Nos dias 18 e 19 de agosto, o Movimento Nacional da População de Rua – MNPR realizou, no Vale do Anhangabaú, Centro de São Paulo, o Dia Nacional de Luta da População de Rua. O objetivo da manifestação foi denunciar a violência que diariamente a população de rua sofre nas abordagens, principalmente, realizada pela Guarda Municipal Metropolitana – GCM e também, o sete anos do massacre de 2004, quando sete moradores de rua foram brutalmente assassinados no Centro de SP e o crime até hoje ficou impune.
A programação do Dia de Luta começou na noite do dia 18 de agosto, com celebração ecumênica na escadaria da Catedral da Sé, cujo tema foi: “Venha acender uma luz com o povo da rua” e em seguida um acampamento realizado no Vale do Anhangabaú, quando pessoas em situação de rua e organizações sociais passaram a noite, a fim de perceberem as dificuldades de quem dorme nesta condição e as abordagens que sofrem da polícia durante a madrugada. No dia seguinte, com o tema: “Somos um povo que quer viver”, o MNPR em parceria com outras organizações realizaram o ato público com o lema: “Basta de violência contra população em situação de rua, queremos políticas públicas”. Anderson Lopes do MNPR abriu o ato lembrando o massacre de 2004 na Praça da Sé e algumas conquistas alcançadas na luta em defesa da população de rua, mas com relação à justiça nada aconteceu. “Tivemos vários massacres em nosso país. Só ano passado tivemos 32 companheiros em situação de rua mortos”, lembrou.
Padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, contou que durante a madrugada, quando as pessoas estavam acampadas, quatro carros da GCM rondaram o acampamento querendo saber o que o grupo acampado estava fazendo. “Só que nós não podemos perguntar, por que eles continuam jogando água em cima do povo da rua, tirando os documentos e tiram, com violência e truculência”, denuncia Lancellotti.
Para Daniel Gomes - pessoa em situação de rua - participar do ato é demostrar para as pessoas que, quem está nesta situação são seres humanos e existem. “A gente veio reivindicar a nossa segurança. Não estamos tendo segurança e proteção, principalmente, da polícia e da GCM”, contou.
A coordenadora do Fórum de Assistência Social, Nazaré Cupertino, afirmou que a população de rua ainda não é reconhecida pela sociedade como vítima. “Vítimas da violência policial, vítimas da violência do Estado que não disponibiliza políticas públicas de qualidade pra gente. Vítimas porque apanhamos e somos maltratados sejam nos equipamentos sociais, de saúde e de educação”, enfatizou.
O Senador da República, Eduardo Suplicy, presente no Ato, homenageou os mortos no massacre de 2004 e aproveitou para explicar o novo programa da presidente Dilma Roussef “Agora a principal faxina que se fará no Brasil, é a faxina contra a miséria para acabar com toda a situação que haja pessoas em condição de pobreza extrema”. Um morador de rua, presente no ato ao falar no microfone expressou: “ o governo liberou a verba de mixaria de 70 reais para o trabalhador. Isso não é o suficiente é muito pouco. Não é isso que a gente quer. A gente não quer 70 reais, a gente quer emprego e respeito”.
O representante do MNPR, Anderson Lopes fala que ainda se insiste em Atos Públicos como esses porque ainda há injustiça, violência e preconceito velado da sociedade que não quer ver ninguém dormindo na sua porta. “A gente precisa sensibilizar essa sociedade porque não é com violência e chamando a policia e sim, cobrar do prefeito, governador e presidente, políticas públicas”. Kelly Cristina está em situação de rua e conta que no cento de São Paulo é difícil de sobreviver. “A polícia vem, chuta, agride. Você está mostrando o documento e eles estão te tratando com mendigo e vagabundo”. Ela ainda reforça que, “o povo da rua tem direito a moradia, a tomar um banho, a higiene pessoal, a café da manhã, almoço, a igualdade. O direito de viver”, concluiu.
O massacre de 2004 foi acompanhado pelo Ministério Público Federal quando se chegou à denúncia de cinco policiais suspeitos de serem os autores do assassinato dos sete moradores de rua. Três deles foram presos pelo crime, mas por falta de provas foram liberados no mesmo ano.
O Dia de Luta da População em situação de rua é organizado pelo Movimento Nacional da População de Rua e conta com o apoio do Fórum Permanente de Acompanhamento de Políticas Públicas, do Fórum das organizações que trabalham com a População de Rua, Fórum de Assistência Social – FAS, Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo e Sindicato dos Comerciários de SP.