Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012

Por Aguinaldo Ap. Campos, especial para este site

São Paulo (SP) – Quando os sinos da Igreja do Convento de São Francisco começaram a bater vigorosamente, ao meio-dia daquele ensolarado domingo, 29/03, um público atento e curioso recebeu os celebrantes para a comemoração do 4º ano do Projeto Franciscanos pela Eliminação da Hanseníase.

O guardião do convento e celebrante, Frei Anacleto Luiz Gapski e o concelebrante, Frei José Francisco de Cássia dos Santos, Animador Provincial do SEFRAS (Serviço Franciscano de Solidariedade) deram as boas-vindas ao público que tomava as dependências da igreja. Frei Anacleto lembrou que o hanseniano sempre esteve segregado nos hospitais-colônia e que continua pois, apesar dos esforços governamentais, a Hanseníase é sintoma de um mal muito maior: a desigualdade social que propicia o acometimento de muitas doenças ao povo mais sofrido. “A Campanha da Fraternidade nos ajuda a pensar nisso: enquanto houver pessoas passando fome, sem infraestrutura mínima de água, esgoto, moradia, educação, muitas enfermidades continuarão segregando o povo mais humilde. Fazer valer a paz e a justiça é lutar por esses direitos”, refletiu.

A celebração também comemora o dia internacional da Hanseníase, que originalmente é comemorado em 28 de janeiro, em homenagem ao grande ativista Raul Follerau. “Além de darmos graças pelo que o Projeto Franciscanos pela Eliminação da Hanseníase conseguiu fazer em mais um ano em prol dos hansenianos, nos inspiramos no exemplo do Sr. Follerau, sabedores de que muito há por fazer nessa área, servindo como facilitadores, aqueles que levam a informação aos lugares mais distantes e, desta forma, esperamos fazer com que as pessoas mais humildes e necessitadas sejam orientadas a buscar o apoio de que necessitam nos postos de saúde”, explicava o Coordenador do Projeto, Aguinaldo Campos.
           
Hanseníase: um problema sempre atual

O rito foi especialmente preparado para essa celebração, com leituras que permitiam relacionar o mal de Hansen desde a antiguidade, passando pela época de São Francisco de Assis, até os nossos dias. “O cuidado com o leproso está na base do carisma franciscano. Então, os esforços que possamos fazer pelos irmãos hansenianos é, na verdade, uma graça que recebemos pois eles é que estão nos dando a oportunidade de voltarmos às nossas origens. Estamos comemorando 800 anos de fundação da Ordem Franciscana e a maneira mais efetiva de celebrar é poder estar ao lado daqueles que foram a razão da conversão de São Francisco a um novo modelo de vida”, explicou Frei Anacleto.

Ele também falou sobre a triste realidade dos números que apontam o Brasil, ainda, como o 2º colocado em casos de Hanseníase, perdendo somente para a Índia. Disse que a tristeza maior é que esses dados são a prova de que a Hanseníase e outras doenças continuam sendo endêmicas porque faltam condições mínimas de vida digna para os cidadãos. Mencionou que a Europa erradicou a Hanseníase sem a ajuda de remédios, apenas atuando no princípio de equidade, de divisão de renda e de melhoria da qualidade de vida dos habitantes. “A Hanseníase tem cura e nós podemos erradicá-la do nosso meio. Podemos vencer o preconceito e a discriminação. O Brasil já fez um esforço para superar o isolamento em que viviam os leprosos nos leprosários. Cabe a nós, agora, trazê-los de volta à comunidade. Pior do que negar-lhes o direito à saúde, ao lazer, à cidadania e à educação, é negar-lhes o direito à vida por Jesus. Esse é o esforço que hoje estamos fazendo: distribuir vida e segurança aos portadores da Hanseníase”, finalizou.

Unidos pelo objetivo de eliminar a Hanseníase

Nessa oportunidade, o Projeto Franciscanos pela Eliminação da Hanseníase recebeu cartas, de apoio e incentivo ao trabalho realizado, do Excelentíssimo Senhor Governador do Estado, José Serra; do Excelentíssimo Senhor Secretário de Desenvolvimento Social, Geraldo Alckmin; da ex-Secretária de Educação, Sra. Maria Helena Guimarães; da Sra. Coordenadora do Programa Nacional de Controle da Hanseníase do Ministério da Saúde, Dra. Maria Aparecida de Faria Grossi; do Coordenador Nacional do MORHAN, Sr. Artur Custódio, além das presenças de vários parceiros.

O momento de “Ação de Graças” foi aberto para que alguns dos presentes pudessem falar sobre o trabalho em parceria com o Projeto Franciscanos pela eliminação da Hanseníase.

A Dra. Vânia Lúcia Siervi Manso, médica dermatologista, especialista em Hanseníase e voluntária do Projeto, falou sobre a enfermidade, insistindo na necessidade de informar a população. “As pessoas tratam a Hanseníase como se já fosse uma doença erradicada, além de não se lembrarem mais dos portadores que foram confinados nos asilos-colônia.” Ela reforçou que o problema mais grave é que quanto mais tardio o diagnóstico mais a bactéria lesiona profundamente os nervos periféricos. Também mencionou a grande endemia instalada nos estados do norte, centroeste e nordeste do país, além do preconceito e do estigma: “a omissão familiar é muito prejudicial para o diagnóstico precoce, pois já é confirmado que a Hanseníase é doença de caráter familiar, ou seja, existe uma predisposição genética para que seja desenvolvida”, alertou a médica. Ela também frisou que a enfermidade tem cura e que o tratamento é gratuito, agradecendo aos franciscanos pela iniciativa que, em muito, tem colaborado para o controle da Hanseníase.

A representante da Coordenadora do Programa Estadual de Hanseníase, Ana Cláudia Fedato Nascimento, falou sobre o projeto da Hanseníase nas escolas estaduais, uma parceria entre as Secretarias Estaduais de Saúde e de Educação que vai capacitar os professores-coordenadores para que multipliquem as informações por meio dos professores das cerca de 5.300 escolas estaduais. Eles, por sua vez, multiplicarão o assunto com os alunos. Aproximadamente cinco milhões de alunos serão beneficiados. Ela encerrou agradecendo aos franciscanos pela parceria na busca de alternativas para o controle da doença.
Também presente, a representante da “Sociedade Cruz de Malta”, Sra. Birgit Sauer, falou sobre a “Ordem de Malta” e a parceria com os franciscanos, que se dá de forma material, equipando salas de fisioterapia, fornecendo aparelhos para exames oftalmológicos, estruturando sapatarias para a confecção de calçados especiais para os hansenianos. “Estamos muito satisfeitos pela capacidade de atuação conjunta com os franciscanos. O projeto tem sido bem encaminhado por Frei Johannes e a equipe, com resultados.”, completou.

Vanessa Mendes Gastaldelo, representante do MORHAN, fez um histórico do movimento social, falando das dificuldades desde o surgimento e das inestimáveis conquistas conseguidas nesses anos de atuação, tendo conseguido, inclusive, um assento no “Conselho Nacional de Saúde”. Ela agradeceu pelo trabalho desenvolvido pelos franciscanos demonstrando satisfação pela união em torno da mesma causa: o bem-estar do hanseniano.

A “Ação de graças”, enriquecida pelos depoimentos teve ainda a participação do Animador Provincial do SEFRAS, Frei José Francisco de Cássia dos Santos que falou sobre a preocupação dos franciscanos em relação ao desenvolvimento de ações qualitativas eficazes para o alcance dos direitos sociais dos mais necessitados, que além de ser um compromisso com a promoção humana e o respeito que merece, é também compromisso com a espiritualidade franciscana.

O senhor Olimpio, ex-hanseniano, encerrou esse momento de partilha, fazendo um testemunho que lembrava o Sr. Bacurau, fundador do MORHAN, lembrando que o amor  pelos seres humanos é a única forma de promoção da vida.
Frei Anacleto agradeceu a participação de todos, dizendo que tudo o que foi partilhado mostra a necessidade de ainda mais se fazer para que o hanseniano tenha uma vida digna e o acesso à paz e à justiça.

Ao final da celebração, a Dra. Vânia Lúcia Siervi Manso gentilmente atendeu aos fiéis, esclarecendo-lhes as dúvidas sobre a Hanseníase.
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