplar a transfiguração de Jesus diante deles (Mt 17, 1-9).
Nos diversos depoimentos, durante a missa jubilar, mencionou-se a “Casa do Pão”, o título dado por Frei Severino Clasen, ao lar da família de Roberto, Marilena e Valéria Campos Rodrigues, local onde, semanalmente, a fraternidade se reúne. Roberto, pelo seu estado de saúde, não pode estar presente na celebração. Porém, a sua presença cotidiana na fraternidade é recordação daquela união mais íntima com o Cristo que Francisco tanto desejava: na dor e no amor da Paixão. Sua esposa Marilena, e a filha Lela, suas companheiras no mesmo caminho. Dom Severino, sem perceber o alcance de sua ‘profecia’, sinalizou para esta experiência fundamental do seguimento do Cristo pobre, humilde e crucificado, pois é do trigo moído e triturado que nasce o alimento do pão. Numa outra lógica, Roberto, Marilena e Lela estão realizando o aspecto mais fundamental da vocação franciscana familiar: a Fraternidade não é um local, nem um agrupamento de pessoas. É um estado de vida, um modo de ser e de se relacionar.
A CASA DO VINHO
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| Ir. Teresinha de Jesus Coelho |
Irmã Marilene de Castro e Irmã Teresinha de Jesus Coelho
Na pessoa das duas religiosas, a primeira e a atual assistente religiosa, a expressão feminina do carisma de Francisco e de Clara de Assis. Entre elas, as outras irmãs, que ao longo dos 25 anos, foram companheiras no mesmo caminho: Aparecida Junqueira, Solange, Águeda, Tereza Maria, Maria das Graças e Maria Stefanina (in memorian). Irmã Marilene, atualmente missionária em Teresina, Piauí e Irmã Teresinha, a atual assistente feminina da fraternidade. O Colégio Santa Clara e as Irmãs Franciscanas Missionárias do Coração Imaculado de Maria são o prolongamento da “Casa do Pão”, pois uma vez ao mês, é ali que a Fraternidade se encontra e acontece. Tanto Rosalvo como o ministro Flávio Trindade, destacaram o papel das irmãs ao longo desses 25 anos, como expressão e presença da Segunda Ordem na comunhão plena do carisma franciscano. O que disse Frei John Vaughn sobre a reciprocidade dos frades da Primeira Ordem com os irmãos e irmãs da Ordem Franciscana Secular, sem dúvida alguma, deve-se aplicar à todas as irmãs da Terceira Ordem Regular. Não seria o caso de, a partir de agora, designar o Colégio Santa Clara como a “Casa do vinho”? O texto evangélico da liturgia jubilar foi o da solenidade da Mãe e Padroeira do Brasil, Nossa Senhora da Conceição Aparecida: as bodas de Caná (Jo 2, 1-11). Frei Anacleto Gapski e a ministra regional Maria Bernadette, em suas mensagens, referiram-se à transformação da água em vinho, aplicando o primeiro milagre de Jesus aos valores fundamentais da vida franciscana: o vinho da acolhida e do serviço; o vinho do cuidado e da cortesia; o vinho da solidariedade e das lideranças novas; o vinho da fraternidade e do perdão; o vinho da paz e do bem.
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| Rosalvo Mota |
A síntese do Carisma
Ao destacar a vida de alguns irmãos e irmãs na história da Fraternidade Santa Clara, corre-se o risco, e talvez o equívoco, de interpretá-los como protagonistas maiores do jubileu. Na realidade, há uma outra memória, a cordial, na qual cada pessoa tem um significado essencial, porque é a fraternidade, como tal, que proclama e testemunha a graça de Deus. Cada irmão e cada irmã, na sua singularidade, significa um traço deste rosto, configurando a beleza totalizante do carisma franciscano. É essa síntese mística e espiritual que possibilita nos reconhecer em cada irmão e irmã, como membros de uma única família. Não há estranhos numa fraternidade franciscana!
Um aspecto singular, que pode ter passado para um segundo plano, é o de que esta fraternidade se caracteriza pelo fato de se reunir semanalmente; em geral, quatro (ou cinco) reuniões mensais, nas noites de quinta-feira. Na terceira quinta-feira do mês, a reunião se realiza no Colégio Santa Clara e tem um caráter celebrativo: a celebração da missa, quando o assistente está presente; ou a celebração da Palavra e distribuição da comunhão pelo ministro da Fraternidade, na ausência do assistente. As demais reuniões são dedicadas à formação permanente.
Certamente, a união dessas duas dimensões essenciais – formação e oração –, e a periodicidade semanal das reuniões da fraternidade, sejam as razões que fundamentaram o caminho da perseverança e da fidelidade durante 25 anos. Rosalvo Mota, no seu testemunho, acentuou o aspecto religioso e pedagógico da convivência em fraternidade, vivida de forma tão intensa, exatamente porque é desta forma que se aprende a descobrir a dádiva de Deus: “E o Senhor me deu irmãos!”. Porque, como dizem nossos documentos inspiracionais, “a Fraternidade é dom e tarefa”.
A vida franciscana, em última análise, é essa graça de buscar e de viver a síntese entre Deus e a humanidade, entre o céu e a terra, entre o tempo e a eternidade, entre a ação e a contemplação, entre o divino e o humano; tecida entre tensões, ajustes, crises, sofrimento e renúncia, morte e ressurreição. Essa síntese já foi realizada em Cristo e, em Francisco e Clara de Assis, tornada caminho de seguimento do Cristo pobre, humilde e crucificado. Para nós, ainda será a busca de viver a síntese entre o desafio e o encanto, até sua realização. Porque é encanto, também é capaz de nos conduzir até o jubileu eterno, quando “Cristo será tudo em todos” (Cl 3,11).