Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 10/02/2012
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O gesto profético de Dom Luiz Flávio Cappio

Por Paulo Suess

"Depois de quarenta dias em jejum, quando os demônios o assaltaram com promessas, parou seu jejum. Dirigiu-se à sinagoga de Nazaré. Assumiu a mensagem do profeta Isaías que leu: "O Espírito do Senhor me enviou para anunciar uma boa nova aos pobres" (cf. Lc 4,18s.).

No mundo dos pequenos, o Evangelho se situa logo. Interpreta uma situação complexa com muita simplicidade. Inquieta e rouba o sono. Também nós, um pequeno grupo do Cimi e de outras pastorais, perdemos sono para alimentar o sonho. De madrugada, dia 4 de outubro, nos dirigimos de Petrolina à capela São Sebastião, na Roça do Seu Lídio, uns 3 quilômetros de Cabrobó, PE, onde Luís Flávio Cappio, bispo franciscano de Barra, BA, estava desde o dia 26 de setembro em greve de fome. A capela fica próxima ao rio São Francisco, em frente à ilha da Assunção, terra do povo indígena Truká. A greve de D. Cappio tinha um objetivo bem definido: revitalização do rio São Francisco e revogação do projeto de transposição de suas águas. Quando chegamos, ainda antes da Missa concelebrada por vários bispos e padres, uma grande fila do povo já estava rodeando a capelinha, onde frei Luís, pacientemente, agradeceu a solidariedade, deu a mão a cada um e a benção. Quando nos viu, se levantou, um abraço efusivo, confirmação de uma amizade de longa data. Frei Luís nos falou da solidariedade dos índios Truká e Tumbalalá, vizinhos de Cabrabó. Quando no dia seguinte, a companhia responsável pela luz elétrica do sítio, ameaçou cortar a energia, porque se trataria de uma sobrecarga, os índios disseram: "Se eles cortam a luz, nós vamos puxar a nossa luz pra cá. O que é nosso é do bispo". A lucidez gera luz através de gestos muito práticos.
Porque essa fila de peregrinação para o sítio do jejum? A cada dia mais gente, das pastorais, da Conferência dos Religiosos e Religiosas (CRB), das paróquias, do MST? Povo simples que sente, aqui tem alguém que está disposto a escutá-los e a dar a sua vida por sua causa. Vieram, sem discurso político; só para tomar a benção de alguém, que partilha a austeridade de sua vida e sustenta a sua esperança. É preciso poder acreditar em alguém. O crescimento da presença do povo, a adesão de outras pessoas à greve de fome e a repercussão deste gesto no exterior, estavam assumindo os contornos de uma insurgência popular.

Dois projetos, duas lógicas;
Dom Cappio afirma que o projeto de transposição das águas do rio São Francisco favorece os grandes. O ministro Ciro Gomes tachou frei Cappio de "bem intencionado", mas "mal informado". O próprio site da CODEVASF dá razão ao frade. Sob a manchete de "O Vale apresenta Alta Produtividade e ótima opção de investimento", promete "negócios em diversas áreas, notadamente na fruticultura, piscicultura, turismo" e bovinocultura. A CODEVASF oferece apoio à implantação de agroindústria, comercialização, exportação, pesquisa e assistência técnica. É óbvio que o hidronegócio não vai favorecer os moradores na beira do rio S. Francisco que, até hoje, nem saneamento básico receberam.
Enquanto o projeto governamental promete a salvação do semi-árido pela fuga ao agro e hidronegócio, a proposta de D. Cappio é simples e acompanha um consenso construído pelo povo e os movimentos sociais da região. Revitalizar o rio e aprender a conviver com o semi-árido. O consenso é que essa convivência passa pela "água de chuva" e sua captação em cisternas e barragens subterrâneas. O semi-árido brasileiro é o mais chuvoso semi-árido do planeta, com uma média de chuva de 750 mm/ano. Essa água da chuva aliada à água do rio São Francisco e o Parnaíba faz a região perfeitamente viável para a vida humana e para a produção de alimentos. Eis as duas lógicas: a lógica da "indústria da seca" e do agro-hidronegócio, e a lógica da " convivência com o semi-árido".

Por que parou, parou por quê?
O gesto profético de frei Cappio produziu uma polêmica crescente no interior da Igreja. Um setor apoiou a postura política do frei, porém era contra o meio escolhido, a greve de fome. Outro setor era contra seus objetivos políticos, achando que a transferência do rio São Francisco é um projeto que traz mais benefícios do que prejuízos à população. Ainda outro setor, em torno dos movimentos sociais e das pastorais, era a favor dos objetivos e apoiava o meio da greve de fome, como um recurso último, legítimo e profético.
Aí entrou em cena o setor institucional da Igreja, a CNBB, a Nunciatura e o Vaticano. Não se pronunciaram sobre a validade dos fins, mas chamaram a atenção do colega sobre o meio escolhido, a greve de fome. Esse meio, alegavam, é contra "o preceito divino de não extinguir a vida". Exigiram que o frei "imediatamente coloque fim a este gesto em obediência também à Santa Sé", como diz a carta do prefeito da Congregação para os Bispos, cardeal Giovanni Battista Re, a D. Cappio, datada no Vaticano, dia 4 de outubro de 2005, e publicada, indelicadamente, no site da CNBB.
Aconteceu, que ao mesmo tempo da greve de fome, o Ministério do Exterior estava preparando uma viagem do presidente Lula à Itália. Não conseguiu marcar uma audiência do presidente com o papa Bento XVI. Logo os diplomatas brasileiros se deram conta que havia uma relação entre a greve de fome de D. Luís e a visita do presidente Lula ao papa. Com cada dia de greve, os trâmites com a Nunciatura se tornaram mais fáceis, porque havia identidade de interesses entre Planalto e Nunciatura: acabar com o jejum do frade.
O Núncio Apostólico, Dom Lorenzo Baldisseri, acionou, discretamente, seus dois braços: o secretário-geral da CNBB, D. Odilo Scherer, e o cardeal Re. Ambos traduziram a ofensa contra "o preceito divino" como "suicídio". Assumindo uma atitude que poderá terminar com a sua morte, D. Luís Cappio estaria, como suicida potencial, infringindo "os princípios da moral cristã".
Tendo conhecimento dessa postura da Santa Sé, Jacques Wagner, ministro das Relações Institucionais, se dirigiu, no mesmo dia 6 outubro, como o Núncio, com tranqüilidade para Cabrobó. Sabia que a negociação com frei Luís Cappio lhe sairia barato. Não precisava levar mensagem assinada pelo presidente Lula, nem prometer a interrupção do projeto que causou a greve de fome do frade. O Governo Federal prometeu apenas "prolongar o debate", dar continuidade às obras da revitalização, e abrir as portas do Palácio do Planalto para uma visita de D. Luís. Enquanto J. Wagner estava fazendo jogo de cena na capelinha de São Sebastião, o Núncio estava esperando na casa paroquial de Cabrobó, para um segundo round, se preciso for, de cunho disciplinar, munido com a carta de intimação do cardeal Re.
D. Luís Cappio interrompeu a sua greve de fome no momento certo, antes de ser jogado no precipício, atrás da Sinagoga de Nazaré. Interpretou o debate oferecido por seu interlocutor, como "um processo que não durará menos de um ou dois anos". Ledo engano.
Como é sabido, desde o segundo turno de sua eleição, Lula está em dívida com Ciro Gomes. O ministro da Integração Nacional, responsável pelo comando do projeto de transposição do rio São Francisco, voltou imediatamente à cena, declarando que o cronograma de obra não foi prejudicado. No "amplo debate", segundo Ciro Gomes, só se poderia tratar de fornecer mais algumas informações aos ainda desinformados. Na verdade, o projeto já está em andamento. O consórcio Logos-Concremat, responsável pelo gerenciamento da transposição das águas, já embolsou mais de R$ 8 milhões. Faz tempo que os cofres públicos estão pagando faturas emitidas pelo 1º Batalhão de Engenharia do Exército, responsável pelo início das obras nos dois pontos do São Francisco onde começa a sangria do rio (Eixo Norte e Eixo Leste).

Doar a vida não é suicídio
Neste momento de perda de referenciais éticos no Brasil, das águas turvas do cenário político, a figura de Dom Luís Flávio Cappio surge como uma rocha. Assumiu, na solidão de sua consciência, a decisão de dar a sua vida pela vida do povo e do rio. Mas, a greve de fome não significaria predisposição ao suicídio, como algumas pessoas advertiram? Convêm alguns esclarecimentos a respeito. A greve de fome faz parte dos instrumentos de luta da não-violência. Ela tem como objetivo uma causa, que é possível realizar. Para o sucesso da greve de fome conta muito a opinião pública, o apoio popular e, como neste caso, a solidariedade eclesial. Com certeza, a percentagem dos que morrem em conseqüência de uma greve de fome é menor do que os mortos pela fome ou pela falta de água no polígono da seca nordestina. Nesta perspectiva, a greve de fome se aproxima da abdicação de um privilégio e de uma partilha exemplar de estruturas de morte. Quando, no dia do aniversário do rio e do bispo, no dia 4 de outubro, participamos por duas horas da interrupção do trânsito da estrada que liga Petrolina com Cabrobó, então a idéia era exatamente de chamar a atenção pública para a causa em jogo, de multiplicar o impacto, de ampliar a audiência da região para evitar a morte.
Na moral cristã existem causas que justificam a morte, sobretudo quando se trata de um bem maior. Quando São Francisco decidiu ir a Jerusalém para falar com o Sultão, a sua decisão foi considerada de alto risco para a sua vida. Existe algo como um risco profissional. Isso vale para cada profissão, seja carvoeiro ou bombeiro. No caso de um religioso está ligado à coerência com sua ética profissional. A greve de fome de D. Cappio não tinha as características de um suicídio anunciado, mas de uma vacina zelosamente preparada. Como o veneno da cobra cria anticorpos contra a mordida de cobra, assim o veneno da fome, assumido pelo jejum de frei Luís, criou anticorpos contra a fome do povo e contra a voracidade daqueles que lucram com a indústria da seca.

Lições e perspectivas
1. A greve de fome de Dom Luís mostrou que é possível intervir nos processos que pretendem naturalizar a desigualdade e industrializar a fome.
2. Frei Cappio reintroduziu duas palavras importantes na discussão, sem falar delas: ruptura e utopia. Não é por falta de solidariedade que os movimentos sociais, as pastorais e o povo do vale do São Francisco rejeitam o projeto da transferência da água, mas por causa do seu caráter elitista. A ruptura com as estruturas autoritárias e faraônicas do projeto permite desconstruir a legalidade privatizada e radicalizar a democracia.
3. Muitos movimentos sociais e religiosos perceberam o gesto de frei Luís como tiro de largada. Podem retomar o leme da história, em vez de arrumar as cabines no porão do navio. Num momento de depressão política, o movimento de Cabrobó devolveu ao povo a esperança. A resistência é possível, a luta faz sentido.
4. O gesto do indivíduo Luís Flávio revelou a universalidade de sua causa que é o pressuposto para alianças douradoras. Desencadeou um encontro em massa entre peregrinos místicos e militantes em marcha, entre indígenas e pobres que vivem ao longo do rio, entre brasileiros do Norte ao Sul e internacionalistas de todos os países.
5. A luta desencadeada na beira do rio São Francisco não visa apenas corrigir deformações residuais do projeto de transposição do rio, mas seu engavetamento. A luta pela transformação mobiliza. Quem para de lutar, perde o sonho e a utopia.
6. A causa do rio São Francisco ainda não é ganha. Se fizermos ressoar a pluralidade das vozes do povo, é possível ganhá-la. Como fazer ressoar a voz do povo, a voz das vítimas, a voz dos que até hoje zelaram pelo rio São Francisco, morando na beira de um rio que lhes foi alienado? As audiências sobre o projeto da transposição do rio São Francisco devem ser transformadas em instâncias de decisão. O melhor projeto não vale nada sem a participação do povo.
7. O jejum de frei Cappio conseguiu em 11 dias o que a Campanha da Fraternidade 2004 não conseguiu em 40 dias. Dela mal lembramos o lema: "Água, fonte de vida". O gesto do jejum aponta para uma nova pedagogia de revitalização não só das Campanhas da Fraternidade, mas também de certas estruturas eclesiásticas, das casas religiosas e dos escritórios dos movimentos sociais.

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Liturgia Dominical
  :: Cântico do Irmão Sol ::

"Altíssimo,
onipotente, bom
Senhor,
teus são o louvor,
a glória, a honra
e toda a bênção.
só a ti,
Altíssimo,
são devidos;
e homem algum é
digno
de te mencionar.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as tuas
criaturas,
especialmente o
senhor irmão
Sol, que
clareia o dia
e com sua luz
nos alumia.
E ele é belo
e radiante
com grande
esplendor:
de ti, Altíssimo,
é a imagem.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela irmã Lua
e as Estrelas,
que no céu
formaste claras
e preciosas e belas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Vento,
pelo ar, ou
nublado
ou sereno,
e todo o tempo,
pelo qual
às tuas
criaturas dás
sustento.
Louvado sejas,
meu Senhor
pela irmã
Água,
que é mui
útil
e humilde
e preciosa e casta.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Fogo
pelo qual iluminas
a noite.
E ele é belo
e jucundo
e vigoroso e forte.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa
irmã
a mãe Terra,
que nos sustenta
e governa,
e produz frutos
diversos
e coloridas flores
e ervas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelos que perdoam
por teu amor,
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Bem-aventurados os
que as sustentam
em paz,
que por ti,
Altíssimo,
serão coroados.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã
a Morte corporal,
da qual homem algum
pode escapar.
Ai dos que morrerem
em pecado mortal!
Felizes os que ela
achar
conformes à
tua santíssima
vontade,
porque a morte Segunda
não lhes
fará mal!
Louvai e bendizei
a meu Senhor,
e dai-lhe graças,
e servi-o com grande
humildade."
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