Quando o amor é franciscano
Por Frei Régis Daher
Bauru (SP) - Na manhã de ontem, dia 1º de agosto, eu, Frei Mário Tagliari, Frei Raimundo Castro e Moacir Beggo, partimos de São Paulo para participar da celebração da ordenação presbiteral de Frei Thiago Alexandre Hayakawa, em Bauru, SP. Tínhamos o propósito de, antes, parar em Pederneiras para visitar nosso confrade Frei Walter de Carvalho Júnior, seu pai Sr. Walter Carvalho e sua mãe Sra. Onélia Artioli de Carvalho. E assim o fizemos.
O pai de Frei Walter, em 1º de abril deste ano, sofreu um AVC e teve uma queda no banheiro de sua casa, com conseqüente pancada na cabeça, o que resultou numa hemorragia e coágulo cerebral. Operado em Bauru, por um verdadeiro milagre, escapou da morte. Ficaram inúmeras seqüelas físicas e neurológicas, de modo que ele precisa da assistência permanente do filho frade, da esposa e de enfermeiras. Frei Walter já tinha passado e vivido esta mesma experiência com Frei Jurandir Cristofolini e dedicou-se com extrema solicitude nos cuidados e na assistência do guardião da sede a quem, ele próprio, sucedeu depois do ocorrido.
O quadro geral do Sr. Walter é positivo. Passados três meses, ele já consegue andar com auxílio e iniciou a alimentação por via oral. Permanece, porém a traqueotomia, por medida de segurança, uma vez que o próprio sistema respiratório foi afetado. Tem consciência parcial e a memória ainda não se refez. Segundo o neurologista, só após seis meses será possível avaliar a extensão dos danos e as seqüelas irreversíveis. Aos 74 anos, esse processo é um tanto complexo e demorado.
Algumas reflexões brotaram naturalmente depois da visita. Frei Walter é filho único homem, e o mais velho, do casal Walter e Onélia. Sua irmã Érica e a sobrinha Luíza moram em São Paulo. De modo que ele e a mãe passaram a viver, quase que absolutamente, em função dos cuidados e da assistência ao pai e esposo. Quem já viveu uma situação semelhante, na família ou na vida fraterna, sabe o que isso significa: de um momento para o outro, o mundo “vira de cabeça pra baixo”... Os fatos não nos consultam previamente, nem pedem nosso consentimento ou aceitação. Simplesmente chegam!
O que difere essa situação das outras que consideramos “normais” da vida, talvez seja a forma como encaramos e assumimos os fatos. Talvez aqui apareça, de fato, quem somos, como vivemos e sobre o quê construímos a nossa casa (Mt 7, 24-27). Se de um lado, encontramos Frei Walter e sua mãe D. Onélia, fisicamente abatidos, desgastados, emagrecidos pelo estado de vigília permanente no cuidado com o pai e até envelhecidos; de outro, sentimos no que consiste “a diferença”. Não bastam os recursos médicos e materiais para confortar alguém, na saúde ou na doença. Frei Walter nos confidenciou que, apesar do pai não reconhecê-lo como filho ou chamá-lo pelo nome, atende todos os seus pedidos. A vida tem uma lógica surpreendente: agora, é o filho quem reeduca o pai e o pai obedece o filho! Como? Pela lógica do amor. Alguém disse certa vez que há uma outra memória, não a racional e intelectiva, mas a memória cordial, a dos sentimentos. Não é um amor qualquer, mas é o amor que se torna franciscano! É um filho-frade que está cuidando do seu pai.
Certamente, as pessoas em geral, e também nós frades, vivemos situações semelhantes nas quais corremos e nos preocupamos em oferecer o melhor para nossos parentes e confrades enfermos e idosos. Criamos estruturas e serviços de apoio e assistência (plano de saúde, enfermaria, médicos, etc.), mas talvez permaneça uma lacuna que não será preenchida por nenhuma capacitação ou recurso profissional, se não houver o envolvimento do coração.
Na ordenação presbiteral de Frei Thiago, essa mesma realidade ficou claramente expressa em outras duas situações muito distintas daquela vivida por Frei Walter.
Nosso confrade D. Caetano Ferrari, o bispo ordenante, falou de coração aberto, talvez fugindo do roteiro e do script oficial do ritual litúrgico, porque se deixou levar pelos sentimentos. Não fez uma homilia, como se poderia esperar nessa ocasião, centrada na teologia e espiritualidade do sacerdócio ministerial. Falou de sua vida como frade, do exercício da obediência ao assumir serviços distantes de sua terra natal. E, depois de bispo, já aos 67 anos, retornou à região de origem, a Diocese de Bauru, na qual estão seus confrades e o Seminário de Agudos, onde iniciou sua vida franciscana.
Quando, na segunda parte da homilia, se voltou para o Frei Thiago, realçou alguns aspectos da vida pessoal, familiar e eclesial que permitem fazer nascer uma vocação cristã, evangélica, missionária e ministerial. E, por diversas vezes, arrancou risos da assembléia ao dizer que o novo presbítero, natural de Bauru, poderia muito bem ficar ali mesmo no âmbito da diocese. Voltando-se para Frei Augusto Koenig, sentado ao seu lado direito, provocou: “Estando já no término de seu mandato como Ministro Provincial, poderia sugerir no Congresso Capitular a permanência de Frei Thiago em Bauru”. E, dirigindo-se à mãe do novo presbítero, D. Solange, perguntou: “A senhora, D. Solange, não gostaria de ter o Frei Thiago aqui por perto”? D. Caetano, lembrando que nesse dia 1º de agosto o município de Bauru estava comemorando o aniversário de sua fundação, aproveitou para demonstrar o significado de ser povo de Deus nessa região e qual o papel, a vocação, o ministério que cada cristão poderia assumir na sociedade e na Igreja. Em inúmeros momentos, Dom Caetano testemunhou sua alegria em ser frade menor e o desejo de continuar próximo dos frades, da Província e da Ordem. Mas, não deixou, em nenhum momento, de testemunhar que agora, seu coração também é o de um pastor que ama e se preocupa com o seu povo. Talvez, seja nesse registro, que devamos entender e ouvir as brincadeiras que ele fez com Frei Thiago e com Frei Augusto. Pessoalmente, depois de passado o calor das emoções, eu entendi que, Dom Caetano, como pastor franciscano que é, não negligenciou de forma alguma o conteúdo doutrinal e litúrgico da ordenação. Ao contrário, nas expressões de carinho e de afeto aos frades, ele também nos ensinou o que acontece quando o amor se torna franciscano!
Do mesmo modo, Frei Thiago, no final da celebração, ao fazer os agradecimentos e memórias de praxe, deixou absolutamente claro para todos que ele, a sua vocação e seu ministério são frutos de duas famílias, a de sangue e a da escolha de vida. Dirigiu-se, já com a voz embargada, à D. Solange, às irmãs e irmãos, sobrinhas, a D. Caetano, aos seus confrades, para dizer que foi por causa de todos eles que ele decidiu abraçar e permanecer nessa vida. Porque, nele também o amor se tornou franciscano!
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