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Marcelo Barros (1)
A missão de uma pessoa religiosa é ser testemunha da presença divina no mundo. Se existe Deus, quem crê falar em seu nome deve atuar para que este mundo se transforme de acordo com o seu projeto de amor. Quando por vários motivos, quem crê em Deus está sentindo dificuldade de ser para a humanidade sinal de esperança, é bom recordar como esta profecia foi forte em uma pessoa como Dom Hélder Câmara, bispo e profeta latino-americano, cuja memória muitos grupos que trabalham para transformar o mundo lembram neste mês de agosto. “Não deixe cair a profecia” foram as últimas palavras que escutei, pessoalmente, de Dom Hélder, no dia 07 de agosto de 1999, quando o visitava na sua pequena casa, nos fundos da Igreja das Fronteiras, no Recife, exatamente vinte dias antes da sua partida. São estas palavras que, agora, cinco anos depois do seu falecimento, reúne em Goiânia muitas pessoas que aceitam o apelo para serem profetas e profetizas da paz e da justiça no mundo.
No Recife, este quinto aniversário da Páscoa de Dom Hélder será comemorado com uma Semana de Reflexão sobre a herança que ele deixa para a Igreja e o mundo. Em Goiânia, faremos uma noite de “memória” na 3a feira 17, quando será apresentado o novo filme da cineasta Érika Bauer: “Hélder Câmara: Não deixe cair a profecia”. Para comentar o filme, além da própria cineasta, teremos uma conversa com o bispo Dom Tomás Balduíno e com o pastor metodista Fred Morris, secretário do Conselho das Igrejas dos Estados Unidos para o contato com a América Latina.
Estas comemorações nos recordam a profecia de Dom Hélder e o apelo a atualizá-la em nossas vidas. Para todos, a convocação de sua voz quente e vibrante ainda ressoa: “Deus deu ao ser humano o poder e a responsabilidade de não se conformar com o sofrimento e com a dor do inocente, mas de combater o mal e a injustiça. Esta é a tarefa de todos nós” (2) .
Para crentes e não crentes, é urgente recordar quatro elementos desta profecia:
1 – Qualquer ser humano só pode ser verdadeiramente feliz no dia em que o mundo for um só e justo para todos.
Desde que Dom Hélder peregrinou pelo mundo todo afirmando esta profecia da inclusão, o mundo piorou muito. As injustiças se agravaram, fazendo com que os países do norte triplicassem sua riqueza, enquanto o sul explorado e roubado afunda na fome e na miséria. Os Estados Unidos e a Europa Ocidental erguem novos muros de discriminação e isolamento do mundo dos pobres. Dentro de nosso próprio país, a diferença entre pobres e ricos tem se agravado. É, então, urgente nos pronunciar sobre o grito que ele nos repete ainda hoje: “Nenhuma felicidade pode basear-se na infelicidade dos outros, porque ofenderia o sentido de justiça que diz respeito a todos”.
2 – O apelo a nos constituirmos como “minorias abraâmicas”.
O mundo não mudará pela ação isolada de líderes esclarecidos e sim pelo empenho comunitário de grupos de resistência e de profecia que se consagrem a transformar o mundo a partir de uma profunda convicção de fé no ser humano e na vida. Estes grupos que não precisam ser multidões e podem mesmo ser minoritários na sociedade (Dom Hélder os chamava minorias abraâmicas) são fecundos fermentos de uma humanidade nova. Só neste caminho de humanização, tem sentido falar em fé cristã para as pessoas que querem crer e viver o Evangelho.
3 – O compromisso com a Paz e a não-violência.
A transformação do mundo começa pelo nosso compromisso com a Paz, através de um método de vida que elimine qualquer violência em nossa forma de ser e de agir.
Dom Hélder vivia isso profundamente. Sempre conviveu com pessoas que discordavam de seu pensamento e nunca os agrediu ou se valeu do fato de ser arcebispo para removê-los de suas paróquias ou cargos eclesiais. Mas, sua opção pela não-violência não o levava a ser menos forte na defesa da justiça. Diante de qualquer violência contra um pobre, ficava profundamente revoltado. Uma vez, acolheu para dormir em sua pequena casa uma prostituta que fugia de um homem que queria agredi-la e um menino de rua que fugia de policiais que batiam nele. Outra vez, interviu em um conflito de rua no qual um policial agredia uma criança de rua. Por isso teve de responder como réu em um tribunal por desacato à autoridade (....).
4 – O compromisso com o macro-ecumenismo.
Este termo foi proposto por outro irmão de Dom Hélder no episcopado, o também profeta dos pobres, Dom Pedro Casaldáliga.
O macro-ecumenismo é mais do que o diálogo inter-religioso porque busca a comunhão das religiões e também das culturas diferentes na construção da justiça e da paz. A base deste caminho espiritual é o reconhecimento da presença e ação do Espírito Divino em todas as culturas e em todas as pessoas. Dom Hélder provocou este caminho quando, desde que chegou a Recife como bispo, visitava as comunidades afro-descendentes e se fazia amigo de sacerdotes e sacerdotisas da religião dos Orixás.
Em 1970, ele participou da Conferência das Religiões para a Paz, em Kyoto no Japão. Ali, convocou líderes e representantes das mais diversas tradições espirituais a dar juntos o testemunho do serviço aos excluídos e a contemplar o rosto de Deus em todos os seres humanos.
É preciso que, ao celebrar agora a sua memória, nos sintamos convocados/as de novo para este mutirão de esperança e solidariedade tão urgente no mundo. Em 1994, Dom Hélder mandava esta mensagem ao movimento italiano Mani Tesi (Mãos Estendidas): “…não estamos sós. Por isso, não aceito nunca a resignação nem o desespero. Um dia, a fome será vencida e haverá paz para todos. A última palavra neste mundo não pode ser a morte mas a vida! Nunca mais pode ser o ódio, mas o amor! Precisamos fazer com que não haja mais desespero e sim esperança. Nunca mais vençam as mãos enrijecidas contra o outro e sim o que o movimento de vocês valoriza: Mãos estendidas! Unidas na solidariedade e no amor para com todos”.
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(1) Marcelo Barros, monge beneditino e autor de dezenas de livros, entre eles "O Espírito vem pelas Águas". Ed. Rede-Loyola, 2003. Texto disponível em: http://www.adital.org.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=13408 Acesso: 23/09/2008.
(2) HÉLDER CÂMARA, Interrogativi per vivere, Cittadella 1984
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