
O Master em Evangelização e Missão, promovido pelo ITF neste ano, apresenta algumas características próprias. Entre elas, destaca-se o fato de reunir em sala de aula um grupo eclético, formado por frades e religiosos de diferentes países da América Latina. São pessoas com experiências e culturas diversas, que se reúnem com objetivo de pensar o exercício da Evangelização em suas diferentes possibilidades.
Aproveitando a riqueza deste grupo tão diverso, o site Franciscanos, em parceria com o ITF, apresenta uma série de entrevistas com os participantes do curso. Além de abrir novos horizontes aos leitores, este trabalho também tem o objetivo de fomentar nos internautas a curiosidade em torno do tema da Evangelização e, quem sabe, arrebanhar novos candidatos para a participação nesta iniciativa pioneira do ITF: o Master em Evangelização e Missão. |
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“Nossas celebrações são carregadíssimas de Teologia, mas têm pouco sentimento”
Entrevista com Frei Álvaro Cepeda van Houten, OFM
Por Frei Gustavo Medella, OFM
Além de alunos de diferentes nacionalidades, o Master em Evangelização e Missão está trazendo a Petrópolis professores e estudiosos de conceituadas universidades latino-americanas. É o caso de Frei Álvaro Cepeda van Houten, OFM. Ele é teólogo e estudioso da política, formado na Colômbia e em Roma, na Itália. Atualmente é reitor do campus de Cáli da Universidade São Boaventura, tradicional instituição colombiana dirigida e fundada por franciscanos.
Frei Álvaro tem sob seus cuidados 5,2 mil alunos, a maioria das classes média e alta, e 450 funcionários. Ele é também membro fundador do Grupo interdisciplinar de estudo sobre religião, sociedade e política da Universidade São Boaventura e membro do Instituto colombiano para o estudo das religiões. No Instituto Teológico Franciscano (ITF), Frei Álvaro está ministrando, entre os dias 10 e 16 de maio, em modalidade intensiva, a disciplina que trata do cenário religioso latino-americano, em especial no que diz respeito ao crescimento das Igrejas pentecostais. Em um rápido intervalo entre uma aula e outra, ele concedeu a nosso site a entrevista abaixo.
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Site ITF - O que mais lhe chama a atenção no atual cenário religioso na América Latina?
Frei Álvaro – Tenho me dedicado ao estudo dos novos fenômenos religiosos da América Latina, em outros termos, da recomposição religiosa do continente. Precisamos, neste momento, dedicar boa parte de nossos estudos, de distintas disciplinas, teológicas e filosóficas e também sociológicas, antropológicas e históricas, à aparição, no espaço religioso latino-americano, com muita força, de Igrejas que há trinta anos eram minoritárias e quase invisíveis e hoje são muito visíveis e reúnem grande quantidade de pessoas, arrebanhando muitos seguidores. Particularmente, o que mais tem me ocupado é ver porque estas Igrejas, que começaram a se fortalecer a partir da década de 1960, decidiram, depois de 1990, dar um passo em direção ao campo político e começaram a converter-se em movimentos ou em partidos políticos, ou passaram a apoiar abertamente candidatos. Por isso, preocupo-me que a Igreja Católica não esteja se ocupando em estudar este tema. A bibliografia disponível sobre este fenômeno é, de fato, muito pouca, porque não temos feito os estudos necessários.
Site ITF - Diante desta realidade, que caminhos a Igreja Católica deve buscar para o serviço de Evangelização?
Frei Álvaro – Penso que temos de entrar em uma séria revisão de nossa liturgia. Não estou dizendo que tenhamos de repetir os cultos pentecostais em nossa Igreja Percebo que alguns párocos, inclusive franciscanos, decidiram replicar as formas litúrgicas dos pastores pentecostais. Vejo essa atitude como uma tentativa angustiada de quem vê sua gente ir embora, pessoas abandonando a Igreja. Por isso, trazem para a Igreja Católica a glossolalia (rezar em línguas), as curas, as expulsões de demônios, as danças etc. Por outro lado, acredito que estamos apresentando uma liturgia distante, fria e racional, carregadíssima de Teologia, porém com pouco sentimento. Muitas vezes, o sacerdote se apresenta como um funcionário: chega, celebra e vai embora. O pastor evangélico, pentecostal, por sua vez, preside o culto, está à frente, anima a celebração e permanece com os fiéis. Despede-se deles na porta, conhece-os pelo nome, visita suas casas, conhece seus problemas. Nós, no entanto, seguimos fazendo uma pastoral quase de funcionários e creio que aí temos que repensar muita coisa.
Site ITF - O sr. apontou dois extremos: a imitação do modelo neopentecostal e a realização de uma liturgia muito distante. Por que é tão difícil se encontrar o caminho do equilíbrio?
Frei Álvaro – Porque não temos pensado o problema. Só atuamos para censurar aqueles sacerdotes que optaram em imitar o formato pentecostal, coisa que também não apoio, pois toda imitação não é boa. Nós temos uma Teologia própria, que não está no mundo pentecostal. Mas temos de refletir se esta forma fria pode continuar sendo a resposta que vamos dar ao mundo de hoje. Se vou para um pouco além do âmbito teológico e pastoral e observo o mundo moderno, mundo atual, vejo como se valoriza hoje o que é sensível. É só observar: os jovens se tocam, manifestam o afeto abertamente, não escondem seus sentimentos. O jovem de hoje chora, mostra alegra, não há mais aquela figura do “machão” de outra época. Esse sentimento precisa ser recuperado na liturgia. Como? Não faço idéia e por isso nem vou tentar apontar o caminho. Mas uma coisa é certa: nenhum dos dois extremos é bom.
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Site ITF - Como o senhor enxerga a missão profética da Igreja na América Latina hoje? Ela está adormecida ou encontrou novas maneiras de manifestação?
Frei Álvaro – Eu creio que a tarefa profética da Igreja na América Latina, que foi muito forte depois do Concílio Vaticano II, especialmente depois de Medellín, como todo avanço da Teologia da Libertação, e que se encarnou nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) segue vigente. Não podemos negar que muitas pessoas de nossas comunidades eclesiais nos abandonaram para ingressar em Igrejas pentecostais. Eu creio que também aqui se tenha de fazer uma reflexão. Eu trabalhei com CEB’s e, hoje, sustento que nossas reuniões eram muito racionais. Não nego que quem se formou em nossas CEB’s tenha uma melhor percepção da realidade, do que se sucede no campo político-social. Mas também estas são pessoas que querem uma resposta de cunho religioso, e neste ponto, não fomos muito cuidadosos. Eles querem experimentar Deus, e não o conseguiram aqui, por isso foram buscar em outro lugar. Devemos também profetizar sobre este fenômeno. A recomposição do campo religioso da América Latina é um tema sobre o qual precisamos nos pronunciar.
Site ITF - Com relação a seu trabalho no âmbito universitário: o senhor tem, sob seus cuidados, 5,2 mil alunos, a maioria de classe média alta, e 450 funcionários. De que forma é realizado o trabalho de evangelização junto a este público, tendo em vista o contexto de secularização e individualismo que marca nossa época?
Frei Álvaro –Temos um trabalho de evangelização em duas linhas: por uma parte, trabalhamos na formação ético-cristã de todos os nossos alunos. Se um jovem estuda, por exemplo, Engenharia Eletrônica, ao terminar seus estudos, que duram cinco anos, ele deve ter visto oito disciplinas de formação humanística e cristã, dentre as quais oferecemos cursos de franciscanismo, história franciscana, pensamento franciscano, ética cristã, refletimos temas da bioética etc. Por outra parte, temos uma tarefa evangelizadora que exercemos mais no sentido de provocação. Por exemplo: a capela da universidade permanece aberta durante todo o horário de funcionamento, com um lugar de pouco ruído, onde está o Santíssimo, à disposição dos jovens e de todos que quiserem passar alguns momentos na capela. Outra forma são os grupos de reflexão bíblica abertos a todos os interessados, estudantes ou funcionários, sempre às segundas-feiras, tanto na parte da manhã quanto da tarde. Também temos as celebrações eucarísticas. Temos clareza de que uma universidade não é uma paróquia e, por isso, não oferecemos preparação para os sacramentos. Quando os jovens nos procuram para tal, os encaminhamos à suas paróquias. Há também um grupo de jovens, os animadores pastorais, todos voluntários, que estão nas diversas faculdades. Eles são encarregados de tarefas como, por exemplo, se algum colega de curso perde o pai, eles vêm até o frade que cuida do trabalho pastoral e lhe pedem a celebração de uma missa. Também aproveitamos estes momentos para levar uma mensagem. Também oferecemos encontros de formação cristã a nossos professores e funcionários. Ao todo, são realizados, por ano, 14 destes encontros, que têm a característica de retiros espirituais. Nenhuma dessas atribuições é fácil, pois vivemos um período de forte secularização, mas percebemos respostas muito positivas. Nossa meta é que, na Universidade, se respire o pensamento franciscano e boaventuriano.
Site ITF - O que o sr. destaca desta experiência que está vivendo em Petrópolis, junto ao grupo do Master em Evangelização e Missão?
Frei Álvaro – Uma novidade para mim é o fato de o curso ser intensivo, com aulas pela manhã e pela tarde durante o período de uma semana. Isto tem dois efeitos imediatos: primeiro, tenho que selecionar muito o material que trago, depois, o trabalho de investigação dos estudantes tem de ser também mais breve. Não posso ser irresponsável de dar a eles um trabalho que fique pendente para as próximas semanas, pois outros professores virão depois de mim. Por isso, vamos terminar as aulas desta disciplina com os trabalhos já prontos. A experiência está sendo positiva.
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