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O
gesto profético de Dom Luiz Flávio Cappio
Por Paulo Suess
"Depois de quarenta dias em jejum,
quando os demônios o assaltaram com promessas,
parou seu jejum. Dirigiu-se à sinagoga de Nazaré.
Assumiu a mensagem do profeta Isaías que leu:
"O Espírito do Senhor me enviou para anunciar
uma boa nova aos pobres" (cf. Lc 4,18s.).
No mundo dos pequenos, o Evangelho se situa logo. Interpreta
uma situação complexa com muita simplicidade.
Inquieta e rouba o sono. Também nós, um
pequeno grupo do Cimi e de outras pastorais, perdemos
sono para alimentar o sonho. De madrugada, dia 4 de
outubro, nos dirigimos de Petrolina à capela
São Sebastião, na Roça do Seu Lídio,
uns 3 quilômetros de Cabrobó, PE, onde
Luís Flávio Cappio, bispo franciscano
de Barra, BA, estava desde o dia 26 de setembro em greve
de fome. A capela fica próxima ao rio São
Francisco, em frente à ilha da Assunção,
terra do povo indígena Truká. A greve
de D. Cappio tinha um objetivo bem definido: revitalização
do rio São Francisco e revogação
do projeto de transposição de suas águas.
Quando chegamos, ainda antes da Missa concelebrada por
vários bispos e padres, uma grande fila do povo
já estava rodeando a capelinha, onde frei Luís,
pacientemente, agradeceu a solidariedade, deu a mão
a cada um e a benção. Quando nos viu,
se levantou, um abraço efusivo, confirmação
de uma amizade de longa data. Frei Luís nos falou
da solidariedade dos índios Truká e Tumbalalá,
vizinhos de Cabrabó. Quando no dia seguinte,
a companhia responsável pela luz elétrica
do sítio, ameaçou cortar a energia, porque
se trataria de uma sobrecarga, os índios disseram:
"Se eles cortam a luz, nós vamos puxar a
nossa luz pra cá. O que é nosso é
do bispo". A lucidez gera luz através de
gestos muito práticos.
Porque essa fila de peregrinação para
o sítio do jejum? A cada dia mais gente, das
pastorais, da Conferência dos Religiosos e Religiosas
(CRB), das paróquias, do MST? Povo simples que
sente, aqui tem alguém que está disposto
a escutá-los e a dar a sua vida por sua causa.
Vieram, sem discurso político; só para
tomar a benção de alguém, que partilha
a austeridade de sua vida e sustenta a sua esperança.
É preciso poder acreditar em alguém. O
crescimento da presença do povo, a adesão
de outras pessoas à greve de fome e a repercussão
deste gesto no exterior, estavam assumindo os contornos
de uma insurgência popular.
Dois projetos, duas lógicas;
Dom Cappio afirma que o projeto de transposição
das águas do rio São Francisco favorece
os grandes. O ministro Ciro Gomes tachou frei Cappio
de "bem intencionado", mas "mal informado".
O próprio site da CODEVASF dá razão
ao frade. Sob a manchete de "O Vale apresenta Alta
Produtividade e ótima opção de
investimento", promete "negócios em
diversas áreas, notadamente na fruticultura,
piscicultura, turismo" e bovinocultura. A CODEVASF
oferece apoio à implantação de
agroindústria, comercialização,
exportação, pesquisa e assistência
técnica. É óbvio que o hidronegócio
não vai favorecer os moradores na beira do rio
S. Francisco que, até hoje, nem saneamento básico
receberam.
Enquanto o projeto governamental promete a salvação
do semi-árido pela fuga ao agro e hidronegócio,
a proposta de D. Cappio é simples e acompanha
um consenso construído pelo povo e os movimentos
sociais da região. Revitalizar o rio e aprender
a conviver com o semi-árido. O consenso é
que essa convivência passa pela "água
de chuva" e sua captação em cisternas
e barragens subterrâneas. O semi-árido
brasileiro é o mais chuvoso semi-árido
do planeta, com uma média de chuva de 750 mm/ano.
Essa água da chuva aliada à água
do rio São Francisco e o Parnaíba faz
a região perfeitamente viável para a vida
humana e para a produção de alimentos.
Eis as duas lógicas: a lógica da "indústria
da seca" e do agro-hidronegócio, e a lógica
da " convivência com o semi-árido".
Por que parou, parou por quê?
O gesto profético de frei Cappio produziu uma
polêmica crescente no interior da Igreja. Um setor
apoiou a postura política do frei, porém
era contra o meio escolhido, a greve de fome. Outro
setor era contra seus objetivos políticos, achando
que a transferência do rio São Francisco
é um projeto que traz mais benefícios
do que prejuízos à população.
Ainda outro setor, em torno dos movimentos sociais e
das pastorais, era a favor dos objetivos e apoiava o
meio da greve de fome, como um recurso último,
legítimo e profético.
Aí entrou em cena o setor institucional da Igreja,
a CNBB, a Nunciatura e o Vaticano. Não se pronunciaram
sobre a validade dos fins, mas chamaram a atenção
do colega sobre o meio escolhido, a greve de fome. Esse
meio, alegavam, é contra "o preceito divino
de não extinguir a vida". Exigiram que o
frei "imediatamente coloque fim a este gesto em
obediência também à Santa Sé",
como diz a carta do prefeito da Congregação
para os Bispos, cardeal Giovanni Battista Re, a D. Cappio,
datada no Vaticano, dia 4 de outubro de 2005, e publicada,
indelicadamente, no site da CNBB.
Aconteceu, que ao mesmo tempo da greve de fome, o Ministério
do Exterior estava preparando uma viagem do presidente
Lula à Itália. Não conseguiu marcar
uma audiência do presidente com o papa Bento XVI.
Logo os diplomatas brasileiros se deram conta que havia
uma relação entre a greve de fome de D.
Luís e a visita do presidente Lula ao papa. Com
cada dia de greve, os trâmites com a Nunciatura
se tornaram mais fáceis, porque havia identidade
de interesses entre Planalto e Nunciatura: acabar com
o jejum do frade.
O Núncio Apostólico, Dom Lorenzo Baldisseri,
acionou, discretamente, seus dois braços: o secretário-geral
da CNBB, D. Odilo Scherer, e o cardeal Re. Ambos traduziram
a ofensa contra "o preceito divino" como "suicídio".
Assumindo uma atitude que poderá terminar com
a sua morte, D. Luís Cappio estaria, como suicida
potencial, infringindo "os princípios da
moral cristã".
Tendo conhecimento dessa postura da Santa Sé,
Jacques Wagner, ministro das Relações
Institucionais, se dirigiu, no mesmo dia 6 outubro,
como o Núncio, com tranqüilidade para Cabrobó.
Sabia que a negociação com frei Luís
Cappio lhe sairia barato. Não precisava levar
mensagem assinada pelo presidente Lula, nem prometer
a interrupção do projeto que causou a
greve de fome do frade. O Governo Federal prometeu apenas
"prolongar o debate", dar continuidade às
obras da revitalização, e abrir as portas
do Palácio do Planalto para uma visita de D.
Luís. Enquanto J. Wagner estava fazendo jogo
de cena na capelinha de São Sebastião,
o Núncio estava esperando na casa paroquial de
Cabrobó, para um segundo round, se preciso for,
de cunho disciplinar, munido com a carta de intimação
do cardeal Re.
D. Luís Cappio interrompeu a sua greve de fome
no momento certo, antes de ser jogado no precipício,
atrás da Sinagoga de Nazaré. Interpretou
o debate oferecido por seu interlocutor, como "um
processo que não durará menos de um ou
dois anos". Ledo engano.
Como é sabido, desde o segundo turno de sua eleição,
Lula está em dívida com Ciro Gomes. O
ministro da Integração Nacional, responsável
pelo comando do projeto de transposição
do rio São Francisco, voltou imediatamente à
cena, declarando que o cronograma de obra não
foi prejudicado. No "amplo debate", segundo
Ciro Gomes, só se poderia tratar de fornecer
mais algumas informações aos ainda desinformados.
Na verdade, o projeto já está em andamento.
O consórcio Logos-Concremat, responsável
pelo gerenciamento da transposição das
águas, já embolsou mais de R$ 8 milhões.
Faz tempo que os cofres públicos estão
pagando faturas emitidas pelo 1º Batalhão
de Engenharia do Exército, responsável
pelo início das obras nos dois pontos do São
Francisco onde começa a sangria do rio (Eixo
Norte e Eixo Leste).
Doar a vida não é suicídio
Neste momento de perda de referenciais éticos
no Brasil, das águas turvas do cenário
político, a figura de Dom Luís Flávio
Cappio surge como uma rocha. Assumiu, na solidão
de sua consciência, a decisão de dar a
sua vida pela vida do povo e do rio. Mas, a greve de
fome não significaria predisposição
ao suicídio, como algumas pessoas advertiram?
Convêm alguns esclarecimentos a respeito. A greve
de fome faz parte dos instrumentos de luta da não-violência.
Ela tem como objetivo uma causa, que é possível
realizar. Para o sucesso da greve de fome conta muito
a opinião pública, o apoio popular e,
como neste caso, a solidariedade eclesial. Com certeza,
a percentagem dos que morrem em conseqüência
de uma greve de fome é menor do que os mortos
pela fome ou pela falta de água no polígono
da seca nordestina. Nesta perspectiva, a greve de fome
se aproxima da abdicação de um privilégio
e de uma partilha exemplar de estruturas de morte. Quando,
no dia do aniversário do rio e do bispo, no dia
4 de outubro, participamos por duas horas da interrupção
do trânsito da estrada que liga Petrolina com
Cabrobó, então a idéia era exatamente
de chamar a atenção pública para
a causa em jogo, de multiplicar o impacto, de ampliar
a audiência da região para evitar a morte.
Na moral cristã existem causas que justificam
a morte, sobretudo quando se trata de um bem maior.
Quando São Francisco decidiu ir a Jerusalém
para falar com o Sultão, a sua decisão
foi considerada de alto risco para a sua vida. Existe
algo como um risco profissional. Isso vale para cada
profissão, seja carvoeiro ou bombeiro. No caso
de um religioso está ligado à coerência
com sua ética profissional. A greve de fome de
D. Cappio não tinha as características
de um suicídio anunciado, mas de uma vacina zelosamente
preparada. Como o veneno da cobra cria anticorpos contra
a mordida de cobra, assim o veneno da fome, assumido
pelo jejum de frei Luís, criou anticorpos contra
a fome do povo e contra a voracidade daqueles que lucram
com a indústria da seca.
Lições e perspectivas
1. A greve de fome de Dom Luís mostrou que é
possível intervir nos processos que pretendem
naturalizar a desigualdade e industrializar a fome.
2. Frei Cappio reintroduziu duas palavras importantes
na discussão, sem falar delas: ruptura e utopia.
Não é por falta de solidariedade que os
movimentos sociais, as pastorais e o povo do vale do
São Francisco rejeitam o projeto da transferência
da água, mas por causa do seu caráter
elitista. A ruptura com as estruturas autoritárias
e faraônicas do projeto permite desconstruir a
legalidade privatizada e radicalizar a democracia.
3. Muitos movimentos sociais e religiosos perceberam
o gesto de frei Luís como tiro de largada. Podem
retomar o leme da história, em vez de arrumar
as cabines no porão do navio. Num momento de
depressão política, o movimento de Cabrobó
devolveu ao povo a esperança. A resistência
é possível, a luta faz sentido.
4. O gesto do indivíduo Luís Flávio
revelou a universalidade de sua causa que é o
pressuposto para alianças douradoras. Desencadeou
um encontro em massa entre peregrinos místicos
e militantes em marcha, entre indígenas e pobres
que vivem ao longo do rio, entre brasileiros do Norte
ao Sul e internacionalistas de todos os países.
5. A luta desencadeada na beira do rio São Francisco
não visa apenas corrigir deformações
residuais do projeto de transposição do
rio, mas seu engavetamento. A luta pela transformação
mobiliza. Quem para de lutar, perde o sonho e a utopia.
6. A causa do rio São Francisco ainda não
é ganha. Se fizermos ressoar a pluralidade das
vozes do povo, é possível ganhá-la.
Como fazer ressoar a voz do povo, a voz das vítimas,
a voz dos que até hoje zelaram pelo rio São
Francisco, morando na beira de um rio que lhes foi alienado?
As audiências sobre o projeto da transposição
do rio São Francisco devem ser transformadas
em instâncias de decisão. O melhor projeto
não vale nada sem a participação
do povo.
7. O jejum de frei Cappio conseguiu em 11 dias o que
a Campanha da Fraternidade 2004 não conseguiu
em 40 dias. Dela mal lembramos o lema: "Água,
fonte de vida". O gesto do jejum aponta para uma
nova pedagogia de revitalização não
só das Campanhas da Fraternidade, mas também
de certas estruturas eclesiásticas, das casas
religiosas e dos escritórios dos movimentos sociais.
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"Altíssimo,
onipotente, bom
Senhor,
teus são o louvor,
a glória, a honra
e toda a bênção.
só a ti,
Altíssimo,
são devidos;
e homem algum é
digno
de te mencionar.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as tuas
criaturas,
especialmente o
senhor irmão
Sol, que
clareia o dia
e com sua luz
nos alumia.
E ele é belo
e radiante
com grande
esplendor:
de ti, Altíssimo,
é a imagem.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela irmã Lua
e as Estrelas,
que no céu
formaste claras
e preciosas e belas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Vento,
pelo ar, ou
nublado
ou sereno,
e todo o tempo,
pelo qual
às tuas
criaturas dás
sustento.
Louvado sejas,
meu Senhor
pela irmã
Água,
que é mui
útil
e humilde
e preciosa e casta.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Fogo
pelo qual iluminas
a noite.
E ele é belo
e jucundo
e vigoroso e forte.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa
irmã
a mãe Terra,
que nos sustenta
e governa,
e produz frutos
diversos
e coloridas flores
e ervas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelos que perdoam
por teu amor,
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Bem-aventurados os
que as sustentam
em paz,
que por ti,
Altíssimo,
serão coroados.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã
a Morte corporal,
da qual homem algum
pode escapar.
Ai dos que morrerem
em pecado mortal!
Felizes os que ela
achar
conformes à
tua santíssima
vontade,
porque a morte Segunda
não lhes
fará mal!
Louvai e bendizei
a meu Senhor,
e dai-lhe graças,
e servi-o com grande
humildade."
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