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O Sefras e a missão evangelizadora da Igreja
Frei Sandro Roberto da Costa
A tradição “social” da Igreja
Desde as suas origens, a Igreja desenvolveu um trabalho eficiente de auxílio aos pobres, englobado naquilo que costumamos chamar de “caridade”. Podemos citar, desde os primórdios da história da Igreja, a preocupação dos bispos, padres e monges, em dar alimento aos famintos em época de guerra e carestia. Vários são os Padres da Igreja que se destacam por sua intensa atuação social, esforçando-se por minorar o sofrimento dos irmãos, ao mesmo tempo em que denunciam as injustiças. Na Idade Média podemos destacar a atenção aos romeiros pobres nas rotas das peregrinações, além da fundação de hospitais onde os menos favorecidos podiam encontrar alívio para suas dores. No Brasil-colônia merece destaque a fundação das Santas-Casas de Misericórdia, além de outras iniciativas de caráter assistencial organizadas por leigos, membros das Ordens Terceiras, com o apoio da Igreja. No século XIX, na época da “Revolução Industrial” uma série de movimentos de assistência, a maioria liderados por leigos católicos, vai tentar dar respostas ao sofrimento das massas de trabalhadores explorados nas fábricas da Europa. Ponto culminante deste processo foi a encíclica Rerum Novarum, do papa Leão X, (1889), que inaugurou o que se denominou Doutrina Social da Igreja. Hoje, na maioria de nossas paróquias existem as “pastorais sociais”, que muitas vezes se reduzem a dar as “cestas-básicas” aos pobres.
A ação social, historicamente falando, sempre foi parte integrante da ação evangelizadora da Igreja. A vivência do Evangelho tem implicações sociais concretas. Nas últimas décadas foi se desenvolvendo na Igreja a consciência de que, mais do que um mero “assistencialismo”, é parte de sua missão responder aos anseios mais urgentes das pessoas por vida, por dignidade. Uma das formas mais eficazes, urgentes e necessárias de evangelização no mundo contemporâneo é oferecer às pessoas meios eficazes para que sejam construtores de sua própria dignidade, para que sejam sujeitos de sua própria libertação.
A ação de Jesus
O Evangelho de Jesus de Nazaré e a pessoa e a vida de Francisco de Assis são os dois referenciais de inspiração para a ação social dos franciscanos. Jesus de Nazaré, um camponês pobre, na sua atuação em favor dos pequenos e sofredores, dos doentes, pecadores e marginalizados, anunciou a possibilidade de um mundo diferente. Na sua ação Jesus não se limitava a oferecer algo. Daquele que recebeu o dom era exigido uma tomada de atitude (“vai e não peques mais” diz ele à mulher adúltera quando a perdoa). Assim, a Boa Nova não consistia apenas em dar o imediato necessário, mas em levar aos que o recebessem a uma mudança de atitude, transformando a própria realidade. A ação de Jesus visava à pessoa inteira, integral: não era apenas a cura de um mal físico determinado, mas resultava na reintegração plena da pessoa na sociedade. A salvação oferecida, a realizar-se em plenitude no futuro, começava aqui, no cotidiano da vida.
A resposta de Francisco de Assis
Na sua imensa paixão por Jesus de Nazaré, a ponto de ser denominado “um outro Cristo”, Francisco percebeu as profundas contradições que marcavam a sociedade de seu tempo, e deu uma resposta concreta e eficaz. Na pessoa do pobre, do leproso, Francisco encontrou-se com o próprio Cristo. Na sua vivência radical do Evangelho, Francisco percebeu que a situação de sofrimento e miséria a que eram submetidos os pobres de seu tempo eram os frutos amargos do egoísmo, da injustiça, da exploração e opressão dos mais fortes sobre os mais fracos. Ora, fazendo a experiência do imenso amor de Deus na sua vida, e partindo do anúncio de Jesus de que todos somos filhos do mesmo Deus que é Pai, e por isso somos irmãos, o Pobre de Assis percebeu o quanto a sociedade estava distante desse ideal. Por isso o anúncio mais forte e característico de Francisco é a Fraternidade: somos todos irmãos e irmãs, não apenas homens e mulheres, seres humanos, mas todo o Ser criado e toda a criatura, todo o cosmos: animais, plantas, água, sol, lua, estrelas. Toda a vida de Francisco de Assis, sua pregação, seus gestos, consistiram em anunciar a fraternidade, em re-criar os laços que unem homens, mulheres e toda a criação. Francisco fez um imenso esforço de re-conciliar o mundo entre si e com Deus. Num mundo dividido em castas, entre ricos e pobres, entre nobres e plebeus, entre puros e impuros, Francisco mostrou que o que verdadeiramente importa é o amor. E este amor é concreto: é a capacidade de ir ao encontro do outro, amá-lo concretamente e sem preconceitos, como ele fez com o leproso. É ajudar o irmão a superar suas limitações, fazê-lo acreditar em si mesmo, dando-lhe condições de crescer integralmente. A ação social, baseada no Evangelho e inspirada na vida e exemplo de Francisco de Assis é uma resposta válida e adequada aos desafios da evangelização no mundo contemporâneo.
Ação social e evangelização no século XXI
Os franciscanos têm como missão viver e anunciar o Evangelho. Ora, esse anúncio é historicamente situado, a partir de um contexto histórico, político, social, concreto. O modo de anunciar o evangelho no século XXI não pode ser o mesmo de cinco décadas atrás. O mundo mudou, transformações tremendas aconteceram na sociedade nos últimos 50 anos, e continuarão acontecendo num ritmo cada vez mais acelerado. Desafios que exigem respostas urgentes surgem a cada dia. O conteúdo do que deve ser anunciado não muda, mas a linguagem do anúncio tem que ser adaptada ao contexto em que a Igreja está inserida. No tempo de São Francisco, os frades iam pregando de cidade em cidade, ou então pregavam enquanto trabalhavam, nos campos, nos olivais, nos vinhedos, nas viagens pelas estradas, sempre muito próximos aos pobres, aos marginalizados, aos “descartáveis” da sociedade, para usar uma expressão do Documento de Aparecida.
Hoje, com raras exceções, não encontramos mais estes pobres nos olivais, nos vinhedos ou nos campos e roças. O mundo onde estamos inseridos é “selvagemente” urbano. Os pobres do século XXI estão nas cidades, dormindo embaixo dos viadutos, pontes e marquises, expulsos do mundo rural pelo agronegócio, vivendo em volta de nossas paróquias, nos cortiços ou nas favelas das periferias, às margens dos córregos que transbordam na época das chuvas, ou nas encostas dos morros que desabam. Não resta dúvida de que, fiéis ao espírito de Francisco de Assis e ao Evangelho, é a essas pessoas que os frades são enviados em primeiro lugar, é nesses lugares que devem fazer-se “presença”. E qual é a realidade concreta em que vivem estas pessoas? Citemos apenas alguns problemas: a falta de perspectivas para os jovens, fazendo-os presas fáceis do tráfico; a manipulação dos mais pobres por determinados grupos políticos e religiosos; a violência contra mulheres e crianças; a falta de esperança de um futuro melhor para pais e mães de família em situações limites de desemprego ou subemprego; a falta de condições mínimas de moradia digna, de higiene, de saúde, de saneamento, de educação; o grave problema ecológico.
Sem dúvida grande parte das pessoas que vivem essas situações-limite não freqüentam as paróquias e igrejas católicas. Para esse público, o discurso teológico da redenção, baseado em dogmas, doutrinas e cânones, muitas vezes soa extremamente teórico, abstrato, que exigiria condições mínimas de conscientização, educação e segurança social para que fosse entendido, interpretado e vivenciado. De que modo então podemos anunciar a Boa-Nova a estas pessoas?
Ora, o cerne da mensagem de Jesus (Evangelho) é o anúncio de Vida para todos, vida de qualidade e vida em abundância. Não apenas vida biológica, que significa respirar, comer, beber. As pessoas que entraram em contato com Jesus encontraram um novo sentido para suas vidas. Uma ação social que seja verdadeiramente comprometida com o Evangelho tem que se esforçar por desenvolver essa vida, de todos os modos e em todos os seus aspectos. Isso significa preocupar-se com a promoção da vida biológica, mas inclui também formar para os valores, para a atuação ética, solidária, fraterna, responsável, para a consciência política, para a consciência e defesa dos próprios direitos, para a cultura, para o cuidado com todas as coisas e com toda criatura.
A ação social, do modo como é pensada e organizada pelo Serviço Franciscano de Solidariedade é uma forma concreta, atual e eficaz de responder, de modo criativo, aos desafios da evangelização no século XXI, pois busca resgatar o ser humano inteiro, integral, não apenas no aspecto religioso, mas oferecendo condições de construir sua dignidade, fazendo-o protagonista, sujeito de sua própria história.
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