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UM BRASIL MAIS IDOSO
A população brasileira está envelhecendo. Já são quase 21 milhões de pessoas com mais de 60 anos. A proporção de brasileiros idosos aumentou 5,7% em 2008 em relação a 2007 e cresceu mais de 23% nos últimos dez anos. No outro extremo, houve uma queda de 22,6% na proporção de crianças de até quatro anos desde 1999. Na comparação entre 2008 e 2007, a redução foi de 1,4%. Os dados foram revelados pela Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Um outro estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado em novembro do ano passado, aponta que a população brasileira passará de 190 milhões em 2008 para 200 milhões de habitantes em 2039/2040, e então começará a diminuir. Em 2050, seremos 215 milhões de brasileiros, o que leva ao envelhecimento: a idade mediana será de 46 anos. |
Por Moacir Beggo
São Paulo (SP) - Na rua Japurá, no bairro Bela Vista, um velho casarão, em estilo neoclássico, acolhe o Centro de Convivência e Apoio ao Idoso, uma obra social do Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras). Incansavelmente, à frente deste projeto está a assistente social, Irmã Margareth Crispim, religiosa da Congregação Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição. Sua missão é lutar para manter a dignidade de um grupo de idosos e idosas, com predominância de mulheres. Ao mesmo tempo, Irmã Margareth trava uma outra batalha, esta mais difícil: contra o câncer.
Há dois anos, seu mundo desabou quando teve a notícia de que os tumores nos seios eram malignos. “Foi como se abrisse a terra à minha frente”. Mas ela não se entregou e, buscando forças na fé, superou três cirurgias e a quimioterapia inicial e fez do trabalho uma terapia para vencer mais esta luta.
Antes de passar por uma sessão de radioterapia, na manhã desta segunda-feira (23/03), esta potiguar, natural de Natal, deu esta entrevista, onde falou sobre o Centro de Convivência e a situação do idoso no Brasil. Para ela, o idoso está abandonado e poucos conhecem os seus direitos e o Estatuto do Idoso. Acompanhe!
Site do Sefras – A sua Província tem sede em Salvador e Belém. Como conheceu e veio trabalhar no Sefras?
Ir. Margareth – Foi através de Frei Johannes Bahlmann, que é parente de nosso fundador, D. Amando Bahlmann. Em 2005, ele estava precisando de uma assistente social no Albergue São Francisco e eu me apresentei. Fiquei lá por dois anos. Foi uma experiência difícil e desgastante, já que o Albergue acolhia diariamente mais de 500 pessoas em situação de rua. As políticas sociais neste país não são contempladas e quase sempre nos deixam de braços atados. Você sabe que existe uma lei, mas essa lei não é cumprida. Não há retorno do trabalho.
Site do Sefras – Quando você descobriu o câncer?
Ir. Margareth - Em 2008. Estou ainda na radioterapia porque tive primeiro em uma mama e depois na outra. No começo, fiz quimioterapia e depois radioterapia, que é mais suave, só deixa uma vermelhidão na pele.
Site do Sefras - Como foi receber uma notícia dessas?
Ir. Margareth - A gente nunca pensa que vai ter essa doença. Você escuta falar que fulano ou sicrano teve, mas pensa que nunca vai chegar a você. Estava há um mês na Casa de Clara. Frei José Francisco queria que montasse o serviço social neste projeto. Receber a notícia foi um impacto muito grande. Foi como se o chão tivesse aberto e você desaparecesse ali. A sensação inicial é de morte, porque a gente convive o tempo todo com alguns mitos: doença que não tem cura; vive-se pouco tempo etc. E não é assim. Com o tempo, vai se descobrindo que, dependendo do tipo de tumor, existe tratamento. Mas sempre pensei assim: não sou privilegiada por ter esta doença. Tenho fé, eu acredito. E fui atrás dos meus recursos. Minha família não estava aqui e tinha a companhia de duas irmãs religiosas em São Paulo. Mas graças a Deus vi que tenho muitos amigos que me ajudaram e estão ajudando. Minha Província queria me levar para Belém, mas disse não, pois São Paulo é o melhor local no Brasil para o tratamento. Fiz três cirurgias e tratamento no SUS. Agora, estou no convênio da Província da Imaculada.
Site do Sefras – Nesse tempo se afastou do trabalho?
Ir. Margareth – Não. Disse: tenho que correr atrás da vida. Se ficar em casa, chorando, vou morrer rapidinho. Tenho que trabalhar. Nunca tirei licença de saúde. O trabalho para mim foi uma terapia. Cabeça ocupada manda no corpo. Nunca entrei em depressão, já que pelos relatos de outras mulheres, a primeira reação é depressiva. Acho que a religião é um fator importantíssimo na questão da doença, porque dá um equilíbrio. O fato de eu ser religiosa me ajudou muito.
Site do Sefras - Como funciona o Centro de Convivência e Apoio ao Idoso Casa de Clara?
Ir. Margareth – A Casa de Clara tinha várias demandas, como o trabalho com o idoso, crianças, mães gestantes etc. Mas não era um trabalho feito por técnicos. Então, o responsável pelo Sefras, Frei José, pediu que começasse o serviço social e desse o foco somente no idoso. A primeira coisa a ser feita quando chegamos aqui foi reunir todos os voluntários, funcionários e pessoas que estavam ligadas ao projeto para pensar o queríamos dali para frente. Primeiro passo foi fazer um projeto, depois implantar e organizar espaços, uma vez que o idoso precisa ter acesso com facilidade aos espaços. Segundo dados do IBGE, o Brasil já tem 21 milhões de pessoas idosas e em 2025 seremos o sexto país mais populoso de idosos. Diante disso, o que a sociedade está fazendo para acolher esses idosos? Quais são as políticas sociais de hoje visando este futuro próximo? Se não se trabalhar isso agora, a sociedade vai ter um problema grave lá na frente. Por isso, esse Centro de Convivência, onde a pessoa vem e passa o dia todo, fazendo refeições, atividades e convivendo com outras pessoas, trabalha para que o idoso cresça humanamente.
Site do Sefras - De onde vêm os idosos atendidos?
Ir. Margareth – O Centro atende o idoso de baixa renda ou em situação de rua. Ele vem de uma situação de vida bem difícil, porque na sua casa, está abandonado. Para a família é um “peso morto”, porque ele não contribui mais para aquela família, mesmo tendo o dinheirinho da aposentadoria. Ele está ali com esse dinheiro, mas está dando trabalho. A conseqüência é a depressão, solidão, a violência... Existe uma violência física muito grande contra esse idoso. Por isso, o Centro ajuda muito, pois se não conseguem mudar a situação familiar, aqui têm outra cabeça, outra mentalidade. Ao passarem o dia convivendo com outros idosos, tendo uma relação de amizade, produzindo alguma coisa, recebendo por aquilo que produzem, eles se sentem valorizados, acolhidos e queridos.
Site do Sefras - Existe um dado de que, na família, 80% dos maus tratos ao idoso acontecem dentro de casa. É isso mesmo?
Ir. Margareth - Sim. Temos alguns idosos que vêm com marcas e cicatrizes. Eles nos procuram, mas não querem que a gente tome uma iniciativa de se buscar solução. É o filho, a filha, o marido que promovem essa violência. Tivemos um caso de uma mãe com um filho dependente químico. Conseguimos uma moradia para essa senhora, porque num primeiro momento ela queria sair de sua casa. A Prefeitura tem um projeto onde você paga uma quantia por uma casa. Ela chegou a ir com a gente na Prefeitura, mas depois voltou atrás. Respeitamos a sua decisão. Nosso papel é orientar e mostrar os seus direitos e onde buscar ajuda em caso de violência, como o Conselho do Idoso, a Delegacia do Idoso, etc. No início, revoltam-se, mas o filho pede perdão e tudo volta a ser como antes.
Site do Sefras – Quantos estão inscritos?
Ir. Margareth - Temos 100 cadastrados. Isso não quer dizer que os 100 frequentem diariamente o projeto. É preciso levar em conta a sua situação. Às vezes, fica uma semana sem vir, devido a uma consulta médica, a um neto precisando de sua companhia etc. Mas são pessoas comprometidas, que não deixam de ligar e avisar que não podem vir.
Site do Sefras - Há mais centros de convivência na rede municipal?
Ir. Margareth – Pouquíssimos para idosos. Há mais para crianças e adolescentes. Este tipo de trabalho que fazemos aqui, se não me engano, existem somente 3 ou 4 em São Paulo. Há centros de referência, que oferecem uma atividade durante uma hora apenas. É diferente de um centro de convivência, onde têm um acompanhamento integral.
Site do Sefras - Qual é o objetivo de se promover a Semana da Mulher Idosa?
Ir. Margareth – O objetivo é esclarecer, conscientizar e ajudar a pessoa. Desta vez com o tema sobre "prevenção e cuidado", ajudar a descobrir a doença antes que seja tarde demais. Há muita coisa ainda relacionada à mulher idosa que é tabu. Muitas não fazem o exame de toque, porque cresceram numa realidade em que não se tocava o próprio corpo. Mostramos, através de especialistas, que ao fazer a prevenção, fica mais fácil a cura da doença.
Site do Sefras – Há outras iniciativas?
Ir. Margareth - Temos aqui, uma vez por mês, o Dia da Cidadania. Nesse dia trazemos profissionais de várias áreas, especialmente da saúde, previdência, Estatuto do Idoso, para ajudá-los no que precisam.
Site do Sefras - Como está a situação do idoso no Brasil?
Ir. Margareth - O idoso está abandonado. As políticas sociais não atendem a essa demanda. Parece que o idoso não existe. Tem o Estatuto do Idoso que está aí, mas ninguém o conhece. Os próprios idosos não têm informações desse instrumento, que legaliza muita coisa para eles. Aqui, na Casa de Clara, o grupo discute e conversa sobre o Estatuto. Temos um representante no Conselho do Idoso também.
Site do Sefras - Aceitar a velhice é um dos maiores desafios para as pessoas, por conta da discriminação que existe. O que fazer para ajudar?
Ir. Margareth - É um fenômeno mundial. A sociedade não está se preparando para isso. Pouco se investe porque o idoso vai morrer. É uma coisa paliativa. O Sefras está olhando para o futuro ao ter assumido esse trabalho com o idoso. Ou seja, estamos nos preparando para cuidar bem dos nossos idosos.