Fragmentos do Relatório do Ministro Geral
1ª PARTE - A MISSÃO EVANGELIZADORA
Num Capítulo como o nosso, cujo tema é o da missão/evangelização, creio que seja conveniente começar assinalando sinteticamente o que se entende hoje por missão evangelizadora na mística franciscana.
A missão não é só uma ação, mas também contemplação e paixão. Não é um simples ir a mas um submergir-se em. A missão é algo mais profundo, radical, extenso, vai mais além de uma atividade apostólica, inclusive da mesma missão ad gentes. A missão é também liturgia, profecia, serviço, colaboração, diálogo permanente com Deus e o mundo. Desta visão holística ou global, a missão é chamada a abarcar e harmonizar as diversas facetas da vida.
Entre as principais exigências da missão evangelizadora, Frei José assinala o seguinte:
- Sentir a urgência de evangelizar segundo a própria vocação.
- Avalizar com o testemunho o que se anuncia com a palavra.
- Colocar-se no caminho para ir ao encontro do outro. Isto implica deixar a própria terra e cultura e abrir-se a novas experiências; superar as fronteiras culturais, geográficas e religiosas.
- Ir como menores, é estar dispostos a receber e a dar, a aprender e a ensinar.
- Amar este mundo no qual vivemos. Sem uma simpatia por nosso mundo, não será possível dialogar com os homens e mulheres deste tempo nem tampouco anunciar o Evangelho.
Como Frades Menores, tanto clérigos como leigos, somos partícipes da missão evangelizadora da Igreja. A missão evangelizadora, tanto em seu sentido amplo como específico (missão ad gentes), por isso mesmo, é uma dimensão essencial da identidade ou da razão de ser de nossa Fraternidade. Mais ainda, a missão evangelizadora é a chave e a meta para entender e revitalizar a vida religiosa e franciscana em seus diversos aspectos: a vida de oração, as relações fraternas, a minoridade, pobreza e solidariedade, a formação e estudos, as estruturas e a economia.
A missão evangelizadora infunde confiança no futuro, dá conteúdo a cada gesto, palavra, atividade e obra. Sem a perspectiva da missão, se corre o risco de ficarmos olhando demasiadamente para nós mesmos, de perder nossa relação com o mundo e de renunciar a ser luz e sal da terra (cf. Mt 5, 13s). Não podemos ficar na autocontemplação, esquecendo-nos de que só o que se compartilha nos enriquece e enriquece aos outros. A missão, em suas diferentes acepções, é a que dinamiza e dá sentido a todos os elementos de nossa forma vitae. Se fomos eleitos e chamados é para ser enviados ao mundo. A missão, deste modo, se converte no princípio inspirador, articulador e animador da vida pessoal e comunitária.
A missão evangelizadora, junto com a experiência de Deus e a vida fraterna, é um pilar constitutivo da vida religiosa. De fato, a missão será impactante somente se há uma forte experiência de Deus e uma relação fraterna autêntica. A vida religiosa, com estes três elementos inseparáveis, se transforma, deste modo, em um sinal crível da presença do Reino e da validade e atualidade do Evangelho; transforma-se em Evangeli nuntiandi.
Para os Frades Menores, além dos elementos indicados (experiência de fé, vida fraterna e missão), existe um quarto elemento que também é
essencial: a minoridade. Uma dimensão que orienta e caracteriza as relações com Deus, com os irmãos e com o mundo. Não somos simplesmente uma fraternidade em missão, nem sequer uma fraternidade contemplativa em missão. De acordo com o que disse anteriormente, poderíamos definirmos como: Missionários no mundo, como irmãos e menores, com o coração voltado ao Senhor.
Esta exigência, ser missionário no mundo, é uma missão que em muitos contextos não revela nada fácil hoje em dia. Há situações que podem provocar desânimo, cansaço e frustração, entre outros sentimentos negativos. O frade menor é chamado a superar todas estas situações a partir da profunda convicção de que não está só (cf Mt 28,20) e que o protagonista da missão evangelizadora é Cristo e o Espírito, e não precisamente ele!
Quando falamos de re-fundação, de re-criação e re-vitalização de nossa vida e missão, temos de assumir a necessidade de reavivar nosso espírito missionário e de impregná-lo de audácia e imaginação, para responder às novas exigências da missão evangelizadora. É hora de fazer nosso o discurso programático da missão de Jesus (cf. Lc 4,18-19), de armar nossa tenda e de assumir as alegrias e tristezas de nossos irmãos e irmãs.
Segundo o Ministro Geral, “nossa cultura, que parece ter apostado numa vida light, espera e exige da vida religiosa e franciscana uma alternativa e um testemunho profético. “Se trata de oferecer uma resposta, não de acomodação nem de mediocridade, mas de uma vida renovada e fortalecida no essencial, de tal forma que reproduza a audácia, a criatividade e a santidade de Francisco de Assis (cf. Sdp 2).
2ª PARTE - VIDA FRATERNA EM COMUNIDADE
Em um mundo fragmentado e conflitivo, a fraternidade é um sinal profético enquanto não se fecha nas ações interpessoais de si mesma, mas que se abre a todas as pessoas e povos e à criação inteira, enquanto nela se reconhece e valoriza a igualdade e também a diversidade de cada irmão e da cultura de onde vem. Então, a fraternidade é, também, uma Boa Nova de familiaridade, amizade, esperança, respeito e mútua aceitação.
Segundo Frei José, os frades menores são chamados (convocados) pelo Senhor para viver como irmãos e serem enviados a evangelizar. “Por isso, em uma fraternidade, o princípio vital, unificador e aglutinante é o Espírito do Senhor. Foi por iniciativa de Deus colocar uns ao lado de outros para reconhecer-nos e vivermos como irmãos, na gratuidade, respeito e responsabilidade mútuas. Não somos um simples grupo humano, um clube de amigos ou uma empresa. Somos família unida em Cristo”, disse Frei José.
Segundo o Ministro Geral, na vida fraterna, é importante saber harmonizar a dimensão humana com a dimensão da fé. Por isso, é necessário potencializar valores como: a sinceridade, a confiança recíproca, a alegria, a sensibilidade, a delicadeza, a educação, o sentido do humor, o espírito de participação, a aceitação do outro tal como é, o espírito festivo, o perdão etc.
O Ministro Geral chamou a atenção para os relatórios dos visitadores gerais, onde há elementos preocupantes como o ativismo, o
individualismo, o cansaço e a
resignação, a improvisação e as divisões. “Aspectos que teremos de enfrentá-los e encontrar uma solução adequada à luz de um projeto partilhado de vida e missão”, observou.
Segundo o Ministro Geral, o futuro da Ordem passa pela colaboração interprovincial: “A cultura da solidariedade deve estar a serviço de um futuro comum. Por isso, o momento é de colaboração. Ninguém pode sentir-se auto-suficiente”.
Frei José ainda falou do relacionamento dos Frades Menores com a Família Franciscana e com a Igreja.
Na sua análise, ainda lembrou que nos últimos anos melhorou a compreensão do papel da JPIC (Justiça, Paz e Integridade da Criação) na Ordem. “Está se superando a idéia que ligava estes valores às atividades estritamente sociais e políticas; e que, por isso, era tão somente para uns poucos irmãos. A nova compreensão, em andamento, parte da consideração de que JPIC são valores transversais da espiritualidade cristã e franciscana, e, portanto, são parte da vida e da missão de irmão menor”.
3ª PARTE - EVANGELIZAÇÃO-MISSÃO
Segundo o Ministro Geral, a Igreja nasce e vive para a missão. “A missão evangelizadora terá que responder a dois fenômenos: a) ao desconhecimento de Cristo em uma grande parte da humanidade; e b) ao crescimento do ateísmo prático e teórico. A isto se acrescenta a presença de muita gente batizada mas muito pouco evangelizada, com uma fé frágil e vacilante e indiferente ao evangelho”, observou.
Há necessidade de missionários, segundo seu relatório, para levar o Evangelho onde não conhecem a Cristo, e missionários que promovam uma verdadeira evangelização entre os batizados. “A missão evangelizadora se realiza para dentro da comunidade cristã, para renovar o primeiro amor, e para fora dela: a todos os povos (ad gentes). Estas duas modalidades se completam.
Frei José citou que com as decisões do Capítulo de 2003, a Secretaria Geral das MIssões passou a se chamar Secretaria Geral para a Evangelização. Lembrou que se organizaram dois seminários sobre novas formas de evangelização, com indicações para que a Ordem reencontre a beleza de evangelizar e descubra novos métodos para anunciar o Evangelho ao mundo secularizado. Neste contexto, se
ergueu a Fraternidade Internacional da Palestina.
“Um espaço muito significativo de evangelização continua sendo a paróquia. Como fruto desta atenção, se publicou o subsídio: “Enviados a evangelizar em fraternidade e minoridade nas paróquias”, que oferece os elementos essenciais para elaborar um projeto pastoral paroquial com a mística franciscana”.
Além das formas tradicionais de evangelização, o Ministro Geral destacou as novas formas como o uso dos meios de comunicação como: a televisão, o rádio, a internet, etc; e a pastoral do turismo, “que se realiza tanto em nossas estruturas como nas das dioceses. Presença dos irmãos em zonas marginais e esquecidas; lugares onde, geralmente, se encontram os leprosos, drogados, desempregados, enfermos do vírus HIV/Aids... Também há muitos irmãos que arriscam sua vida com valentia e ousadia evangélicas em situações de violência e extrema pobreza”, acrescentou.
Segundo Frei José, nossa evangelização continua demasiadamente clerical e, por si mesma, deixa muito pouco espaço aos fiéis leigos. “É urgente, portanto, abrir-se a eles, valorizar sua presença e participação e confiar-lhes ministérios e responsabilidades na Igreja. Este princípio é válido também para os irmãos leigos de nossa fraternidade”.
Para o Ministro Geral, é necessário passar de uma pastoral de conservação para uma pastoral missionária. Este novo ímpeto missionário nos ajudará a abandonar uma vida instalada na comodidade.
Frei José pede para unir o Evangelho e a promoção humana. “Entre evangelização e promoção humana existem laços muito fortes (cf. EN). A evangelização, portanto, não deve esquecer as questões que dizem respeito à justiça, à libertação, ao desenvolvimento e à paz do mundo.
O Ministro Geral destacou ainda que a missão ad gentes “é parte do nosso carisma desde seu início. Por isso, neste momento histórico, também estamos chamados a retomá-la, seja para anunciar a Jesus pela primeira vez ou para reforçar algumas presenças onde a fé ainda é frágil. Este é o caminho para implantar tanto a Igreja como a Ordem”.
Ele citou a abertura de novas fundações missionárias, como Miamar e Sudão, e fundações que dependem das Províncias, como Burkina Fasso e Namíbia. Também pediu a melhoria nas relações com os irmãos da China.
Frei Carballo destacou os centros educativos ao serviço da missão evangelizadora. “Embora nossa Ordem não tenha como primeira finalidade a educação, contudo possui uma presença muito significativa neste campo: na atualidade, conta com 794 centros.
Ao abordar o tema “Formação e Estudos”, Frei José disse que dá formação que damos e recebemos depende nosso hoje e nosso amanhã. “Da formação depende também a revitalização da Ordem em todas as suas dimensões. Isto faz com que a formação permanente e inicial se apresentem como uma verdadeira prioridade”.
Ele citou que neste campo foram realizados vários congressos internacionais. “Cresce a consciência da importância da formação para o presente e o futuro da Ordem. Assim, se demonstra o investimento em pessoas e recursos, o conhecimento da RFF e a elaboração da RFF de cada entidade e dos projetos de FP, de FI e de CPV”.
“No entanto, se faz necessário uma avaliação de todo o processo. Como entender, por exemplo, que o ardor e a generosidade iniciais por nossa forma de vida se vá apagando, especialmente, depois da profissão solene, até chegar a uma anemia espiritual, que leva a muitos a abandonar a Ordem ou permanecer nela mas cheios de frus-tração, cansaço e resignação?”
“As respostas são muitas e variadas. Algumas têm a ver com a fragilidade dos jovens, com a busca insaciável das sensações fortes, que os leva a saltar de uma situação para a outra (a cultura do zapping). Outras, também têm a ver com a qualidade da formação que damos”.
Uma formação sólida e de qualidade teria os seguintes pressupostos: Cristo, como a rocha sobre a qual tudo se apóia; a experiência de Deus, baseada na oração pessoal; a vida fraterna, baseada nas relações interpessoais profundas e autênticas; a missão evangelizadora, e o estudo, ao qual se deve reservar um tempo adequado.
O Ministro Geral listou como omissões da formação: a falta de metodologia apropriada; a falta de acompanhamento pessoal; a falta de um adequado acompanhamento dos neoprofessos solenes; a falta de uma visão realista sobre si mesmo e sobre o contexto em que nos movemos.
Segundo o Ministro Geral, a ruptura entre a Formação Permanente e a Formação Inicial é uma das principais causas de abandono da Ordem nos primeiros anos de profissão solene. “Cada entidade, a partir de sua situação concreta, é chamada a elaborar seu Projeto de Formação Permanente, em estreita relação com o Projeto pessoal de vida e com o Projeto fraterno”.
O Ministro Geral disse que com frequência, a Formação Permanente e a Formação Inicial são demasiadas teóricas, esquecendo-se que a formação deve ser prática e tocar os “quatro” centros vitais da pessoa: intelecto, coração, mãos e pés.
Ao falar da vocação inicial, disse que “não existe um ‘delegado vocacional” ou “fraternidades vocacionais” em sentido estrito. “Todos temos de sentirmo-nos comprometidos com este trabalho que é conseqüência de sentirmo-nos felizes por ser o que somos. É necessário crescer na responsabilidade que cada um tem no campo da pastoral vocacional, de modo que possamos dizer aos jovens: venham e vejam! Isto significa reavivar o ardor da primeira entrega, da alegria de seguir o Cristo, a ousadia de propor a forma de vida e a valentia no momento de crer e de voltar a lançar as redes”.
No capítulo dedicado aos estudos, disse que em “um mundo como o nosso não é possível evangelizar sem uma adequada formação intelectual. Nos demonstram os grandes evangelizadores de nossa história: santos e sábidos”.
O Ministro Geral observa que é muito significativa a presença em Universidades (9) e Centros de estudos institucionais de Filosofia e Teologia (40) na Ordem. Destes, 12 estão afiliados e 2 são agregados ao Pontifício Antonianum. Deste modo, iniciou-se um Master em Teologia da Evangelização em Petrópolis, no Brasil. Apesar disso, destacou: “A formação intelectual, no entanto, segue sendo deficiente. A isso se acrescenta o desinteresse pela leitura e a escassa renovação das bibliotecas”.
Para o Ministro Geral, é importante repensar a identidade e a missão acadêmicas dos centros de estudos superiores, tendo em conta as exigências atuais e o caráter franciscano dos mesmos. Deste modo, estão chamados a conhecer, atualizar e transmitir nossa tradição filosófica e teológica, como uma resposta às grandes questões dos homens e mulheres de nosso tempo”.
“É necessário aprofundar uma renovada concepção dos estudos dentro de nossa identidade franciscana, de tal modo que se elimine a concepção de estudo como meio de promoção social ou de autoafirmação individual, e que os irmãos, com boa preparação intelectual, façam seu próprio mundo. O estudo está a serviço das opções fundamentais da vida franciscana”.
CONCLUSÃO - CAMINHOS E PROPOSTAS PARA O FUTURO
Antes, contudo, de apresentar estas propostas, Frei José elencou algumas anotações:
1. A primeira anotação/convicção é óbvia e se poderia formular assim: eu sou o que há de vir. Não há futuro sem mim, porque o futuro está dentro de mim. Todos e cada um dos irmãos somos portadores do futuro. O futuro de nossa Fraternidade construimos hoje. Esta é nossa grande responsabilidade: viver em fidelidade o presente, de tal forma, que o futuro seja apaixonante. Não se pede de nós o êxito, mas o compromisso de fidelidade em cada instante de nossa vida.
2. A segunda é que o futuro depende de todos. Do compromisso por gerar o futuro nada pode ser excluído e nada pode se excluir. Sempre há algo importante para empreender em cada etapa da vida, algo novo para aprender, algo valioso para dar.
3. A terceira é esta: os tempos que vivemos são tempos de busca e de ensaios, nos quais o importante é não dar nada e continuar considerando a vida como uma pergunta apaixonante. Só assim, com a fadiga própria de quem se sente mendicante de sentido, poderemos encontrar a resposta
adequada em cada momento, estando bem conscientes de que quando a encontrarmos, mudamos a pergunta e teremos que recomeçar.
Finalmente, urge-me afirmar que quando o futuro se apresentar incerto, quando alguns se resignarem diante da incerteza do presente e se acomodarem, quando outros se rebelam contra as estruturas caducas e a falta de paixão, só o impulso decisivo e revitalizador, uma consciência missionária e profética, serão capazes de promover novas instâncias e modos de vida capazes de gerar sonhos e novas expectativas.
Como caminhos do futuro, Frei José indica: ser lembrança provocativa de Jesus; homens de fé e oração; viver na prática o Santo Evangelho; ser parábolas vivas de comunhão e de fraternidade; com forte sentido de pertença; acolhendo o desafio do interior; atentos à missão; inculturação; e em continua formação permanente.
Antes da conclusão, o Ministro Geral elencou uma série de propostas para o futuro e concluiu dizendo que “é tempo de sonhar”.
“O pior que pode acontecer a uma pessoa é deixar de sonhar. Quer dizer que se perdeu a capacidade de criar futuro, quer dizer que se renuncia a viver o presente com paixão, quer dizer, enfim, que a morte se aproxima a passos de gigante. Por isso, eu quero sonhar e quero pensar que todos os irmãos sejam capazes de sonhar, porque queremos viver, queremos criar futuro. Por isso, os convido a sonhar comigo. Quando alguém sonha só, o sonho pode se tornar pura utopia, mas quando dois sonham juntos, o sonho tem mais possibilidades de se converter em realidade. E, se em lugar de ser dois, os que têm o mesmo sonho forem cerca de 16 mil os que sonham juntos? Os convido, queridos irmãos, a compartilhar alguns sonhos que, graças a Deus, não são somente meus.
Sonho uma vida franciscana mais contemplativa, na qual nos movamos com paixão, abertos ao sopro do Espírito. Uma vida enraizada no encontro encantador e entusiasmado com Jesus Cristo, que nos chama a seguí-lo com todo o coração, o tempo inteiro, e a pleno risco. Sonho uma vida franciscana que se converta em grito profético do Absoluto de Deus, num mundo onde se multiplicam os ídolos e a fé se dilui ou se tergiversa.
Sonho com uma vida franciscana que viva permanentemente sob a ação do Espírito e seja fiel às suas inspirações. Será uma vida franciscana capaz de explorar caminhos novos do Evangelho, abrindo a novas presenças ali onde Ele sugeriu. Sonho com uma vida franciscana onde a passividade, o medo, a instalação, e o conformismo, que vêm disfarçados de lógica e de prudência, abram caminhos à audácia e à criatividade evangélicas, sinais da presença do Espírito em nós.
Sonho com uma vida franciscana, que, seguindo a forma de vida que nos deixou Francisco, seja capaz de captar as desumanizações de nosso tempo e tenha a valentia de se mover para a periferia, a fronteira, até os claustros desumanos, ali onde ninguém quer ir, para abraçar os leprosos de nosso tempo, e mostrar-lhes o Deus de amor.
Sonho com uma vida franciscana profética que, partindo de uma profunda identificação com Cristo, se converta em paixão e experiência fundante de vida, se sinta urgida a anunciar o rosto misericordioso de Deus, a fraternidade, a reconciliação, a paz, e a solidariedade.
Sonho uma vida franciscana que se converta em memória testemunhal da ternura de nosso Deus e da força de seu Espírito.
Sonho com uma vida franciscana samaritana, em um mundo no qual a pessoa é deixada pelo caminho, ferida, meio morta, violentada e insegura.
Sonho com uma vida franciscana voltada para a missão, inserida e inculturada, fruto de muita contemplação, de exigente despreendimento e de um grande amor às pessoas, pois só assim poderá ser geradora de uma cultura de vida e geradora da civilização do amor.
Sonho com uma vida franciscana que seja profecia interpelante de fraternidade para todos, e que, em meio a um mundo dividido por rivalidades e violências de todo tipo, ofereça espaços de encontro, de acolhida, de gratuidade e de festa, de um compartilhar sereno e alegre. Uma vida franciscana que seja memória provocativa do anseio vital que envolve o coração de toda pessoa, feita para viver com os outros, e não à margem dos outros.
Sonho com uma vida franciscana onde a pobreza não gere tantas discussões, mas seja uma realidade do coração que gera alegria, onde a obediência não seja vivida como luta e resignação, senão como uma apaixonante busca de diálogo e discernimento do querer de Deus, e onde a castidade e o celibato sejam vividos com um coração aberto a todos e desprendido e, por isso, alegre.
Sonho com uma vida franciscana, lúcida, capaz de olhar distante, para ver o que os demais não vêm, cheia de imaginação e coragem, capaz de comprometer-se na busca de formas alternativas de vida.
Sonho uma vida franciscana que, ao estilo de Francisco, ame com fidelidade criativa a Igreja, e seja essencialmente pascal, isto é: sinal, símbolo, parábola e profecia do Reino.
Sonho com uma vida franciscana que saiba despojar-se de tudo aquilo que a impeça de caminhar na direção que indicou Francisco há 800 anos. Sonho com uma vida franciscana capaz de criar odres novos para um vinho novo, que saiba dar respostas novas aos desafios novos, que opte por estruturas novas capazes de levar vida e vida em abundância.
Sonho com uma vida franciscana que avança, sem nada de próprio, para o futuro, seguindo o Senhor da história, com o fogo da paixão que nos queima por dentro, sabendo que Ele pode fazer hoje grandes coisas com os humildes de coração, como as fez há 800 anos, com Francisco e Clara de Assis.
O profeta anunciou que chegarão dias em que os jovens profetizarão e os anciãos sonharão (cf. Jl 2,28), e se esses dias já chegaram? (cf. Jo 4,35).” |