Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012
               

Brasil afirma que pagará pelo
medicamento da Hanseníase

Dra. Maria Ap. de Faria Grossi faz o anúncio sobre os medicamentos

Dra. Danusa Benjamin defende o cuidado aos pacientes

Por Aguinaldo Ap. Campos, especial para este site

São Paulo (SP) – Durante a “Oficina de Avaliação e Monitoramento”, do Programa Nacional de Controle da Hanseníase do Ministério da Saúde, para a macrorregião Sul/Sudeste/Centro-oeste, aconteceu o anúncio que todos esperavam: “O governo Lula e o Ministério da Saúde decidiram pagar pelo medicamento da Hanseníase para o Brasil não ficar refém da Organização Mundial da Saúde. Essa é uma notícia que eu gostaria de dar em primeira mão.”, comunicava a Coordenadora Nacional do Programa, Dra. Maria Aparecida de Faria Grossi.

A comemoração se justifica: é que o país tem sido pressionado pela OMS e organizações internacionais por não ter conseguido atingir a meta de eliminação da Hanseníase. Mas há outros pontos a serem considerados como os avanços em relação ao tratamento e controle da doença, além dos benefícios concedidos pelo atual governo brasileiro. Com o pagamento, e mesmo a produção dos medicamentos, o Ministério da Saúde fica livre para implantar seu programa de controle, de cuidado integral ao cidadão acometido pela Hanseníase. “E o melhor é que o Brasil possui estoque regulador: posso afirmar que não faltarão medicamentos.”, finalizou a Coordenadora.

Um outro olhar para a doença que há milênios atemoriza

Os especialistas reunidos para a oficina em Cuiabá, no Mato Grosso, de 26 a 28 de maio, elogiaram a atitude do governo brasileiro e, como não poderia deixar de ser, diversos aspectos tomaram conta da discussão.

Um dos pontos abordados foi a visão da Hanseníase como doença de “evento agudo”, ou seja, tratada na rede de saúde diante da urgência apresentada pelo paciente no momento de emergência.

A Dra. Maria Aparecida de Faria Grossi explicou a necessidade de abordar a Hanseníase de maneira diferente: “Todos estão no caminho errado, pois estão agindo como se a Hanseníase fosse um “evento agudo” quando é uma doença de condição crônica e necessita de diferencial de assistência, embora também apresente eventos agudos. É preciso mudar a visão em termos de rede de assistência porque a enfermidade tem sido tratada como evento agudo quando, na verdade, o cidadão que tratou e se curou da Hanseníase precisa de tratamento para outras complicações advindas do tratamento. Assim ocorre com outras doenças também: o indivíduo que tem AIDS, Diabetes, etc., não recebe alta. É preciso ter essa visão para a Hanseníase e os profissionais de saúde também precisam se preparar para essa nova forma de ver a doença.”, orientou.

Pensamento alinhado, a Assessora do PNCH/MS, Dra. Danusa Benjamin, observou que o componente de atenção à pessoa acometida pela Hanseníase vai além da “alta por cura”, sendo necessária uma “política de estado permanente” para o acompanhamento dos pacientes. “Concordo que a Hanseníase não é uma doença crônica, mas caracteriza-se como de “condição crônica”, podendo causar “episódios agudos”, estados reacionais, por exemplo. Então, o que se percebe é que o modelo de atendimento atual é inadequado, pois está organizado para atender às condições agudas, enquanto a maior parte dos problemas está associada às condições crônicas. Aí é que se percebe como a transição epidemiológica no país é muito complexa. Esse atendimento tem de ser feito a partir da Atenção Primária porque a pessoa acometida e seus contatos têm de ser acompanhados por um longo prazo. Se pensarmos que a cura traz a necessidade de cuidado com a saúde, a idéia de “rede” para cuidar da saúde é cada vez mais urgente.”, finalizou.

Compreendendo a alta pela cura da Hanseníase

 Uma das participantes do encontro, Jaqueline, enfermeira representante do estado de Mato Grosso, introduziu uma aparente controvérsia: “O paciente quando recebe alta por estar curado de Hanseníase não quer voltar para continuar se tratando pois acha que não precisa, afinal, disseram a ele que está curado. A propaganda diz que a Hanseníase tem cura, mas não é bem assim.”, observou.  

“O discurso é que precisa ser mudado: o paciente deve saber que se cura da transmissão da Hanseníase, mas que deve cuidar das intercorrências, como ocorre com outras doenças: o diabético controla o açúcar, a pressão, etc., continua seu tratamento, o cuidado.”, ponderou a Coordenadora do Programa de Controle da Hanseníase do estado de Minas Gerais, Dra. Ana Regina Coelho de Andrade.

O assunto passou a revelar a nova maneira de lidar com a Hanseníase adotada por meio do termo “controle”, e não mais eliminação, pelo Ministério da Saúde. A Assessora do Ministério, Dra. Danusa Benjamin, disse que a Hanseníase, como doença crônica, vai muito além do diagnóstico e tratamento, mas prevê o cuidado com o paciente. Ela considerou que estratégias que foram extremamente importantes não podem ser esquecidas, como a investigação e exame dos contatos – pessoas que convivem com os pacientes – mas observou que os ajustes precisam continuar sendo feitos: “Como ainda é possível que profissionais não consigam fazer uma coisa simples como diagnosticar uma pessoa? Que dirá examinar os contatos dela... o pior é que só depois de dez anos essa pessoa acaba sendo diagnosticada e pode haver mais gente acometida pelo bacilo. Por isso, o acompanhamento dos contatos é fundamental.”

 A Dra. Danusa ainda chamou a atenção para a importância das parcerias, segundo ela, fundamentais pois o poder público não vai conseguir resolver o problema da Hanseníase sozinho. “Os movimentos sociais são importantíssimos nessa hora, o projeto dos franciscanos, por exemplo, que realiza um trabalho maravilhoso porque fala de igual para igual com as pessoas, consegue sensibilizar para o problema.” Observou que o conceito de cura teve sua importância simbólica, e muito grande, assim como a mobilização de eliminação mundial, citando os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, que conseguiram o “conceito de eliminação”, mas, na prática, mantêm detecção de casos novos. “Então, é preciso cuidado, atenção ao controle pois, para os gestores municipais desses estados, essa doença não existe mais. Foi importante o esforço para receber o certificado de eliminação, mas o esforço de continuar o trabalho de controle é ainda mais importante.”, reforçou.

Dide, representante do MORHAN do Paraná, parabenizou a atual coordenação nacional do Programa de Controle da Hanseníase do Ministério da Saúde por valorizar o paciente de Hanseníase. “Eu estou me sentindo lisonjeada por esta coordenação nacional pois antes, quando ouvia os profissionais falando, não me sentia gente, apenas alguém que tinha uma bactéria.”, agradeceu.

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