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Por Moacir Beggo
São Paulo (SP) - O pároco, reitor e guardião do Convento São Francisco, Frei Salésio Hillesheim, presidiu a celebração das 10h30 desta quarta-feira (11/08) durante as festividades do Dia de Santa Clara de Assis. Frei Salésio teve como concelebrantes Frei Antônio Andrietta e Frei Alvaci Mendes da Luz.
"Para suas irmãs, ela foi mãe. Para nós, ela nos inspira nos gestos e nas atitudes", disse Frei Salésio, lembrando antes que neste ano, a Ordem Franciscana e com ela muitos leigos no mundo inteiro, estão unidos no triênio jubilar para comemorar em 2012 os 800 anos de fundação do carisma clariano. Ou seja, há 800 anos, em 1212, ela deixava a sua casa e dizia: "Daqui para frente, eu pertenço não ao meu pai e à minha mãe, mas à humanidade toda, porque pertenço ao Senhor!".
"Então, em 2012, vamos celebrar os 800 anos desta vida maravilhosa de Clara, presente nos muitíssimos mosteiros do mundo inteiro, como falamos ao longo da novena neste Convento, onde o ideal de Clara é levado avante por muitas das nossas irmãs. E ao mesmo tempo este ideal está presente no mundo quando todos nós, de novo, vivemos aquilo que ela experimentou", disse Frei Salésio.
O reitor do centenário Convento São Francisco (no próximo dia 17 de setembro o Convento vai completar 363 anos), na verdade, enfatizou que a experiência contemplativa de Clara inspirou suas irmãs e também pode ser vivida fora do claustro. " Clara foi a mulher que escolheu a vida contemplativa mas não escolheu a vida solitária. Ela escolheu a vida contemplativa e a vida em fraternidade. Ou seja, em comunhão com as suas irmãs, porque todas estavam imbuídas de um mesmo ideal, da mesma força, de um mesmo vigor", acrescentou.
Frei Salésio questionou o individualismo de nossos dias. "Penso que a modernidade vive um pouco a religiosidade indidivualizada e individualista: `Eu preciso do meu Deus, eu quero, eu peço, eu suplico, assim por diante. Devagarzinho vamos até criando, em muitos momentos, a Igreja que é a minha. E vamos perdendo o senso do comum. O senso de que somos uma comunidade, e que não se vivem bem a vida cristã e o batismo se não estivermos inseridos numa comunidade", observou.
"Se não formos inseridos dentro de um lugar onde nós nos espelhamos nos outros e os outros se espelham em nós, é muito fácil a gente viver a religião, individualisticamente. O difícil é a gente viver a religião com os outros. Clara, aprendeu muito bem a fazer esta espécie de sintonia, com Deus, sim, totalmente absorvida em Deus, mas também totalmente dedicada à escuta da revelação de Deus nos outros. Isso que é viver a vida fraterna. Como é que Deus fala também nos outros e nas outras?", questionou.
Além das celebrações e do tradicional Bolo de Santa Clara, na Feira de Santa Clara no interior do claustro, havia o Pão de Santa Clara, receita dos frades do convento, e o Licor de Santa Clara, produzido por Frei Albino Gabriel. Havia barracas de artesanatos, biscoitos dos monges e uma lanchonete no Salão São Dâmaso.
Homilia
Eu gostaria de destacar três pequenos pontos do Carisma de Clara que podem nos servir para nós também, homens e mulheres, leigos ou religiosos, sacerdotes, bispos ou Papa, que estão neste mundo precisando, a cada dia, renovar o nosso fervor e o nosso amor. Encher nosso coração com aquilo que precisa novamente para ser renovado: a graça e a força de Deus.
Primeiro ponto: Clara foi uma mulher que aprendeu a considerar a vida como obra do Senhor. E, por isso, quando ela escreve o seu Testamento, a primeira lembrança que traz consigo e que deixa muito bem expressa para suas irmãs é o seguinte: Acima de tudo devemos dar graças ao Senhor, porque Ele foi bondoso para conosco, Ele cuidou de nós, Ele colocou no nosso coração a chama do ideal. Foi Ele quem fez com que nós aprendêssemos e descobrissemos que tudo o que o mundo oferece é importante, mas servir a Ele e darmo-nos a Ele é a melhor coisa e foi a melhor coisa do mundo. O testamento a gente não escreve no começo da vida; normalmente se escreve no final da vida.
Por isso, olhando para toda a sua vida, mesmo no meio dos sofrimentos pelos quais ela passou, em grande parte de sua vida, no seu corpo, na sua doença, mesmo olhando para tudo isso, teve um coração aberto para a bênção, para a gratidão e para o reconhecimento da bondade do Senhor.
Acho que nós não podemos viver bem a nossa vida sem termos um pouco desta atitude grandiosa e reconhecer, haja o que houver, o Senhor sempre é extremamente bondoso para com cada um de nós. Sempre, sempre!
E se a gente tiver esta atitude, muitas de nossas lamuriazinhas, muitas dificuldades de cada dia, vão passar para um segundo plano, porque vamos olhar a nossa vida sob o horizonte do Senhor e não sob o horizonte das nossas enxaquecas e das nossas "coisinhas de cada dia". Não! O Senhor é que nos chamou e nos colocou aqui para servi-Lo de todo o coração.
Este é um pensamento importante, sobretudo porque gostamos de ver a vida pelo lado negativo. Gostamos de ver a vida pelas suas dificuldades e não pelos desafios e pelo quanto o Senhor está presente no meio destes desafios.
O segundo ponto: Clara soube se retirar, se recolher. Ela era responsável pela construção da sua vida espiritual, mas também descobriu que não estava servindo ao Senhor para se proteger e defender dos outros. Clara foi a mulher que escolheu a vida contemplativa mas não escolheu a vida solitária. Ela escolheu a vida contemplativa e a vida em fraternidade. Em comunhão com as suas irmãs, porque todas estavam imbuídas de um mesmo ideal, de uma mesma força, de um mesmo vigor. Este Vigor com o qual elas olhavam para o seu Senhor e entravam em comunhão com Ele. Esse vigor inspirava a elas a entrarem também em comunhão umas com as outras, para poderem ali descobrir como o Senhor ia fazendo grandes coisas também no coração das outras companheiras.
Então, Clara é alguém que vai para o claustro, mas vai também para o coração de suas irmãs. É alguém que opta para viver a sua vida em fraternidade. Em comunhão com os outros. Penso que a modernidade vive um pouco a religiosidade indidivualizada e individualista: "Eu preciso do meu Deus, eu quero, eu peço, eu suplico, assim por diante. Devagarzinho vamos até criando, em muitos momentos, a Igreja que é a minha. E vamos perdendo o senso do comum. O senso de que nós somos uma comunidade, e que não se vive bem a vida cristã e o batismo se não formos inseridos numa comunidade. Se não formos inseridos num lugar onde nos espelhamos também nos outros e os outros se espelham em nós. É muito fácil a gente viver a religião, individualisticamente. É muito difícil viver a religião com os outros. Clara, aprendeu muito bem a fazer esta espécie de sintonia com Deus, sim, totalmente absorvida em Deus, mas também totalmente dedicada à escuta da revelação de Deus nos outros. Isso que é viver a vida fraterna. Como é que Deus fala também nos outros e nas outras?
Terceiro ponto: Não construimos nada de verdadeiramente cristão se não for a partir da Palavra. Somente a partir da Palavra do Senhor descobrimos o valor dos sacramentos. Ele pode não estar tão visível aos nossos olhos mas podemos sentir sempre pelo nosso coração, pela nossa vida, que o Senhor não nos abandona.
Em muitos dos momentos que Clara e suas companheiras se sentiram, sobretudo, ameaçadas, a grande mensagem de Clara foi sempre esta: devemos confiar no Senhor. Ele nunca nos abandonou e também, diante dos inimigos, não nos abandonará. O Senhor é mais forte do que nós. Não adianta querermos substituir as decisões dele. É importante que a gente deixe o Senhor tomar as decisões em nosso lugar e a favor de nós. Mas para isso precisamos ter essa clareza de que a sua Palavra é mais do que tudo. E se Ele sempre de novo foi fiel, também será fiel agora.
O santo, santa, é alguém assim completamente desarmado e livre. Sabe que o Senhor, Deus bondoso, está com ele, está com ela, e por isso é o Tudo de suas vidas.
Que Santa Clara nos ajude a vivermos assim o nosso jeito de ser cristão, discípulo, missionário! |