Por Frei Regis Daher
Diariamente, na celebração da missa e da oração das laudes em nossa fraternidade, como certamente ocorre nas demais fraternidades, nas preces dos fiéis, lembramos dos confrades aniversariantes e dos falecidos. Eventualmente, ocorre também a recordação dos diferentes jubileus, de vida religiosa e do ministério sacerdotal. Há muitos anos, o critério adotado em nossa província para o cálculo do ano jubilar, é o do período compreendido entre julho de um ano até o mês de julho do ano seguinte. Desconheço a razão histórica de tal critério. Para o jubileu de ouro (50 anos) de vida religiosa, a data base é a da admissão (vestição) ao noviciado e para o jubileu de prata (25 anos) é a da primeira profissão temporária. A partir dos 50 anos de vida religiosa ocorrem ainda os jubileus de 55, 60 e 75 anos, designados respectivamente como jubileu de esmeralda, brilhante e diamante.
Com a ajuda de Frei Walter Carvalho, fomos procurar na internet a ocorrência de uma designação específica para um jubileu de 80 anos, e o curioso, é que não há. A lista termina com o de 75 anos. Curiosa também é a lista dos metais e minerais associados aos períodos jubilares: 5 anos – madeira; 10 – estanho; 15 – cristal; 20 – porcelana; 25 – prata; 30 – pérola; 35 – coral; 40 – rubi; 45 – safira; 50 – ouro; 55 – esmeralda; 60 – brilhante e 75 – diamante. À primeira vista, a lista dos jubileus seria de uma ordem crescente conforme o valor de cada metal ou mineral. Mas talvez haja uma outra avaliação do tempo conforme a consistência, a rigidez, a têmpera de cada material. Não sei se é correta a informação, mas sempre soube que o diamante é dos mais rígidos entre os materiais, por isso mesmo, utilizado para o corte dos vidros.
Fui consultar os dicionários para compreender os diferentes sentidos do vocábulo “têmpera” porque, de algum modo, essa palavra me sugeria algo que pudesse unir essas duas formas de avaliação. E eis que a língua portuguesa veio iluminar minha reflexão! O “Aurélio” e o “Luft” (dicionário escolar) me deram alguns significados:
- Consistência que se dá a metais introduzindo-os, em brasa, na água fria;
- O banho em que se temperam os metais;
- Índole, feitio, temperamento;
- Inteireza de caráter, austeridade, fibra, firmeza de ânimo.
Todo esse longo preâmbulo, por quê? Antes do início da missa na segunda-feira, dia 19, eu percorria com minha leitura a relação, desta semana, dos confrades aniversariantes e falecidos. E, me surpreendi ao ler, assinalado em negrito, no dia 21 de janeiro, os 80 anos de vida religiosa de Frei Elzeário Schmitt. Comentei com os confrades que eu supunha ser um fato absolutamente inédito na história de nossa província.
Ontem fui consultar o Elenco dos Religiosos Falecidos da Província, publicado em 2003, e que, desde então, mantenho atualizado até os dias atuais em vista de uma próxima publicação. Com a ajuda preciosa do recurso “localizar”, do computador, percorri todo o texto buscando, na respectiva coluna, se haveria algum confrade falecido que tivesse alcançado os 80 anos de vida franciscana. Ninguém, nem mesmo para os números imediatamente menores. Fui então, conferir as datas da vestição e primeira profissão de Frei Elzeário no Elenco dos atuais Religiosos da Província, respectivamente 21.01.1930 e 22.01.1931. Feitos os cálculos, conclui que, na realidade, em 2009 (no dia de hoje, 21 de janeiro) nosso sênior completa 79 anos de vida franciscana e não 80, como virá impresso na Escalação “Irmãos e Fraternidades” deste ano. Imediatamente fui consultar Frei Walter Junior e esbarramos no critério de cálculo mencionado: de julho a julho...
De qualquer modo, em 21.01.2009, Frei Elzeário Schmitt está concluindo seus 79 anos de vida franciscana e, como aprendemos nos rudimentos iniciais da matemática, no dia seguinte ele entra na ‘casa’ jubilar dos 80 anos, que se completa em 2010. Desde que conheci pessoalmente nosso confrade, em 07.12.2007, quando eu e Moacir Beggo fomos entrevistá-lo numa matéria para o nosso site, com freqüência me recordo da sua vitalidade e singular disposição para a vida. Basta lembrar, que em 2008, aos seus 97 anos de idade, publicou seu último e volumoso livro sobre a história da Paróquia São Pedro Apóstolo de Gaspar, e já se preparava para organizar e reunir seus demais escritos e crônicas, de longos anos de produção, para uma futura publicação.
No ano jubilar da Ordem Franciscana, os “80” de Frei Elzeário, de certa forma sinalizam para os “800” de nossa forma de vida. E é aqui que aqueles sentidos da “têmpera” ganham sua plena significação, quando vemos essas características encarnadas concretamente numa pessoa que, por graça de Deus, é filho de São Francisco de Assis e nosso irmão, quase que a nos dizer: é possível, é verdadeiro, é real o nosso ideal de vida! Não somente por alguns dias ou por algum tempo de experiência, mas por toda a vida. O fato acabado de oito décadas, na figura ‘malhada’ de um idoso, escondem a luta, ardorosa e sem tréguas, a que ele se entregou – como o metal em brasa introduzido na água fria. Se de um lado, alguns têm natural e favoravelmente o “gene” da persistência, da disposição férrea (o que Frei Elzeário jocosamente chamou de “sangue bom”, e o dicionário qualifica como índole, feitio e temperamento), de outro, sabemos que a vida não nos dispensa de decisão e adesão pessoais, a cada instante, a cada dia, a cada ano até concluir a obra começada. São esses os outros sentidos que o dicionário nos revelam: inteireza de caráter, austeridade, fibra, firmeza de ânimo. Essas são as virtudes conquistadas, a têmpera adquirida, no calor do fogo, na rotina do tempo.
O que isso tudo significa para Frei Elzeário, talvez só Deus saiba. Para cada um de nós os seus “80” são um apelo para revivermos a mesma graça de nossa origem. Obrigado, Frei Elzeário, pelo que o senhor é e pelo que significa para todos nós!