Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
São Paulo, 10/02/2012
 
 
 

HansenÍase: aspectos da evolução do diagnóstico, tratamento e controle

Apesar do avanço das investigações, a origem da hanseníase é, ainda, um ponto obscuro para os pesquisadores. Existem poucos registros, referências e discussões sobre o aparecimento da doença desde a antigüidade.

No Egito antigo, a doença era confundida com outras de pele existentes naquela época, assim como a elefantíase, a sífilis e as demais dermatoses.

Na verdade, até o século 14, o nome lepra tanto significava lesões provocadas por queimaduras, escamações, escabiose, câncer de pele, lupus, escarlatina, eczemas, sífilis, quanto lepra verdadeira.

Na visão dos medievais, as principais causas da disseminação da doença eram o contágio, a hereditariedade, o clima e a alimentação inadequada. Portanto, a hanseníase teria se tornado endêmica devido a associações de fatores como as más condições de higiene, alimentação e moradia. Esses fatores tinham origem no rápido crescimento da população e sua concentração no confinado espaço das cidades medievais, favorecendo a promiscuidade e o aparecimento e desenvolvimento de várias doenças, inclusive a hanseníase (D’Haucourt, 1994).

Não se pode precisar como eram as condições sanitárias na Idade Média, porém, se sabe que a expectativa de vida situava-se em torno de trinta anos e a mortalidade infantil era bastante alta.

De um modo geral, o doente nessa época era considerado pecador: “a lepra também é a prova corporal do pecado: a corrupção da carne manifesta a da alma.” (Schmitt, 1990).

Além da deformidade física, característica própria da doença, a falta de informações sobre o seu modo de transmissão, controle ou cura, e o medo da exclusão social, que acompanhava os hansenianos nessa época, contribuíram, certamente, para que a hanseníase se tornasse uma doença temida nas populações medievais.

Nas cidades acometidas pela epidemia, qualquer pessoa ou coisa podia ser temida, já que a doença permanecia e as medidas profiláticas não surtiam o efeito desejado, restando, nesses casos, acreditar na vontade divina. Além disso, a relação divina com as calamidades, flagelos e doenças era um fato aceitável pela grande maioria:“É um flagelo da ira de Deus...” (A. Pare, citado por Delumeau, 1989).

Os médicos medievais, além de saberem pouco sobre a doença, interessavam-se apenas em identificar o doente a fim de mandá-lo para longe da cidade, ao isolamento. O tratamento não trazia resultados animadores e essa situação perdurou ainda por vários séculos.

O interesse pela hanseníase, sua etiologia e tratamento, começou a se evidenciar na Europa quando foram construídos os primeiros leprosários, que eram pequenos hospitais ou casas para hansenianos, geralmente sob responsabilidade de religiosos.

A esse respeito, Virchow (1860) explica que os leprosários espalham-se com a cultura da Igreja e dos mosteiros, e essa cultura era, naquele tempo, essencialmente cristã.

Durante os séculos 18 e 19, quase toda a Europa já adotava o isolamento como tratamento para os hansenianos e constatava uma lenta e gradativa diminuição no número de doentes. Essa diminuição no número de casos pode ter ocorrido pela evolução normal da doença e principalmente pelo isolamento dos doentes, o que dificultava a transmissão.

Na Conferência sobre a lepra, realizada em Berlim no ano de 1897, Hansen fez recomendações sobre a conduta para com os doentes, ressaltando a importância do isolamento destes. Ele afirmava que: 1) o isolamento dos doentes em sua própria casa, contribuirá para um combate mais eficaz à doença; 2) onde existem muitos pobres hansenianos, o isolamento feito apenas em casa não será suficiente. Nestes casos, o governo terá de tomar providências e isolá-los, assim como responsabilizar-se pelo cuidado e tratamento destes; 3) cada caso deve ser examinado individualmente e então se decidir pelo isolamento facultativo ou obrigatório (Hansen, 1897).

Apesar da existência de um grande número de médicos pesquisadores da doença, pouco se avançava em termos de profilaxia. Desde o final do século 18, todo o tratamento passou a ser executado nos “lazaretos” que proliferaram com o crescente número de casos existentes, e com a necessidade de recolher os doentes andarilhos.

Configurava-se, assim, o isolamento de que se falava na Europa, porém, sob forma de hospital especializado.

No Brasil, a iniciativa de construção de hospitais para hansenianos deve-se ao fato de as autoridades médicas, principalmente do Rio de Janeiro, terem se convencido de que a doença poderia ser transmitida de uma pessoa a outra e não mais ser de caráter hereditário como se pensava até então.

A partir do final do século XIX, as legislações brasileiras passaram a contemplar as questões mais sérias da saúde como um problema de ordem social, que deveriam sofrer a interferência do governo para a sua resolução. Para tanto, foram criados conselhos, inspetorias, diretorias e serviços de Saúde Pública, que tinham a incumbência de fazer recomendações, regulamentos e ordens, além de promoverem a vigilância sanitária e manterem um serviço de notificações e de estatística.

Até o começo do século 20, a hanseníase era endêmica na maioria das regiões brasileiras, porque se alastrava de forma progressiva e estava fora de controle. As condições de vida da população até essa época favoreceram esse quadro. Da mesma forma, o atraso da medicina colaborou para que a situação chegasse a um ponto crítico. Em 1904, entrava em vigor o Regulamento Sanitário da União, determinando que a Hanseníase, além de ser uma doença de notificação compulsória, colocava os doentes sob o domínio do poder público.

Algumas medidas eram tomadas pelos médicos nomeados pelas autoridades da época, em relação aos cuidados com os comunicantes da doença como, por exemplo, a de impedir o casamento entre hansenianos, retirar as crianças do meio familiar de doentes, proibir o aleitamento materno a crianças de mães e amas-de-leite portadoras da doença, e ainda tornar obrigatória a notificação de qualquer caso suspeito da hanseníase às autoridades sanitárias além de criar um registro estatístico da doença no Brasil.

Essas medidas governamentais foram repassadas a todas as províncias por meio das Inspetorias de Saúde Pública criadas desde 1890 (decreto no. 169, de 18 de janeiro de l890).
Em 1903, quando Oswaldo Cruz assumiu a então Diretoria Geral de Saúde Pública, a hanseníase passou a ter maior atenção do poder público e a fazer parte dos programas governamentais de combate às doenças transmissíveis. Isso aconteceu a partir do seu relatório feito ao ministro da justiça e negócios interiores: “A propagação se faz por contágio, isto é, pelo contato imediato ou mediato com o doente, que é a única fonte. O contágio é lento e varia segundo a forma da moléstia... não se conhecem ainda as vias de penetração dos bacilos no organismo humano; supõe-se que penetrem pela mucosa nasal, por via genital e por via cutânea” (O. Cruz, 1905).

Texto adaptado de Ana Zoé Schilling da Cunha – Departamento de Enfermagem e Odontologia da Universidade de Santa Cruz do Sul, Av. Independência, 2293, bloco 2, sala 201, cep- 96815-900, Santa Cruz do Sul-RS; e-mail: anazoe@viavale.com.br

 
   


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