Por Moacir Beggo
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O dia-a-dia de Maria Bernadette Nabuco do Amaral Mesquita se divide, hoje, entre duas famílias: a de sangue e a espiritual, ou seja, a Ordem Franciscana Secular. Tudo começou quando ela foi colocada diante de uma grande provação, quando perdeu seu marido num acidente, ficando viúva e com três crianças pequenas para criar e educar. Perdida, como disse, vendo seu projeto de vida em ruínas, Maria Bernadette encontrou forças, graças a sua fé, para perceber que Deus tinha reservado para ela algo maior ainda: “Acredito que quando Deus nos tira alguma coisa muito grande, é porque Ele tem outra maior ainda para lhe dar. É só a gente esperar um pouco que enxerga isso. Foi o que aconteceu comigo”. Maria Bernadette se refere ao encontro com um novo Projeto de Vida, que mais tarde abraçaria como a um “casamento”: a Regra de Vida da Ordem Franciscana Secular, ou seja, o projeto de vida de todo franciscano secular que é o seguimento da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme os ensinamentos do Evangelho.
A nova vida de Maria Bernadette nasceu ao mesmo tempo em que nascia a primeira fraternidade de sua cidade, Tapiratiba, no interior de São Paulo. Hoje, depois de 16 anos, seus 3 filhos moram em São Paulo, e por isso ela se divide entre as duas cidades. Enquanto puder, vai continuar no Interior, onde está sua família franciscana.
Em meio aos preparativos para o Capítulo Ordinário de Avaliação da Região Sudeste III da OFS, que será realizado no próximo final de semana, em São Paulo, Maria Bernadette reservou um tempo para falar com o Site Franciscanos. Nesta entrevista, Maria Bernadette fala com paixão do carisma franciscano e se diz encantada por São Francisco e Santa Clara. Ela lembra que São Francisco viu a importância do leigo na Igreja 800 anos antes do Concílio Vaticano II, que a OFS caminha bem, mas não está imune aos desafios que a nossa sociedade, cada vez mais consumista e globalizada, oferece. Acompanhe!
Site Franciscanos – Qual a sua expectativa para este Capítulo Regional? Quantos representantes têm este Capítulo?
Maria Bernardette – No triênio, temos um Capítulo Ordinário de Avaliação, que nós fazemos a cada um ano e meio de mandato. Em São Paulo e Sul de Minas Gerais, que corresponde ao território da Região Sudeste III da Ordem Franciscana Secular (OFS), somos 86 fraternidades, num total de cerca de 3.200 irmãos e irmãs professos. Para este Capítulo, são convocados os Ministros, Vices e os Assistentes Espirituais. Normalmente temos 200 participantes, fora a equipe de coordenação e o Conselho Regional. Nós somos divididos em oito Distritos e, todos, no final de cada ano fazem uma avaliação para depois levarem o resultado ao Capítulo. A partir daí, traçamos as nossas prioridades e metas tendo em vista o próximo período de um ano e meio.
Site Franciscanos – Este Capítulo está ocorrendo ao mesmo tempo em outros Regionais?
Maria Bernardette – Não, só em São Paulo. Cada um realiza em uma data.
Site Franciscanos – Por que a escolha do tema “Responsabilidade com a profissão e compromisso com a paz”
Maria Bernardette – “Responsabilidade com a profissão” é porque entendemos que sempre este assunto deve voltar ou estar em pauta. Na verdade, já estamos trabalhando há uns seis anos, em nível de Brasil, a consciência de pertença e o compromisso com a profissão. Nós trabalhamos, por exemplo, a apostolicidade por uns dez anos. Só agora podemos dizer que as fraternidades já entendem o que é apostolicidade e o que é o “ser franciscano”. Entendemos que, com a consciência de pertença e o compromisso com a profissão, vamos precisar de muito tempo para esgotar o assunto. E a paz é por causa da Campanha da Fraternidade 2009. Estamos dentro do tempo da Quaresma e mais uma vez a CF contempla um tema bem franciscano, muito nosso. Por vários anos seguidos temos tido a oportunidade de trabalhar os temas da CF à luz da nossa espiritualidade.
Site Franciscanos – Como está hoje a OFS no Brasil?
Maria Bernardette – A OFS do Brasil, com cerca de10 mil irmãos e irmãs professos, caminha bem. Pelo que a gente vê de resultados em Capítulos Gerais, e também porque temos irmãos e irmãs de nosso Regional participando da OFS em nível mundial, o que faz com que tenhamos mais proximidade e informações, pode-se dizer que a OFS do Brasil caminha bem. Mas como em todo mundo temos problemas de envelhecimento e falta de vocações. Isso não é só uma questão nossa, mas é de toda a Igreja. Acho que o problema acontece em todas as Ordens.
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Site Franciscanos - A que você atribui essa “crise”?
Maria Bernardette - Em relação à Ordem Franciscana, atribuo ao compromisso. Para fazer parte de uma Ordem, a pessoa assume um compromisso com a sua profissão, que é definitiva, que é para a vida inteira. É um “casamento”. Hoje em dia, as pessoas preferem fazer parte de grupos - desses que têm por aí uma porção, tão atrativos -, que não exigem compromisso. Você vai, participa do momento de oração, reza, e volta para casa. Mas no caso da Ordem, você tem compromisso. Sério, grande, maravilhoso, mas é um compromisso. Acho que o que se dá é isso. Isso também serve para a Ordem Primeira e para a TOR. Já a Segunda Ordem , a das Clarissas, não tem problemas de vocações. É impressionante como elas não têm nenhum problema de vocações. As vocações florescem. E não é só no Brasil, é no mundo inteiro.
Site Franciscanos – Como é feito o trabalho vocacional na OFS?
Maria Bernardette – Nós trabalhamos muito a consciência de pertença. Já falei também, no começo, que faz seis anos que estamos insistindo nisso. E a nossa Região trabalhou muito as lideranças novas. Temos um projeto que se chama “Reacender a Chama da Vocação”. Esse trabalho é feito através de uns folhetinhos que contemplam alguns valores, por exemplo, a acolhida, a cortesia, inclusive a liderança e o último foi a solidariedade, porque estávamos trabalhando a espiritualidade da nossa Padroeira, Santa Isabel da Hungria, por causa dos 800 anos de seu nascimento, e percebemos que houve uma boa melhora. Por exemplo, ninguém queria mais assumir cargos na fraternidade e hoje não temos mais muitos problemas em relação a isso. Também estamos trabalhando bastante a animação vocacional. Há sete anos fazemos esse trabalho. É importante explicar, que na OFS, a formação é integrada, pois ela contempla a formação em si, a iniciante, a permanente, o serviço aos enfermos e idosos, o serviço de justiça, paz e ecologia, e a animação vocacional. A gente já fez cursos para dar orientações às fraternidades em nível Regional, através dos Distritos. E aí dando dicas, folhetos, convites de como fazer. Mas sempre deixando claro que o maior animador e o mais importante é o testemunho de cada irmão. O último encontro foi muito interessante porque as coordenadoras da animação e da formação trabalharam o tema de como “ter uma reunião atrativa na fraternidade para segurar as pessoas que chegam”. Isso porque, através de um questionário, descobrimos que os irmãos até vêm nos conhecer, mas em muitos casos não ficam. Por diversos motivos, entre eles, porque temos fraternidades envelhecidas, devocionalistas e que ainda não se abriram para a Regra renovada, que comemorou trinta anos no ano passado. É uma Regra maravilhosa, aprovada pelo Papa Paulo VI, que volta às origens do franciscanismo. Ela deixa de lado o devocionismo, sabe, não que a devoção não seja importante, mas se volta para o ser franciscano, para a nossa presença no mundo. O que é ser um irmão ou irmã da penitência. As fraternidades novas, que nasceram quando essa Regra foi aprovada, já têm outro perfil, outra fisionomia. As antigas têm mais dificuldades para aceitar a renovação da Regra. Agora, temos fraternidades antigas que se abriram, aceitaram, e são fraternidades que caminham muito bem. Um casal jovem que chega numa fraternidade pesada, não fica. Então, nós trabalhamos nesse encontro o que fazer para motivar as pessoas a ficarem.
Site Franciscanos – Existe uma idade ideal para ingressar na OFS?
Maria Bernardette – A profissão pode ser feita a partir dos 18 anos.
Site Franciscanos – E como uma pessoa faz para ingressar na OFS?
Maria Bernardette – Esse candidato ou candidata precisa procurar uma fraternidade da OFS mais próxima para receber orientação e para conhecer o modo de vida do franciscano secular. Primeiro fazemos o convite a participar das reuniões, depois ela é acompanhada por um animador vocacional ou pela fraternidade e, então, dá-se início a um período de iniciação, que dura um ano, e segue-se a formação, que vai durar dois anos, para conhecer e estudar melhor a Regra de Vida dos Franciscanos Seculares, até chegar à Profissão.
Site Franciscanos – Como se deu a sua vocação para a OFS?
Maria Bernardette - Sabe, foi interessante minha vocação. Eu sempre gostei muito de Santo Antônio, desde pequena. Minha mãe não entendia muito, porque ela foi uma mulher muito religiosa, mas não tinha muitas imagens na minha casa. Tinha uma Nossa Senhora de Nossa Senhora e Crucifixo, mas eu gostava mesmo de Santo Antônio, não entendia o porquê e desde pequeninha rezava para Santo Antônio. Achava lindo quando os frades iam para a minha cidade. Minha cidade não tinha frades, mas em Mococa, cidade vizinha, tinha os Capuchinhos e eles iam muito. De São Francisco, só conhecia o “santo dos passarinhos”. Com apenas dez anos de casada, perdi o meu marido e fiquei com os filhos muito pequenos. O nosso Pároco, um sacerdote diocesano, construiu uma igreja e colocou São Francisco de Assis como padroeiro. Logo depois, ele começou a se movimentar para fundar a Ordem Franciscana Secular. E quando ele estava neste processo, uma senhora muito amiga da minha família, a Dona Dayse, me convidou e perguntou se não queria conhecer. Fiquei em dúvida e perguntei o que era a OFS. Ela me explicou mais ou menos e me falou da Regra que a gente professava. Quando ela falou da Regra, me deu um estalo, porque estava meio perdida com o meu projeto de vida, que era o casamento interrompido. Inclusive, deixei tudo, nunca mais eu trabalhei, para ser mãe, esposa e dona de casa. E quando meu marido faleceu, tão cedo e de repente, ficou faltando alguma coisa, você me entende? Sabe, não que tenha ido buscar na Ordem o que me faltou ou suprir a ausência do meu marido. Mas é o projeto de vida, aquilo que tinha sido rompido. E quando ela me falou da Regra, vi naquilo um projeto de vida para mim, independente da minha família e das minhas crianças. Então fiquei encantada com isso e já fui à primeira reunião. Gostei e fiquei. A fraternidade não tinha sido erigida ainda, o grupo estava se formando. Dois anos depois, a fraternidade foi erigida e fui eleita a primeira Ministra. Assim tudo começou e por isso vou ser eternamente grata à dona Dayse e o Padre Luiz Carlos Gonçalves. Depois encontrei, logo no começo da minha caminhada, verdadeiros mestres, exemplos maravilhosos de irmãos e irmãs que foram decisivos para o amadurecimento da minha vocação e fortalecimento da minha caminhada.
Site Franciscanos – O que é ser franciscana e franciscano secular? Explique como casados podem ingressar numa Ordem religiosa.
Maria Bernardette – A OFS é aberta, exatamente, para jovens, solteiros, casados, viúvos e clérigos também. Os sacerdotes diocesanos podem fazer parte da Ordem Franciscana Secular e professar. Por exemplo, o meu Pároco é professo na OFS. Então, é o ramo da família franciscana que é aberto para os leigos. E Ordem foi fundada pelo próprio São Francisco. Aliás, ele foi um leigo, que começou junto com os irmãos da penitência daquela época e só quando os irmãos começaram a perceber a sua presença mundo e juntaram-se a ele – os primeiros companheiros - é que ele se preocupou em escrever uma norma de vida e pedir autorização à Igreja para que aquele grupo pudesse viver em conformidade com a Santa Sé. Mas, até então, São Francisco não tinha pensado em fundar uma Ordem. Ele vivia como leigo entre esses irmãos e irmãs da penitência. Então, se voltarmos até lá, bem no início a história da Família Franciscana, vamos ver que a Ordem Primeira e a Segunda nasceram da Terceira. Porque São Francisco era um leigo e começou assim. Inclusive ele atentou para isso 800 anos antes do Concílio Vaticano II. Ou seja, só depois de oito séculos a Igreja enxergou a importância do leigo. São Francisco percebeu que nós, no mundo, podemos fazer muita coisa, porque estamos inseridos na sociedade e podemos dar nosso testemunho de vivência do Evangelho com mais facilidade. E temos até mais oportunidade de dar esse testemunho onde atuamos, como na família, no trabalho, na sociedade, na própria Igreja, nos movimentos e pastorais.
Site Franciscanos – Como é a relação com a Jufra?
Maria Bernardette – Tem fraternidade que ainda resiste à presença da Jufra. Que se fecha. Essas que lhe falei, as mais antigas, acabam se fechando. Em compensação, as fraternidades que são abertas caminham muito bem com a Jufra.
Site Franciscanos – A OFS pode dar assistência à Jufra?
Maria Bernardette – Sim. Inclusive nós temos uma pessoa do Conselho que representa a Jufra no Conselho da OFS, que é Animador Fraterno da Jufra. Onde tem Jufra, o Conselho da OFS tem esse irmão que participa do Conselho e faz essa ligação.
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Site Franciscanos - Num artigo recente de Frei Almir ele dizia, que sempre de novo deve-se recomeçar um empenho de diálogo com os jovens, de aproximação deles, sejam eles da Jufra ou não. A OFS está preocupada com isso?
Maria Bernardette – Está muito preocupada. Inclusive nós temos orientado às Fraternidades que no caso de se encontrar dificuldade para formar um grupo de Jufra que se comece por um grupo de jovens franciscanos. Não que a gente não queira a Jufra, não é isso, mas de repente, quando não se consegue com a Jufra, pode-se abrir aos jovens interessados pela espiritualidade franciscana de outra maneira. O mais importante, a meu ver é tê-los perto, e quem sabe se a partir daí, possa nascer uma Jufra, porque o jovem é encantando por São Francisco. Então, é muito fácil atraí-los. Agora, a Jufra tem uma estrutura de OFS. E, às vezes, até mais pesada. E se isso está assustando o adulto, imagine o jovem! Inclusive essa é uma questão que o Regional de São Paulo tem colocado em Capítulo Nacional e Congressos de Jufra. Um jovem que chega e é apresentado para uma estrutura muito pesada, se assusta. Isso que Frei Almir fala no artigo é muito bom e nós estamos aplicando lá na minha fraternidade local. Estamos com um grupinho há quase dois anos de doze jovens, que ainda não é Jufra e não sei se vai ser, mas está muito bem caminhando na espiritualidade franciscana. O problema é que no Interior é bastante difícil o grupo continuar, porque com 17 ou 18 anos, eles têm de sair de sua cidade para fazer faculdade numa outra cidade grande. Aí a Jufra se desfaz, porque os mais velhos saem e os mais novos não têm condições de assumir toda aquela estrutura. Os da cidade grande têm mais facilidade porque continuam na cidade.
Site Franciscanos – O que a Sra. achou do tema do último capítulo da Ordem: “A profissão dos franciscanos seculares e seu senso de pertença à Ordem Franciscana Secular”.
Maria Bernardette – Um tema muito bom, mas já o tínhamos trabalhado em um capítulo de nosso Regional. Mas parece que lá fora, nos outros países, foi um tema bem propício porque parece que não estavam trabalhando isso. É muito interessante e está na hora de acordar e trabalhar muito isso. Porque se não existe essa consciência de pertença, não há compromisso com a profissão.
Site Franciscanos – No mesmo artigo, Frei Almir, lembrou que num tempo de provisoriedade é preciso fazer com que a profissão da OFS seja um marco na vida dos irmãos e, ao mesmo tempo, um apelo a que se dediquem aos outros. É possível isso na nossa sociedade consumista?
Maria Bernardette - A primeira coisa que as pessoas perguntam quando sabem que estão diante de um franciscano secular é “O que vocês fazem?” O fazer está muito presente na cabeça das pessoas. Eu digo: “a gente não faz nada”. A gente é. Porque o nosso ser franciscano é que tem que nos levar a alguma coisa. Houve um tempo que você se tornava um franciscano secular porque queria trabalhar numa obra social, num asilo, numa creche. Então entrava na Ordem Franciscana porque tinha uma oportunidade de trabalho ali. E não é por aí. Quem entra só com esse objetivo, sai. A hora que ele desanima do serviço, ou que o trabalho acaba, ele sai. Então, o nosso ser franciscano é que tem de nos levar a um trabalho social, a um compromisso com a Igreja, enfim, a tudo a que a gente pode fazer nesse leque enorme de oportunidades que a sociedade carente e sedenta de cuidado, hoje nos oferece. Acho que o nosso comportamento na fila de um banco pode fazer a diferença. O nosso comportamento diante de tudo isso por ai, numa sociedade globalizada e consumista, por exemplo, o gesto de pegar um papel e jogar no lixo, está sendo ali uma presença. Acho possível e podemos fazer muita coisa, na nossa simplicidade, onde moramos e trabalhamos, independente de participarmos de ONGs.
Site Franciscanos – Como está a formação inicial e permanente da Ordem?
Maria Bernardette – Existe uma formação específica. A formação permanente é muito importante e por muito tempo não se trabalhou isso. Professou, ganhou o diploma de franciscano. Foi depois da renovação da Regra, que se começou a insistir muito na formação permanente. No Regional há um projeto de formação permanente, mas há uma abertura para as fraternidades que queiram trabalhar além deste projeto. É importante frisar que cada fraternidade tem a sua característica a sua realidade. Isso é uma riqueza muito grande para a gente. Nós temos fraternidades de irmãos muito cultos, fraternidades de irmãos voltados para a formação, fraternidades de irmãos muito simples, algumas até com irmãos que aprenderam a ler e a estudar na própria fraternidade.
Site Franciscanos – Por que tem até frade que acha a OFS é uma pastoral ou movimento e se esquece que ela é uma Ordem?
Maria Bernardette – Então, temos frades que não conhecem a OFS. Por que será? Tem uns que não se simpatizam muito mesmo e acho que a falha maior está na formação do frade, porque ele estuda durante muitos anos e pouco de fala da OFS no período de sua formação. Depois que ele já é frade e está formado, é muito mais difícil. Muitos têm ainda a imagem daquela OFS antiga, fechada, voltada para si mesma, muito devocionalista, e não percebem que muita coisa mudou. Se não mudou totalmente, está mudando. Então, acho muito importante que isso seja dado na formação. É o que nós estamos tentando fazer nas fraternidades em relação à Jufra. Nesse período de formação, quando estão estudando a Regra, a gente já deve começar a falar da Juventude Franciscana. Isso na verdade não acontece só na Primeira Ordem. Na TOR masculina e nas Congregações Religiosas que na sua maioria foram fundadas por terceiras franciscanas, não conhecem a OFS. Se conhecem, é muito pouco. Eu sei por causa da Experiência de Assis. Quando elas chegam - agora a experiência é mista –, ficam encantadas com a participação da OFS. Elas ficam impressionadas, porque trabalham muito o carisma do fundador (a) e o carisma franciscano fica meio à deriva. Quando encontram os irmãos da OFS, que estão mais dentro do carisma franciscano, causa espanto. Mas temos irmãs que conhecem, que gostam e que dão assistência à OFS. Inclusive, várias fraternidades no Regional são assistidas por irmãs.
Site Franciscanos – Como coordenadora da Experiência de Assis, a Sra. pode falar um pouco sobre ela?
Maria Bernardette - A experiência de Assis, no passado, era separada. Tinha a dos frades, dos religiosos e dos seculares. Depois, a Família Franciscana resolveu fazer a mista. Isso enriqueceu a Experiência de Assis, dando uma oportunidade de a família se conhecer. Faço parte da coordenação e a próxima vai ser a sexta experiência de Assis. Faço toda a parte de organização, desde o Brasil até Assis. A experiência dura um mês, mas tem uma fase preparatória no Brasil de quatro dias. Ela começa por Roma e depois refaz os caminhos de São Francisco, em Assis, no Vale do Rieti, depois Santa Maria dos Anjos e termina no Monte Alverne. Só participam os religiosos, religiosas e OFS em fim a Família Franciscana. Agora, um frade da Província da Imaculada, Frei Marco Antônio dos Santos, é que vai assumir a coordenação da Assistência Espiritual.
Site Franciscanos – Como é a vida da Ministra Regional?
Maria Bernardette – A Fraternidade da OFS tem em vários níveis. É na fraternidade local, que é a célula-mãe, onde tudo começa. Depois vêm os Regionais, a Fraternidade Nacional e a Internacional. A Ministra Regional atende a uma Região, junto com um Conselho. Ela é a mãe que serve, que está a serviço da fraternidade. Nas 86 fraternidades, cada distrito tem um conselheiro, sendo que os distritos grandes têm dois e São Paulo tem três, pois na capital há 20 fraternidades. Eu viajo bastante, mas as Visitas Fraterno Pastorais e Capítulos Eletivos, os Conselheiros é que fazem, acompanhados de um Assistentes Espirituais. Em alguns casos, se necessário, eu é quem vou. Nós temos uma Conferência de Assistentes Espirituais, ou seja, um Franciscano, um Capuchinho, um Conventual e um Religioso da TOR.
Site Franciscanos – E quem é a franciscana Maria Bernardette?
Maria Bernardette – Eu costumo a marcar minha vida em duas etapas. Antes e depois de ser franciscana. Então, é realmente um projeto de vida que assumi. Isso requer muita renúncia, muito cuidado, porque temos família e a família é o principal. Mas também não é o mais importante porque para mim as duas coisas, a família e a Ordem, são de igual importância. Só que como secular, às vezes, preciso estar mais presente na minha família de sangue. Mas, hoje, uma das coisas que me segura na minha cidade é a minha fraternidade. Então, sou uma pessoa que procura, dentro das minhas limitações, viver esse projeto. Sou encantada pela espiritualidade franciscana e por São Francisco e Santa Clara. Aliás, por Santa Clara sou fascinada. Acho que são pessoas muito atuais. Em tudo que se vai fazer, nas mínimas decisões, parece que você tem ali um conselho deles, a presença, sabe, no fazer, no agir. Claro, que nem sempre a gente consegue, é muito difícil. Mas o ser franciscano no mundo hoje é um desafio muito grande, porém é maravilhoso. É você chegar no final de um dia, às vezes, e falar: “Meu Deus do Céu, eu agüentei porque sou franciscana!”. Acredito que quando Deus tira da gente alguma coisa muito grande, é porque Ele tem outra maior ainda para lhe dar. É só a gente esperar um pouco que enxerga isso. Foi isso que aconteceu comigo. Sou uma pessoa de vida simples, que gosta de estar junto da família e dos irmãos.
Site Franciscanos – Como a OFS comemorou os 800 anos do carisma franciscano?
Maria Bernardette – Eu posso falar pelo Regional. Nós fizemos um trabalho muito bonito. O Regional inteiro recebeu uma Cruz de São Damião, independente dessa que veio da Família Franciscana. Ela passou em todas as casas dos irmãos e irmãs, paróquias, comunidades e igrejas. Foi uma celebração muito intensa e uma animação vocacional muito forte, não só para a Ordem Terceira, como para a Ordem Primeira e TOR, que culminou com a nossa jornada franciscana em Aparecida, que teve como tema: “Com Francisco, vamos à casa de Maria celebrar a vida”. Foi uma caminhada que a Família Franciscana de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, fez de Guaratinguetá até a Basílica de Aparecida, onde celebramos a Missa, presidida por Dom Cappio. E depois, no mês de outubro, deu-se o encerramento com o Congresso Nacional da Família Franciscana em Brasília.
Site Franciscanos – Que mensagem deixaria para quem quer conhecer a Ordem?
Maria Bernardette - Eu diria para as pessoas que vale a pena conhecer a espiritualidade franciscana, a Ordem Franciscana Secular. Mesmo que não seja para ficar. Tem irmãos que professam e depois desistem, mas todos falam que a formação que tiveram é válida para sempre. Então, vale a pena a conhecer. É uma vocação, sim, mas acho que tudo precisa de um convite. Se eu não tivesse sido convidada, talvez eu tivesse perdido a chance, a “hora do chamado” passada. Por isso, faço um convite para que as pessoas que têm interesse, que não tenham medo, e venham nos conhecer. Vale a pena ser franciscano no mundo de hoje, com tudo que existe por aí, com todos os desafios. O Documento de Aparecida, fala do “discípulo missionário”, acho que a missão do franciscano secular, a nossa maior responsabilidade, hoje é com a vida. Promove-la e defende-la, em todos os seus aspectos. |