Depoimento de D. Pascásio Rettler, OFM - publicado na Revista Grande Sinal, vol.49, 1995, pp.
677-684.
Introdução
"Sou Frade franciscano por opção
e Bispo por imposição". Estas palavras
já são suficientes para dar uma resposta
à pergunta que do Redator da Revista "Grande
Sinal", Frei Nilo Agostini dirigiu a mim. Mesmo
assim disponho-me a falar um pouco de meu trabalho e
de minha experiência junto aos hansenianos.
De antemão devo dizer que nada há de
especial ou extraordinário no serviço
aos irmãos hansenianos. É simplesmente
conseqüência natural, depois de 22 anos de
serviço, como bispo franciscano, aos irmãos
lavradores e mais pobres do Maranhão. Sou considerado
bispo aposentado e "emérito". Gosto,
porém, ao assinar cartas ou relatórios
de fazer entender que sou "bispo sem mérito",
pois o mérito é todo e somente Dele.
É conhecido de todos que São Francisco,
no início de sua caminhada, se converteu, principalmente,
no momento de seu encontro com o irmão leproso
(hanseniano). Espero que até o fim de minha caminhada
terrestre possa alcançar também minha
conversão...
Motivo de minha decisão de servir aos hansenianos
Ao completar 75 anos, todo bispo deve pedir ao Santo
Padre a renúncia à administração
e cuidado de sua diocese. Meio ano antes de chegar aos
75, fiz meu pedido, por meio do Sr. Núncio Apostólico.
Disse-me, na ocasião que não devia ter
pressa e que era conveniente esperar mais um tempo.
Alertou-me também que tal espera é, muitas
vezes, longa. Insisti, porém, dizendo que já
havia providenciado um trabalho pastoral "novo".
A isso o Núncio se comoveu e se prontificou a
ajudar, junto ao Santo Padre para que rapidamente eu
recebesse a autorização da renúncia.
A resposta veio no dia em que completei 75 anos (26
de janeiro de 1990).
E porque me adiantei em providenciar um "lugarzinho"
para os dias de minha "aposentadoria"? Em
julho de 1989 falecera o Confrade Frei Alípio
Both, que por mais de 30 anos, ele mesmo portador da
hanseníase, servira como capelão no meio
dos hansenianos, no Hospital de Pirapitingüí,
SP. Só fiquei sabendo da morte do confrade quando,
numa ocasião, conversei por telefone com o Ministro
Provincial, Frei Estevão Ottenbreit. A ele fiz
a pergunta imediatamente: "Quem vai substituir
a Frei Alípio?" Respondeu-me ele: "No
momento, não temos nenhum Frade que possa substituir
o confrade falecido". No mesmo instante pedi-lhe
que segurasse o lugar para mim.
Este pedido abalou-me, posteriormente, um pouco, pois
comecei a pensar no que pedira. Mas também não
era conveniente dar para trás.
Quando, tempos depois, fui a São Paulo conversar
com o Ministro Provincial, interrompeu-nos Frei Pedro
Pinheiro, que desejava mostrar um grande e belo quadro
que pintara: São Francisco e o Leproso. Concluí,
logo que Deus estava querendo mesmo me "empurrar"
para o meio dos leprosos (hansenianos).
No dia seguinte, viajei para Jundiaí para falar
com Dom Roberto Pinarelli, bispo diocesano a cuja diocese
pertence a área do hospital de Pirapitingüi.
O Sr. bispo estava numa reunião com o Clero de
sua Diocese. Logo me atendeu, porém, e quis saber
do motivo da visita. Ao torná-lo informado do
meu desejo de ser capelão no hospital, disse-me
que era justamente este o assunto em pauta na reunião.
E lamentava que estava tendo dificuldades em encontrar
um sacerdote que se dispusesse a prestar este serviço.
Com alegria, pois, me aceitou como capelão.
Três acontecimentos me faziam ver que a minha
primeira decisão deveria ser confirmada: a conversa
com o Ministro Provincial, o quadro artístico
de São Francisco com o leproso e o encontro com
Dom Roberto. Era o "empurrão" do Espírito
Santo para que um bispo aposentado pudesse servir aos
irmãos e irmãos hansenianos.
Ao me despedir dos irmãos e colaboradores de
Bacabal, MA, meu sempre eficiente Vigário Geral,
Frei Heriberto Rembecki, Ofm, me deu, com "ar malandrinho"
um consolo: se pegasse a lepra, esta se iria manifestar
somente após 10 anos, quando já estaria
morto. Alguns, realmente, me diziam que era horrível
cuidar dos hansenianos e me incentivavam a desistir
do propósito...
Parti de Bacabal com saudade dos colaboradores e da
Diocese. Comecei, porém, com alegria, em fevereiro
de 1990, meu novo trabalho pastoral no Hospital "Dr.
Francisco Ribeiro Arantes", como é conhecido
em Pirapitingüi, Município de Itu e Diocese
de Jundiaí, SP.
No dia 18 de fevereiro de 1990, celebrei minha primeira
missa na Vila dos hansenianos, recebendo a "posse"
pelo bispo Dom Roberto. Muitos doentes participaram
da missa. Fiquei, naturalmente, um pouco chocado, ao
celebrar, com tantos doentes a Eucaristia. E mais me
chamou a atenção o modo como esses doentes
fracos e pobres, com alegria, recebiam seu capelão.
Senti que estavam felizes, sobretudo, por terem de novo
um sacerdote no meio deles para oferecer-lhes os Sacramentos
e celebrar a Eucaristia, sua fonte principal de consolo
e força. Ao mesmo tempo, senti-me muito envergonhado:
nos rostos deles, muitos desfigurados, marcados pela
dor, havia uma alegria que se irradiava pela longa salva
de palmas ao lhes ser apresentado. Raras vezes senti,
durante minha vida sacerdotal, tamanha alegria interior,
como esta "Primeira Eucaristia".
Não tenho dúvidas de que até
agora fui mais enriquecido pelos irmãos doentes
do que eu pude dar a eles. Sei também que os
anos de bispo no meio dos irmãos de Bacabal,
que muito me marcaram, prepararam-me para poder assumir
minha nova tarefa pastoral no meio de irmãos
tão sofredores e, sem dúvida, por causa
da doença, marginalizados e excluídos.
Problemas e dificuldades para uma pessoa de saúde
morar no meio dos hansenianos
Desde minha primeira visita ao hospital, havia decidido
morar no meio dos doentes. A casa que servira de moradia
para o falecido Frei Alípio estava ocupada por
um doente. Não havia mais, portanto, uma residência
própria para o capelão. Como "Westfaliano"
(dizem que são teimosos) não desanimei
e morei por 5 meses na sacristia da capela. Faltava,
contudo, a licença para morar no hospital. Há
uma lei que proíbe isto. Falei com o administrador
do hospital, Dr. Décio, e com a Diretora, Dra.
Ediléia, tentando conseguir a licença.
O próprio Supervisor da Saúde, de Sorocaba,
Dr. Ganini, me prometera que se interessaria junto ao
Secretário de Saúde de São Paulo.
Uma vez que a tramitação demorava, decidi
ir pessoalmente a São Paulo para conversar com
Dr. Pinotti. Frei Constâncio Nogara, também
já havia falado com ele sobre o assunto. Feliz
coincidência: o recepcionista da Secretaria era
natural de Pedreiras, diocese de Bacabal. Por intermédio
dele, consegui logo, uma audiência com o Secretário.
Outra coincidência: na mesma oportunidade, Dr.
Ganini chegava. E a resposta veio clara: "Existe
a lei, mas a caridade passa por cima. O Senhor pode
morar dentro do hospital". Mas, morar onde ?
Na sacristia ainda havia lugar para uma cama e resolvi
morar lá até que pudesse ficar pronta
uma casa que podia ser construída perto da Igreja.
Rapidamente ficou pronta: 3 cômodos, cozinha,
sala-de-estar, escritório e quarto, com biblioteca.
À casa dei o nome de "Betânia",
como lembrança da Vila Betânia que os pistoleiros
de Bacabal queimaram, em sinal de protesto contra nossa
pastoral em favor dos lavradores. Espero que esta Nova
Betânia seja uma casa em que os hansenianos possam
ser atendidos e animados em sua caminhada de sofrimento
e possam encontrar, ao mesmo tempo o consolo que Jesus
levou à casa de Lázaro e suas irmãs
Marta e Maria. Graças a Deus, sinto-me muito
bem nesta casa que também serve para a reunião
de grupos e ensaio de cantos para um coral dos doentes.
O trabalho pastoral no meio dos irmãos hansenianos
Nas pequenas casas, nos pavilhões e enfermarias
que compõem o hospital moram 870 doentes. Mais
de 100 doentes moram na Psiquiatria. Toda manhã,
pelas 08h00, viajo num pequeno Fiat, pelas ruas da Vila,
visitando os doentes, procurando conversar com eles
sobre seus problemas e necessidades. O supermercado
é o lugar em que encontro sempre um grupo de
doentes. Ali paro por uma meia hora. É um lugar
estratégico.
As enfermeiras sempre me avisam quando um doente deseja
ou precisa receber os Santos Sacramentos. Geralmente,
alguns Ministros da Eucaristia de Itu, levam a Eucaristia
aos doentes e me ajudam, aos domingos, nas celebrações
eucarísticas.
Cada domingo, celebro às 08h00 na Igreja do
hospital que foi toda renovada. Encontrava-se em estado
deplorável. Às 10h00 celebro na Capela
de São Francisco, igualmente, dentro da área
do hospital. Esta capela foi construída com a
ajuda de parentes e amigos da Alemanha. Serve, especialmente,
aos doentes que, por causa de seus pés deformados,
não podem caminhar até a Igreja. Nela
se pode entrar, facilmente, com cadeiras de rodas. É
louvável a boa participação dos
doentes nas duas celebrações. E, em muitos
domingos, participam da missa Grupos de Solidariedade
que querem se unir aos doentes para a celebração
da Eucaristia. Em muitos domingos, celebro uma terceira
missa numa das paróquias de Itu. Durante a semana,
celebro às 18 horas, em casa, com um grupo de
doentes.
Além disso, uma vez por mês dou assistência
religiosa a um grupo de Cursilhistas de Itu. Prego diversos
retiros para Fraternidades da OFS e retiros mensais,
no próprio hospital. Nesses retiros mensais,
faço uma reflexão sobre o hanseniano no
tempo de Cristo, de São Francisco e nos dias
de hoje. Depois, os participantes visitam os doentes.
Ao voltar, fazemos uma reflexão sobre seus encontros
com os enfermos. Termino sempre com a Santa Missa. Por
três anos fui assistente espiritual da Fraternidade
da OFS, em Sorocaba, na Paróquia Santa Rita.
Muitas vezes, ainda, sou solicitado para pregações
nas festas de padroeiro das paróquias de Itu
e cidades vizinhas.
Nas festas litúrgicas, aproveito sempre para
animar os doentes. Comovente é a Semana Santa,
com o Lava-pés dos doentes, a Procissão
de Nosso Senhor Morto, a Mãe das Dores, etc.
Também na festa do Corpo de Deus não falta
a procissão, da qual os doentes participam, mesmo
que isto custe muito sacrifício. No Natal, construímos
um grande presépio que abrange todo o presbitério
da capela. Por causa do grande número de moradores
no bairro em volta do hospital, cerca de trinta mil,
sem assistência de um padre, muitos participam
da vida eclesial do hospital e ali vão para batizar
seus filhos ou celebrar o matrimônio. Outras tantas
vezes, pedem visita a seus doentes. Nos três primeiros
anos celebrei a missa dominical na Vila Martins, vila
dos "egressos"! que são os doentes
tratados em casa. Quando tenho que me ausentar, nos
fins de semana, substituem-me os frades do Convento
São Francisco, em São Paulo, principalmente
Frei Atílio Abati.
Assistência social aos hansenianos
Somente palavras bonitas e piedosas não resolvem
os problemas dos doentes. De maneiras muito diferentes
fui descobrindo como ajudar os doentes por meio de medicamentos,
material de curativo, etc. Com a ajuda de parentes e
amigos da Alemanha e do Brasil, conseguir arranjar medicamentos
especiais para a hanseníase pela Medeor e grupos
de solidariedade.
Quando veio a primeira remessa de medicamentos da
Alemanha, via aérea, houve muitas dificuldades
na alfândega, apesar de toda a documentação
estar em ordem. Eu dizia apenas aos funcionários
do aeroporto que Deus iria ajudar aos doentes e daria
um jeito. Quando cheguei, na manhã seguinte,
ao aeroporto para buscar os medicamentos, os responsáveis
me disseram: "Frei, leve logo tudo para o hospital
porque ontem à noite morreu um dos nossos funcionários.
Não queremos morrer aqui". Certamente, tinham
considerado minhas palavras do dia anterior como uma
"ameaça" e a morte como um castigo
de Deus. Repeti-lhes que não desejava mal a ninguém,
mas que também eles não prejudicassem
aos doentes...
Também tive que iniciar uma reforma nas enfermarias
do hospital. Estavam em péssimo estado. Graças
a Deus, a administração do hospital se
incumbiu, em seguida, da reforma das outras enfermarias.
Nestas enfermarias estão acomodados mais de 100
doentes em estado grave. Parentes e amigos da Obra Kolping,
de minha cidade natal, colaboraram na construção
e instalação de uma UTI, muito necessária
para um atendimento melhor aos doentes. Para muitos
doentes atingidos nos pés pela hanseníase,
consegui uma Kombi que os levava, todos os dias, para
a Fisioterapia. Outro grande problema para muitos doentes
era a falta de cadeira de rodas e de próteses.
Consegui 40 cadeiras de rodas e muitas próteses.
Certamente, não adianta dizer que tudo isso
é obrigação do Estado. O que é
certo é que pouco se faz pela saúde, particularmente
quando se trata da saúde dos pobres.
Também consegui a instalação
de uma Escola de Alfabetização. Anualmente
trinta doentes aprendem a ler e escrever. Desta maneira
se ocupam melhor. Cuido até de providenciar livros
e revistas. Também me encarrego de possibilitar
uma terapia ocupacional, favorecendo a aprendizagem
de diversas profissões. O que sempre me surpreende
é a resposta dos doentes à pergunta: Como
vai? Vou bem, respondem. Ensinam a gente a não
se queixar de nada.
Destas considerações pode-se perceber
que a hanseníase, mais do que um problema médico,
é também um problema social que, em geral,
acomete as populações que não tem
acesso à boa condição de vida.
É uma moléstia como outra qualquer, cujo
contágio é muito difícil. O que
é preciso: combater os preconceitos injustos
e infames que, lamentavelmente, ainda pesam sobre o
Mal de Hansen.
O doente de Hansen não precisa de compaixão,
mas muito de solidariedade e compreensão. Quando
cheguei aqui no hospital, logo me confidenciaram: "se
quiser ganhar a confiança dos hansenianos, não
deve ter medo deles". Minha convivência e
experiência me provam esta afirmação...
O hanseniano pode também cuidar dos seus filhos,
tratar a sua doença, regularmente. Era costume
tirar a criança recém-nascida e levar
logo a um "Preventório" (hospital especial,
ou melhor, creche para estas crianças). Hoje,
graças a Deus, não existe mais este preconceito
e já batizei a primeira criança nascida
aqui no hospital. A pessoa doente ainda precisa muito
do apoio de sua família, da compreensão
das pessoas que a cercam. Mais do que pela doença,
muitos doentes sofrem pelo abandono da família.
"A família não me visita mais",
dizem. Sentem-se, então, realmente excluídos.
É também minha missão de capelão
reativar o amor dos familiares com seus entes queridos
doentes: pai, mãe, irmãos ou filhos...
Para mim, pessoalmente, esta convivência de quase
seis anos com os hansenianos é uma aventura a
mais, como frade e capelão. Vejo que tudo se
torna motivo para melhor louvar o Senhor. O que posso
fazer é decorrente da missão que um dia
assumi.
Dia-a-dia de um bispo aposentado no meio dos irmãos
hansenianos
Pelas 6 horas da manhã preparo meu café,
faço a oração da manhã,
vejo o noticiário, visito os doentes e cuido
da correspondência. Almoço sempre na cozinha
de um doente. Às 18 horas celebro a Eucaristia
em casa, com a participação de um grupo
de doentes. Pelas 20 horas visito a um doente, em sua
casa. Ali, costumam se reunir, normalmente, alguns doentes
para debater os seus problemas e os do hospital, até
às 21 horas. À noite tenho ainda um bom
tempo para leitura e estudo.
Mensalmente participo da reunião do Clero da
Diocese e quando possível, da reunião
dos confrades do Regional de São Paulo. A cada
quinze dias, passo um dia no Convento São Francisco,
em São Paulo, para não perder o contato
com os irmãos da Ordem Franciscana. Anualmente,
participo da Assembléia da CNBB, em Itaici. Não
considero que alguns bispos me chamem "fraternalmente",
como a todos os bispos aposentados de "bispo excluído".
De fato, não tenho direito a voto. Como bispo
aposentado, com mais de 80 anos de idade, posso ainda
votar como brasileiro. Isto me basta.
Finalizando estas considerações, posso
apenas dizer como bispo aposentado que me sinto muito
feliz e realizado. Peço a Deus e aos irmãos
que rezem por mim, para poder servir aos irmãos
hansenianos até o fim da minha vida.
Cada vez que faço a encomendação
de um irmão hanseniano falecido, sinto uma "santa
inveja". Vendo o corpo do falecido, todo deformado
no rosto, nas mãos, nas pernas, às vezes,
amputadas, lembro-me da alma que esteve no corpo deste
irmão, desta irmã. Com quanto merecimento
não estará tal irmão ou irmã
participando agora da glória do céu, junto
com Deus, nosso Senhor e Pai. O enterro de um hanseniano
se parece muito a uma procissão de triunfo. Muito
já pude aprender destes irmãos doentes
vivos e falecidos.
Pirapitingüi, 28 de agosto de 1995, festa de
Santo Agostinho.
Frei Pascásio Rettler, Ofm
Capelão