Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012
               

São Francisco precisa voltar a abraçar os hansenianos de Santa Catarina

Márcia Lira, Coordenadora da Hanseníase
no Rio Grande do Sul

Silvana Wagner, Coordenadora Interina da Hanseníase de Santa Catarina

Por Aguinaldo Ap. Campos, especial para este site

São Paulo (SP) – É sabido que os estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo conseguiram eliminar a Hanseníase. Nos últimos anos, isso fez com que os gestores de saúde desses estados destinassem recursos para o tratamento de outras enfermidades, pois julgavam que o problema estivesse resolvido. Mas está? Será correto afirmar que esses estados estão livres do “Mal de Hansen”?

Durante a reunião da macrorregião sul/sudeste/centro-oeste, do Ministério da Saúde, realizada em Cuiabá no final de maio último, os relatos das coordenadoras dos Programas de Controle da Hanseníase dos estados do sul deixaram claro que é preciso muito mais atenção ao controle da Hanseníase nessas regiões.

A coordenadora do Programa de Controle do Rio Grande do Sul, Márcia Lira, revelou, inclusive, que os números do SINAN (Sistema Nacional de Notificações de doenças do Ministério da Saúde) não estariam corretos pois o estado sulista notificou mais pacientes com Hanseníase do que aqueles contabilizados pelo sistema. “Nós temos no Rio Grande do Sul municípios hiperendêmicos com detecção maior ou igual a 40 casos para cada 100.000 habitantes (1,71%), como Alegrete, Erechim e Santo Ângelo. Porto Alegre é responsável por 40% dos casos do estado porque as pessoas preferem viajar horas até a capital para que ninguém no município saiba que ela tem Hanseníase. Aí a gente constata até aonde vai o preconceito! O estado do Rio Grande do Sul tem 50% de casos da doença com os pacientes apresentando algum grau de incapacidade física. E consideram que eliminamos a Hanseníase... esses números provam a nossa deficiência. Isso é uma vergonha para o estado.”, desabafou.

O estado vizinho, Santa Catarina, onde a Província da Imaculada Conceição está presente em diversos municípios e os frades têm uma estreita relação afetiva com o povo, não apresenta situação diferente. Em termos, porque o preconceito é tão forte no estado que preferem ignorar a ameaça.

Municípios silenciosos: a Hanseníase ignorada

O Ministério da Saúde considera silencioso o município que não notifica pacientes de determinadas enfermidades infectocontagiosas. Seria o mesmo que dizer que eles não têm doentes que transmitam essas doenças. O problema é que, muitas dessas localidades, fazem divisa com outras que reportam casos de Hanseníase ao Ministério. A pergunta que instiga é: esses municípios não têm pessoas doentes ou não se preocupam com elas? E os que estão doentes? Certamente se tratam em outros municípios, bem distantes do local de residência, pois, desta forma, evitam o preconceito de vizinhos, amigos de trabalho, parentes e, pasmem, em muitos casos, até dos próprios profissionais de saúde.

“A situação é grave: em 2008 foram detectados 207 novos casos em Santa Catarina, um coeficiente de detecção de 3,22% para cada 100.000 habitantes”, revela a Coordenadora Interina do Programa Estadual de Controle da Hanseníase, Silvana Wagner. Mas os dados do Ministério contabilizam um pouco mais: 3,65%. “Hoje, estão em tratamento 237 pessoas; tivemos 5% de recidivas (pessoas que voltam a se contaminar); 1% dos casos diagnosticados refere-se a menores de 15 anos e 63% dos pacientes fazem o tratamento fora do estado por medo de sofrerem preconceito. É uma situação muito preocupante a nossa.”, denunciou.

O desconcerto da coordenadora é justificável: o estado havia conseguido estabilizar e baixar o índice de detecção de casos novos para menos de 1% para cada 100.000 habitantes, considerado aceitável pela Organização Mundial de Saúde, mas não desenvolveu uma política de controle da Hanseníase que evitaria que o estado voltasse a diagnosticar acima do tolerável e, pior, com casos já apresentando grau de deformidade ou incapacidade física.
           
Joinville, Blumenau e Florianópolis: campeões de casos de Hanseníase em Santa Catarina

Os casos de Hanseníase estão concentrados em 26% dos municípios, segundo relatou a coordenadora interina do estado. Joinville concentra a maioria dos casos, seguida de Blumenau e Florianópolis. Mas é bom esclarecer que esses municípios têm um Programa de Controle de Hanseníase implantado, o restante dos municípios do estado, 74%, são “silenciosos”. “Isso nos preocupa muito porque a gente pode se perguntar como os municípios vizinhos a esses três não têm nenhum caso... o fato é que eles simplesmente não se preocupam.”, refletiu Silvana.

Se os municípios, como ela disse, não se preocupam com a Hanseníase, uma vez que consideram que ela não existe em seus domínios, dá para imaginar a situação em relação a outras medidas que deveriam ser tomadas: “Nós temos visto casos de recidivas que comprovam que as equipes de profissionais de saúde não estão bem capacitadas. O estado não fornece mais as capacitações em função do certificado de eliminação da Hanseníase, então, os municípios é que devem solicitar e, nesse caso, o estado envia os capacitadores, mas só quando é solicitado e, claro, eles não pedem.”, informou. 

Comentando as inquietações da Coordenadora Silvana, a Dra. Maria Aparecida de Faria Grossi, Coordenadora do Programa Nacional de Controle da Hanseníase, advertiu: “Quando se fala em município silencioso, se deve reportar a um recorte dentro de um período analisado. Um município, por exemplo, que passou oito anos sem diagnosticar casos e, tendo os profissionais capacitados, passou a encontrar, não é silencioso. E como pode um município ser hiperendêmico e aqueles que estão em seus limites não apresentarem casos?”.

Na prática, a enfermeira Silvana Wagner coordena todas as atividades em relação à Hanseníase no estado de Santa Catarina, auxiliada apenas por uma Auxiliar Administrativa, a Teide, já que a atual Coordenadora Estadual do Programa de Controle da Hanseníase encontra-se em “licença prêmio” até o final de 2009. Uma equipe muito pequena para um grande desafio: a atenção à Hanseníase em um estado com  6.052.587  habitantes e 293 municípios divididos em 19 regionais de saúde.

            A apresentação da Coordenadora Interina de Santa Catarina renova a necessidade de ação no estado, inclusive, das paróquias franciscanas, renovando o carisma franciscano ao assumir o compromisso de abordar o assunto e levar informação aos fiéis. Mais do que nunca, São Francisco precisa abraçar os hansenianos de Santa Catarina.

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