Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012

Quem é meu próximo?

Frei Regis Daher, OFM

O Sefras - Serviço Franciscano de Solidariedade – é uma forma coletiva e organizada de responder aos apelos evangélicos que nascem de diferentes leituras; a primeira delas, da própria palavra de Jesus Cristo. Hoje, esta palavra ganha corpo e feições naquelas situações em que o ser humano está mais desfigurado, excluído de sua dignidade pessoal e nos seus direitos fundamentais, como parte que é da sociedade. A partir do Concílio Ecumênico Vaticano II, a Igreja entendeu que nestas situações, Deus continua a nos falar através do sinais dos tempos. Os fatos e acontecimentos, no desenrolar da história e do tempo, são apelos que pedem uma leitura a partir de um novo olhar e nova sensibilidade.

No evangelho de São Lucas (Lc 10, 25-29) há um episódio – na realidade um diálogo tenso – entre um especialista da Lei (um doutor) e Jesus, e que pode iluminar a compreensão da fé e da prática religiosa, como aprendizado de leitura para um novo tempo de sinais.

A primeira pergunta se refere ao agir que permite entrar na vida eterna. Hoje diríamos: Como podemos viver na terra, como cidadãos do céu? Jesus não lhe dá a resposta, mas o interroga com duas perguntas (v.26). Muito significativa é a segunda pergunta de Jesus: Como você lê? O doutor conhece muito bem o coração da Lei, os dois mandamentos que resumem toda a Escritura. Mas ao que parece, faltava-lhe passar do conhecimento para a prática. É esta a leitura que Jesus lhe coloca como condição: Faça isso, e viverá! (v.29).

  29 Mas o especialista em leis, querendo se justificar, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?».

Novamente, em vez de dar uma resposta direta e objetiva, Jesus imagina uma situação e conta uma história, a do bom samaritano (cf. Lc 10, 30-37). Um mesmo fato numa mesma situação humana (um homem assaltado, espancado, quase morto à beira do caminho), visto por três olhares (leituras) distintos (um sacerdote, um levita e um samaritano), com duas atitudes diante do fato bruto (os dois primeiros, viram e passaram adiante, pelo outro lado; o samaritano chegou perto, viu e teve compaixão).

Na atitude diferencial do samaritano, a primeira ação é a de aproximar-se, em contraste com o “passar adiante, pelo outro lado” dos outros dois personagens. Em seguida, viu o estado do homem. Porque aproximou-se foi capaz de ver o que os outros temiam ou se recusaram a ver. E, por fim teve compaixão. Jesus não descreve apenas um mero sentimento de dó e piedade, mas em nove iniciativas concretas de auxílio (vs. 34 e 35) ensina que a compaixão é uma prática, é socorro imediato porque a dor e o sofrimento são reais, não são teorias. Por isso não podem esperar. Só quem se coloca na situação, no lugar do espoliado é capaz de despertar em si mesmo o sentimento de compaixão, porque sente a mesma dor e o mesmo sofrimento.
E Jesus concluiu o diálogo, devolvendo a pergunta ao doutor, de modo que ele mesmo seja capaz de dar-se uma resposta: “Qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?» (v. 37). Na pergunta de Jesus já está presente a sua resposta: cada pessoa torna-se próximo, faz-se próximo, de quem quer que seja, por uma decisão livre e amorosa. E o doutor, foi obrigado a responder: «Aquele que praticou misericórdia para com ele» (v.38).

O que tem a ver as atividades e o trabalho de Sefras, mencionados no início, com toda esta reflexão da parábola do Bom Samaritano? Suponho que, neste ensinamento de Cristo, esteja a raiz e a razão de toda e qualquer atividade de promoção humana, porque nos oferece algumas chaves de leitura, de modo a não passar “adiante, pelo outro lado” da vida, como se os problemas não existissem. Talvez, através deste Boletim, cada um(a) de nós seja convidado(a) a despertar um novo olhar e uma nova sensibilidade que nos permitam, de algum modo, aproximar-se de quem mais sofre e precisa de nós. E há muitas maneiras possíveis de, hoje, praticar misericórdia e ter compaixão. Como funcionário, voluntário ou benfeitor das obras sociais, talvez possamos responder o imperativo de Cristo ao doutor da Lei: «Vá, e faça a mesma coisa.»

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