Por Moacir Beggo
Rodeio (SC) - Desde que foi ordenado presbítero, em 27 de janeiro de 1996, Frei Samuel Ferreira de Lima teve como primeiro desafio ser missionário em Angola, onde chegou em plena guerra civil. Depois de dez anos neste trabalho, totalmente despojado, Frei Samuel voltou em 2006 para ser guardião da Fraternidade do Postulantado de Guaratinguetá (SP), vice-mestre dos postulantes e moderador da Evangelização Missionária. No último ano também esteve envolvido com a construção do Centro de Apoio aos Romeiros no Seminário Frei Galvão. Durante Capítulo Provincial, em novembro de 2009, foi o primeiro Definidor a ser escolhido para compor o novo governo provincial. No final do ano, teve uma outra surpresa ao ser escolhido como Mestre de noviços. Durante a primeira profissão dos noviços, no dia 3/01, Frei Samuel foi apresentado pelo Ministro Provincial, Frei Fidêncio Vanboemmel, à comunidade de Rodeio.
Feliz com a nova missão, Frei Samuel acredita que para ser mestre não precisa de uma fórmula. Basta a graça de Deus. É assim que vai receber a nova missão do Ministro Provincial no próximo dia 12 de janeiro, quando serão admitidos sete jovens ao Noviciado para um ano de "provação".
Site Franciscanos - Que expectativas o sr. tem para este novo desafio em sua vida, como Mestre de Noviços?
Frei Samuel - Vejo como um aprendizado. Vamos caminhar juntos. É uma etapa muito desafiadora porque aqui é o berço da Ordem Franciscana, onde se dá início a estruturação da vida religiosa. No mundo moderno, isso precisa ficar bem claro: Qual é o fundamento da vida religiosa? Qual é o nosso papel como religioso? Qual é a nossa identidade? Então, cada um de nós vai trabalhar muito esta identidade do ser religioso franciscano ou do frade menor. Ou seja, trabalhar aquilo que é essencial para nós: a vida fraterna, a vida de oração, a dimensão dos votos, o sentido que isso tem na nossa vocação como homens de Deus. Vamos trabalhar essa dimensão, numa pastoral interna, para que cada jovem possa, no final do ano, decidir com clareza o que quer, sonha e busca. O verbo a se conjugar não é o fazer mas o ser. Ser homens de Deus, homens de fé, homens que se entregam totalmente na busca de Deus, no serviço aos homens ao modo de São Francisco.
Site Franciscanos - Falando deste trabalho, o fato de ser uma turma pequena neste primeiro ano ajuda muito, não?
Frei Samuel - Ajuda. A gente não tem fórmulas prontas. Você tem que ir descobrindo, tateando, percebendo diante das realidades que esses jovens trazem, muitos até de famílias fragmentadas ou de uma fé um tanto superficial, para aprofundar isso como elemento existencial. Isso exige uma atitude de escuta, tato, paciência, diálogo e trabalhar de forma lenta, como diz em Angola, "malembe malembe", devagar e sempre. Não precisa ter pressa e nem esperar resultados. Trata-se de uma busca, que a gente vai fazendo pouco a pouco, no dia a dia.
Site Franciscanos - O Sr. conhece os noviços?
Frei Samuel - Conheço os sete que vêm. Três foram meus aspirantes em Angola e quatro estiveram um mês em Guaratinguetá, antes do Postulantado ser transferido para Ituporanga (SC). Já tivemos um primeiro contato. Então, de certa forma, isso facilita tanto para eles como para mim. Já existe uma empatia entre nós. Isso vai ajudar muito. Num grupo pequeno, a formação precisa ser mais personalizada. Cada um responde de forma diferente a uma provocação.
Site Franciscanos - Você esperava ser escolhido Mestre?
Frei Samuel - Não. Até porque são feitas várias propostas até se compor todas as fraternidades no Congresso Capitular. Até então, eu havia sido indicado como Mestre do Postulantado na primeira etapa do Congresso e só na última houve a mudança. Ao mesmo tempo, vejo a mão de Deus. Desde que me ordenei, até o ano passado, minha vida foi sempre muito corrida, com muitos desafios: Angola, guerra, volta, envolvimento com a Missão. Foi muito desgastante o trabalho administrativo que tive no último triênio, principalmente num ano de crise que também afetou a Província. Você tem que fazer cortes, administrar isso e aquilo. Em Guaratinguetá, além de vice-mestre, era Moderador Evangelização Missionária, guardião da fraternidade e estava envolvido no desenvolvimento do Centro de Apoio aos Romeiros. Então, acolho esta nova fase como um grande retiro, para me recolher, me recompor, refletir e me repropor nesta busca. Nós, formadores, também precisamos de um tempo para nos recompormos. Nesse sentido, fiquei muito feliz. Eu vou fazer o noviciado também!
Site Franciscanos - Como o Sr. encara a falta de vocações? É uma crise?
Frei Samuel - Eu acho que não, porque Deus sabe das necessidades da sua messe. Olhando bem, não faltam vocações. Falta da nossa parte, como religiosos, uma proposição mais coerente, concreta. Falta empenho de nossa parte em acompanhar, envolver-se e direcionar o jovem, porque a promoção vocacional exige tempo, dedicação e cuidado. É preciso acalentar, visitar famílias, conhecer a história do jovem. Fazer um acompanhamento sério, verdadeiro, para que este jovem possa se descobrir em meio a tantas possibilidades que o mundo moderno oferece. E são tantas, que os jovens muitas vezes, ficam confusos. Qual o caminho que vou traçar? Nós precisamos de mais clareza, empenho para traduzir a nossa proposta. Muitos frades parecem que têm vergonha de propor o nosso ideal franciscano. Querendo ou não, hoje, o mundo é o da visualização da coisas. Se a gente não mostra o nosso modo de vida, não vai aparecer ninguém querendo vivê-lo. São Francisco, por si só, é a maior propaganda que temos. Ele encanta, é um homem desafiador. A vida franciscana é uma vida de ousadia, sempre se renovando, porque é caminho. Se temos essa perspectiva, vamos ter muitas vocações. Vejo que o problema também não está em números, mas em conseguir consolidar a perseverança. Se criarmos bases mais sólidas, claras, os jovens vão optar. E para sempre. Precisamos de fraternidades mais autênticas, mais proféticas, mais engajadas. À medida que o jovem encontra isso, ele se anima e permanece. Às vezes, parece que oferecemos uma propaganda enganosa, ao propor um ideal ao jovem e, depois, no concreto da vida, ele perceber que não é vivido, experimentado. Isso o desanima. Hoje, ele quer coerência, desafios. Precisamos também de outras frentes de evangelização, que sejam desafiadoras. Mesmo para nós, frades, porque estamos muito acomodados numa pastoral de manutenção e não numa pastoral que nos leve à conversão. À medida em que, como frades, sentirmos-nos desafiados, motivados, num processo de conversão, vamos atrair outros para caminhar conosco.
Site Franciscanos - O que é o Noviciado?
Frei Samuel - Se o compararmos com a vocação dos leigos, é como se fosse um noivado. É o tempo de conhecer o carisma de forma mais intensa. De experimentá-lo através da oração, da vida fraterna, da penitência, do trabalho, dedicando-se totalmente a Deus; de forma a fazer esse encontro pessoal, onde posso dizer como São Francisco: "É isso que eu quero, é isso que eu desejo de todo o meu coração". Muitas vezes, o noviciado tem esse aspecto de ser um grande retiro. Durante um ano, você se desliga, de modo extremado e intenso, do mundo externo. Aqui, você vai se concentrar e pensar o projeto religioso franciscano. Pensar no ideal que Francisco deixou para nós. Pensar a espiritualidade e se repropor nesta busca. Cada um vai ter que descobrir como viver esse ideal franciscano e como pode encarnar isso no mundo de hoje. Então, é um tempo de busca intensa, reflexão, confrontação consigo mesmo, com a fraternidade. É um tempo, não só de pensar como indivíduo, mas como grupo, como Ordem. Depois de das duas etapas da formação - aspirantado e postulantado -, chega-se agora à etapa da decisão. O noviço vai se preparar para emitir os votos. Eu quero viver como frade menor; eu quero viver a dimensão da pobreza, da obediência e da castidade. Na primeira profissão, começa a tarefa de se assumir como religioso. O estudo acadêmico é uma complementação dessa busca e serviço que vai prestar.
Site Franciscanos - Eleito Definidor também, com grande votação, como o Sr. vê o momento da Província hoje?
Frei Samuel - É um momento de esperança, de vontade de acertar, de mudanças, de se reencontrar e repropor a nossa caminhada. Muitas vezes ficamos presos ao passado grandioso da Província. Tudo bem! Mas precisamos ver o presente. O que é a Imaculada hoje? Ela é aquilo que cada um de nós é. Se cada um se predispor a fazer uma busca intensa de conversão, de ousadia, de esperança e alegria, em novos caminhos, isso vai trazer mudanças, que não serão miraculosas, mas gradativas. Muitas vezes ficamos presos ao sucesso do passado e esquecemos que tudo é graça de Deus. Deus está impelindo cada um de nós a buscar com mais intensidade, mais coerência. Não adianta só pregar, mas é preciso viver o que se prega. A sua vida tem que falar. Então, à medida que a nossa vida fala desse carisma, a nossa Província se renova. E a gente sentiu, no Capítulo das Esteiras, que a Ordem Franciscana espera muito da Imaculada, como uma Província que ainda sonha e busca. Eu sonho com uma Província mais ousada, mais profética e realmente protagonista. Na vida da Igreja, a vida religiosa sempre foi protagonista. Precisamos redescobrir isso na nossa pastoral, nos serviços, no atendimento ao povo de Deus. Ser essa luz.
Site Franciscanos - Deixe uma mensagem para os noviços e para aqueles que querem seguir a vida religiosa.
Frei Samuel - Olha, a vida religiosa franciscana é algo muito grandioso. Eu me sinto realizado e feliz. Digo para quem quiser viver esse caminho, que é um caminho árduo, desafiador, mas ao mesmo tempo enobrecedor, pois é pleno para o ser humano, seja como religioso ou como cristão. São Francisco conseguiu, reunir todas essas dimensões. Eu não consigo compreender como um franciscano possa dizer que não é feliz. No fundo, ele não descobriu o elã, o foco, o essencial do carisma. Porque o carisma, por si só, preenche todo o seu ser. É por este motivo que São Francisco transcende o catolicismo. Ele é um homem pleno. Quem quer buscar essa vida, tem que ter esse desejo. E se buscar com seriedade, vai se sentir realizado plenamente. Digo para quem está buscando, que o faça com seriedade e intensidade. Deus se revela àquele que busca em espírito e verdade. Se formos verdadeiros na nossa busca, Deus também vai conceder essa graça de nos realizarmos, de sermos felizes e fortes diante dos desafios. E com a alegria, própria do carisma franciscano. Quem tem Deus tem tudo. "Meu Deus e me tudo". Então, pode haver dificuldades, conflitos, mas nada disso consegue tirar a plenitude que Deus nos concede. Deixe-se conduzir por Deus e Ele vai revelar a força desse carisma aos que o buscam de verdade.
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