Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
São Paulo, 02/09/2010
 
 
 

O carinho com os hansenianos

Com estes textos - de Frei Orlando e das Fontes Franciscanas - mostramos um pouco do carinho que São Francisco de Assis tinha para com os hansenianos.

 Texto de Frei Orlando Bernardi

No momento em que Francisco faz o retrospecto de sua vida, entre os muitos acontecimentos que concorreram para direcioná-la, lembra, e o faz como testamento para seus irmãos, o encontro e a convivência com os leprosos. Mais significativo ainda se torna este episódio de sua vida, quando outros existem em que se empenham, talvez com maior afinco, sua generosidade, seu heroísmo, seu cavalheirismo e sua ternura! Contudo, entre todos eles, nenhum outro indica o inusitado, o extraordinário e o desconcertante como o gesto misericordioso com os leprosos.

É neste momento que surge o novo, o humano, o tipicamente cristão e franciscano, em que se mostram, a um só tempo, que é possível ainda, apesar das deformações físicas, psíquicas e humanas, descobrir o propriamente humano, quando se vislumbra, através da opacidade, um raio do divino. A partir deste momento está em gestação um novo e comovente modo de ver e sentir o mundo e o homem!

O ir e o estar com os rejeitados e excluídos, os leprosos, lhe desvelaram em seus rostos o rosto de Deus e do Cristo; este fato produziu nele a cristológica descoberta de que eram irmãos e irmãs seus. Consequentemente, as criaturas todas serão vistas e assumidas como irmãos e irmãs. A partir de então o mundo criado não é visto como inimigo do qual se deve fugir ou defender, mas como companheiro e solidário no processo de humanização e realização.

A descoberta e a vivência da fraternidade e da sororidade é fruto amadurecido por meio de uma experiência profunda muito humana e humanizante. Não surge por acaso, nem é fruto dessa piedade superficial que se comove frente ao aleijado e abandonado. Supõe haver no profundo do ser humano aquela corda que vibra de modo particular quando colocado frente a frente com uma particular situação humana e que tem como resultado a com-paixão, o sofrer com o irmão que sofre.

A parábola de Jesus do Samaritano (Lc 10,30-37) com a conseqüente pergunta: quem foi o próximo para aquele que caiu nas mãos dos salteadores? Talvez ainda seja a melhor explicação para o gesto de Francisco. Contudo, ainda sobra a intrigante pergunta: por que só o samaritano se comoveu? A mesma pergunta cabe no contexto de Francisco: Por que somente ele, Francisco, teve a coragem de ir e estar com os leprosos?

(Frei Orlando Bernardi, ofm, em "Solidariedade de Francisco de Assis com os pobres").

 Textos das Fontes Franciscanas
 Segunda Vida - Tomás de Celano
 Capítulo 5

"Ele, que tinha natural aversão pelos leprosos, julgando-os a monstruosidade mais infeliz deste mundo, encontrou-se um dia com um, quando andava a cavalo por perto de Assis. Ficou muito aborrecido e enjoado mas, para não quebrar o propósito que fizera, apeou e foi beijá-lo. O leproso estendeu-lhe a mão para receber alguma coisa e recebeu de volta o dinheiro com um beijo. Francisco tornou a montar mas, apesar de estar em campo aberto, olhou para todos os lados e não viu mais o leproso.

Cheio de admiração e de alegria, poucos dias depois tratou de repetir a boa obra.

Dirigiu-se para onde moravam os leprosos, deu dinheiro a cada um deles e beijou-lhes a mão e a boca. Assim substituiu o amargo pelo doce e se dispôs corajosamente para o que ainda estava por vir".
Primeira vida - Tomás de Celano - Capítulo 7°, versículo 17 em diante.

"Dois disso, o amante de toda humildade transferiu-se para um leprosário. Vivia com os leprosos, servindo a todos por amor de Deus, com toda diligência. Lavava-lhes a podridão dos corpos e limpava até o pus de suas chagas, como escreveu em seu Testamento: "Como estivesse ainda em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos, mas o Senhor me conduziu para o meio deles e eu tive misericórdia com eles".

Esta visão lhe era de tal modo insuportável que, segundo suas próprias palavras, no tempo de sua vida mundana, tapava o nariz só ao ver suas cabanas a duas milhas de distância. Mas, como por graça e força do Altíssimo já tinha começado a pensar nas coisas santas e úteis, quando ainda vivia como secular, encontrou-se um dia com um leproso e, superando a si mesmo, aproximou-se e o beijou. A partir de então, foi ficando cada dia mais humilde até conseguir vencer a si mesmo, por misericórdia do Redentor.

Ajudava também os outros pobres, mesmo quando ainda era secular e seguia o espírito do mundo, estendendo sua mão misericordiosa para os que não tinham nada e mostrando compassivo afeto para com os aflitos. Houve um dia em que, contra o seu costume, porque era muito bem educado, tratou mal um pobre que lhe pedia esmola. Mas logo, arrependido, começou a dizer consigo mesmo que era grande ofensa e vergonha negar a quem estava pedindo no nome de tão grande Rei, o que quisesse. Prometeu a si mesmo que jamais negaria a quem lhe pedisse em nome de Deus o que estivesse ao seu alcance. E o cumpriu com muita diligência, até oferecer totalmente a si mesmo, fazendo-se antes um cumpridor que um mestre do Evangelho: dá a quem te pede e não te desvies daquele que te pedir emprestado".

 
   


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